Por Thomas Traumann
A derrota dói. A vida continua.
Mesmo com a pior seleção brasileira desde 1990, a política segue fora dos holofotes até o fim do mês. Enquanto a bola rola para os times que não se deixam dominar passivamente, a movimentação na política não para. Nesta edição, mostro como Renan Santos, o fundador do MBL, se tornou a novidade da campanha com seu discurso 25% Milei, 15% Bukele, 25% anti-Lula e 25% anti-Bolsonaro. Em outro texto, mostro que Renan Santos é o resultado do fracasso dos partidos de direita, que embora concentrem 21% dos eleitores, não conseguem criar uma ideia que não seja a da família Bolsonaro. Essa direita vive uma espécie de Síndrome de Estocolmo, na qual enquanto se diz vítima da novela de intrigas da família Bolsonaro, não consegue criar uma alternativa real de poder.
Nesta newsletter, escrevo ainda sobre as promessas de ajuste fiscal que assessores de Lula têm reproduzido em conversas com o mercado financeiro, mas que ainda não têm o aval do presidente. E como os esforços de Dario Durigan para permanecer no cargo de ministro da Fazenda em um eventual governo Lula 4 dependem do resultado que o seu antigo chefe Fernando Haddad colherá nas urnas.
1. O outsider vem aí
Além de serem candidatos da direita, baterem em Lula e patinarem na casa dos 3%, Ronaldo Caiado e Romeu Zema têm mais uma coisa em comum: ambos queriam estar na situação de Renan Santos. O candidato do Missão é, até agora, o único fora da polarização Lula-Flávio Bolsonaro que cresceu. É o outsider que vem dando certo.Pesquisa Genial/Quaest de junho mostrou que 23% dos eleitores gostariam de votar em alguém de fora da política, apenas um ponto percentual abaixo dos que gostariam do retorno da família Bolsonaro ao poder e oito pontos a menos dos que torcem pela reeleição de Lula. Entre os eleitores que se dizem independentes, o outsider é a opção de 35%, seguido de 24% que preferem um candidato moderado, 20% Lula e 12% Bolsonaro. Com um discurso que mistura a mão dura contra o crime do salvadorenho Nayib Bukele e o antielitismo do argentino Javier Milei, Renan Santos está ocupando esse nicho.
Renan é um fenômeno da internet. Levantamento da consultoria Bites mostra que, em junho, ele teve mais de 13 milhões de interações nas redes Instagram, X, Facebook e TikTok. É um pouco menos que Lula (14,8 milhões), abaixo de Flávio Bolsonaro (23,9 milhões), mas bem acima dos demais candidatos, como o quarto colocado Zema, que nem chegou aos seis milhões de interações.
- Renan atrai mais a atenção daqueles que não querem votar em Lula nem em Flávio. O seu desafio para se tornar um candidato competitivo é ir além dessa bolha, e acredito que seu avanço vai acontecer mais entre eleitores menos radicais do bolsonarismo e entre jovens que querem algo novo além de Lula - analisa Manoel Fernandes, diretor da Bites.
As ideias de Renan Santos não têm nada da terceira via moderada sonhada por parte da elite. Ele defende a pena de morte para bandidos, que integrantes de facções criminosas não tenham direito a julgamento, a fusão de municípios e um mutirão anti-Bolsa Família, pelo qual pessoas que se recusarem a trabalhar perderiam o benefício, uma nova reforma da Previdência, desindexação do BPC (Benefício de Prestação Continuada) e da aposentadoria do salário mínimo, desvinculações de gastos obrigatórios na saúde e na educação e a criação de uma reserva pública em criptomoedas pelo governo federal.
Para se diferenciar dos dois líderes, Renan é o candidato das declarações fortes e soluções fáceis para problemas complexos. Suas ideias por ele mesmo:
- Estou à direita do Flávio Bolsonaro. Não existe terceira via. O Flávio é um candidato do centro, o Lula é candidato do centro e os outros dois, o Zema e o Caiado, são o "centro dois" e o "centro três", o cara que fica no banco de reservas do Flávio.
- O Lula tem uma fadiga de material. Ele preparou uma eleição onde enfrentaria um Bolsonaro no segundo turno. Contra o Bolsonaro ele pode vencer. Não sendo o Bolsonaro, ele não vence.
- O Bolsa Família como você conhece vai acabar, basta eu chegar ao poder. Quando uma pessoa com condição de trabalho ir buscar o cartão de auxílio, ele vai receber uma oferta de emprego. Vamos gerar frentes de trabalho nas regiões mais humildes do Brasil para que as pessoas possam trabalhar, sair da inércia e ajudar os municípios a se tornarem mais organizados, arrumar a infraestrutura e deixar cidades mais limpas e mais bonitas. Homens e mulheres saudáveis e jovens precisam trabalhar, porque isso é uma forma de respeitar os outros milhões de brasileiros que estão justamente pagando essa conta
- Vamos, em vez de ficar com o Pé-de-Meia, aquele programa horroroso da Tabata Amaral e do Lula, que dá dinheiro só para a criança ir à escola. Olha que absurdo: a criança vai à escola, que é uma obrigação da família colocá-la na escola, e aí você dá um dinheiro. Tem gente que gasta esse dinheiro no Tigrinho. Não vai ser assim. Eu vou acabar com o Pé-de-Meia.
- Uma pessoa que cometeu uma série de homicídios deve pegar uma prisão que não saia mais da cadeia. Prisão perpétua e pena de morte são discussões que devem ter no Brasil.
- O Lula é cachorrinho da China.
