Policia joga bombas em manifestação contra o governo Michel Temer, na avenida Paulista. Crédito: Paulo Pinto/Fotos Publicas |
Te encontro em Sampa de onde agora se vê quem sobe ou desce a rampa

Te encontro em Sampa de onde agora se vê quem sobe ou desce a rampa

Após manifestações, SP faz reeleitura de Caetano, se consolida como palco político popular e abrigará convenções e comitês


Beto Bombig

A produção cultural brasileira do início dos anos 90 (século 20) foi profundamente afetada pelo desalento e pela desesperança. A primeira eleição direta para presidente após a ditadura militar (1964-1985), em 1989, foi vencida por Fernando Collor, imprimindo uma sofrida derrota para a classe artística, majoritariamente engajada na campanha de Lula (PT), o opositor no segundo turno.

No cinema, a maior expressão desse período é o filme "Terra Estrangeira", dirigido por Walter Salles e Daniela Thomas, todo em preto branco para transmitir a melancolia de jovens que deixavam o Brasil após o confisco da poupança e o desmonte cultural promovidos pelo governo federal. O assunto foi tratado com suingue, ironia e irreverência por Jorge Ben Jor em "W Brasil": "lá da rampa mandaram avisar / que todo dinheiro será devolvido quando setembro chegar".

Em 1991, Caetano Veloso também utilizou o plano inclinado de concreto projetado por Oscar Niemeyer para simbolizar o caos urbano daqueles tempos e a enorme distância entre o povo (cego, alienado e iludido) e o poder central (maracoteiro e vigarista). Assim, na canção "Fora da Ordem", o cantor e compositor baiano diz: "te encontro em Sampa de onde mal se vê quem sobe ou desce a rampa".

Há quem enxergue um toque de sarcasmo no verso. Os paulistas da megalópole "Sampa", coração financeiro do país, estariam, na verdade, pouco interessados em saber quem sobe ou desce a rampa, desconectados do restante do país, muito dependente do estado, e, portanto, também alienados. Na boa poesia, assim como em todas as obras de arte, qualquer interpretação é possível.

Mais de 35 anos depois desse doloroso período da história brasileira, a rampa do Palácio do Planalto e a cidade de São Paulo continuam onde sempre estiveram, apesar de tantas mudanças para melhor e para pior no país. No entanto, a distância entre esses dois pontos parece ter se estreitado.

São Paulo elege e derruba. Aplaude e grita "fora". Foi palco das grandes manifestações populares que marcaram a história recente do Brasil. Na avenida Paulista, marchou, em 2015 e 2016, a nova extrema direita, fardada com suas camisas da seleção, para derrubar do Planalto a ex-presidente Dilma Rousseff (PT). Meses depois, no mesmo local, ocorreram os protestos do "Fora, Temer", contra Michel Temer (MDB), que assumira o cargo.

Passaram também pela Paulista os esquerdistas do movimento "Lula Livre", em 2018 e 2019, e a classe média de centro-esquerda do "Fora, Bolsonaro", em 2021. Na avenida, manifestantes pediram justiça pela vereadora Marielle Franco, assassinada em 2018, e igualdade de direitos para as mulheres. Assim, após a depressão dos anos Collor (1990-1992), São Paulo recuperou o protagonismo conquistado na luta pelas "Diretas Já", em 1983 e 1984, e se consolidou como um estado estratégico na disputa pelo poder.

Nos próximos dias, ao menos quatro dos cinco pré-candidatos a subir a rampa do Planalto no início de 2027 estarão na capital paulista para homologar, em convenções partidárias, suas candidaturas a presidente. Todos planejam ter na cidade um importante comitê de campanha e uma central de difusão de suas ideias e projetos.

No dia 25/7, o PL realizará em São Paulo a convenção que oficializará o fluminense Flávio Bolsonaro como candidato à Presidência. Em 27/7, será a vez do goiano Ronaldo Caiado (PSD). Em agosto, o Missão e o PT farão seus encontros partidários na cidade, nos dias 1º e 2/8, para lançar Renan Santos e Lula, respectivamente. O Novo, de Romeu Zema, ainda não definiu data e local, mas é grande a possibilidade de o evento ocorrer na capital paulista.

Para além das grandes manifestações, são muitos os motivos que explicam a escolha de São Paulo como polo estratégico. As mais óbvias são o tamanho do colégio eleitoral (o maior do país), a diversidade social e cultural de sua gente, a concentração de riqueza, representada pela avenida Faria Lima, e a indústria da comunicação.

Os atuais pré-candidatos a presidente sabem que obter uma boa votação em São Paulo, se aproximar do poder financeiro e testar seus discursos de campanha na cidade são uma receita essencial para quem busca bons resultados em outubro. É inegável, por exemplo, que Lula só foi eleito em 2022 porque obteve quase 45% dos votos válidos no estado contra Jair Bolsonaro (PL) no segundo turno. Na capital, o petista venceu com quase 54%.

Até outubro, a disputa eleitoral pelo coração de quem vive em São Paulo continuará aberta e será, como sempre, árdua e intensa. A única certeza, por enquanto, é que o povo de "Sampa", como gosta de dizer Caetano, passou não apenas a enxergar, mas também a ser decisivo na hora de escolher quem sobe ou desce a rampa.

13 listras

Dos nove presidentes que o Brasil teve desde a redemocratização, apenas um nasceu e pode ser considerado completamente paulista: Michel Temer, nascido em Tietê e deputado federal pelo estado por seis mandatos. Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e Lula construíram suas vidas públicas em São Paulo, mas nasceram no Rio de Janeiro e em Pernambuco, respectivamente.

Jair Bolsonaro (PL) nasceu em Glicério, foi criado em Eldorado e estudou em Campinas, cidades no interior paulista. Sua carreira militar e política, no entanto, se desenvolveu quase toda no Rio de Janeiro. Em 2018, ele obteve quase 70% dos votos do segundo turno no estado - um sarrafo muito alto para seu filho Flávio.

Jota
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