- O Flávio Bolsonaro não pode ver um cara envolvido num escândalo, ele vê um esquema e fala: "por favor, me inclua". Não existe meio gângster.
- A campanha do Flávio é uma campanha morta. É uma campanha de defesa, não é uma campanha de ataque. Ela não vai avançar sobre os outros eleitorados, ela tem que defender o que ele tem por conta do legado do pai, e esse tipo de campanha costuma perder.
- Parece aquelas confusões familiares de novela, fofoca, briga palaciana ridícula. Aí fica o Flávio fazendo vídeos ridículos com inteligência artificial, jogando bomba no Comando Vermelho, mas está tomando bomba da mulher do pai.
- Os maiores inimigos do Brasil são os políticos da região Nordeste. Eles transformam aquela região no inferno e vivem de se apropriar de dinheiro tirado de São Paulo, tirado do Rio de Janeiro, tirado de Minas, tirado do Rio Grande do Sul, do Paraná, de Goiás, e nós temos que reduzir o poder deles. É um projeto sobre a redução do dinheiro desses parasitas.
- (Se ganhar) O Planalto será uma startup. Eu não vou ficar lá no gabinete do presidente, eu vou ficar lá com os caras, tocando essas coisas e, quando eu não estiver lá, quem vai estar? O Kim (o deputado federal Kim Kataguiri). Ele vai ser uma espécie de superministro das reformas do Estado brasileiro.
Aos 42 anos, tem um curso de Direito largado pela metade e o mérito de ter criado do zero o Movimento Brasil Livre (MBL), grupo de direita que ganhou milhões de seguidores nas redes com a campanha pelo impeachment de Dilma Rousseff em 2016. Em 2018, o MBL espalhou a mentira de que a vereadora Marielle Franco, assassinada por milicianos, tinha envolvimento com o tráfico. Seus jovens integrantes costumam encenar protestos contra a esquerda em universidades públicas para viralizar os vídeos nas redes sociais - como na quinta-feira (2), quando tumultuaram uma aula de Fernando Haddad na Unicamp.
O MBL apoiou Jair Bolsonaro em 2018 e rompeu um ano depois. Em 2023, o movimento conseguiu criar seu partido, o Missão, assim como fizeram movimentos com história parecida, como o Podemos, na Espanha, e o Movimento Cinco Estrelas, na Itália.
Renan Santos é uma versão repaginada do mesmo fenômeno antissistema que elegeu Jânio Quadros (1961), Fernando Collor (1989) e Jair Bolsonaro (2018). As suas chances de sucesso em outubro são ralas, mas o seu tiro é de longo prazo. Ele vai nacionalizar o seu nome e virar uma alternativa em 2030 se o próximo governo, seja de Lula, seja de Bolsonaro, fracassar.
2. A Síndrome de Estocolmo dos não-bolsonaristas
A oposição não-bolsonarista vive um choque de realidade. Depois de um primeiro quadrimestre ruim, o presidente Lula reassumiu o favoritismo para as eleições de outubro. A campanha de Flávio Bolsonaro vive de crise em crise há mais de 50 dias, sendo a mais recente um embate autofágico no qual a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro dá de barato a derrota do enteado e briga pela herança da extrema direita sob um eventual governo Lula 4. As demais candidaturas são de uma fragilidade comovente. Faltando pouco mais de três meses para o primeiro turno, a direita não-bolsonarista se sente impotente em meio à novela de intrigas bolsonarista e sem força para enfrentar Lula.Com a necessária cautela de que na política brasileira três meses equivalem a três anos, a direita só tem a si para culpar pelo beco sem saída em que se meteu. Desde a posse de Lula, essa parte da oposição preferiu acreditar em uma visão edulcorada da realidade na qual Jair Bolsonaro, graciosamente, iria escolher um governador de direita como seu sucessor em troca de uma futura anistia pela condenação por tentar um golpe de Estado.
Esse cenário partia da premissa de que Bolsonaro faria um cálculo racional: como ele não poderia ser candidato e seus filhos são um baú de problemas, a aposta mais segura seria escolher um governador como Tarcísio de Freitas, sem carisma, mas com a possibilidade de ampliar a votação para a parcela do eleitorado moderado. Era bom demais para ser verdade.
Acreditando que Bolsonaro cederia sua liderança (e justiça seja feita, o ex-presidente nunca fez essa promessa), a direita virou sua cúmplice. A oposição supostamente moderada minimizou as depredações do Congresso, STF e Palácio do Planalto, qualificou de perseguição política as ações do STF para manter a democracia constitucional, maximizou os erros do ministro Alexandre de Moraes, desprezou as tentativas do então ministro Fernando Haddad de consertar o caos fiscal herdado de Paulo Guedes e convenientemente esqueceu a influência de Eduardo Bolsonaro pelo tarifaço norte-americano.
No vale tudo para derrotar Lula, a direita não-bolsonarista perdeu sua identidade.
Como na controversa tese da Síndrome de Estocolmo, mecanismo pelo qual para sobreviver o refém desenvolve um vínculo de afeto com o sequestrador, a direita não-bolsonarista vive sob um trauma. Não quer um governo Lula 4, mas não toma iniciativa para impedir isso sem ser via o bolsonarismo.
Quando Jair Bolsonaro escolheu Flávio, e não Tarcísio de Freitas, a direita seguiu errando. As duas candidaturas que deveriam representar essa oposição moderada - os ex-governadores Ronaldo Caiado e Romeu Zema - parecem mais preocupados em não ferir os sentimentos dos Bolsonaros do que construir uma alternativa política. Ganha uma passagem para Goianésia quem lembrar de uma proposta do programa de governo de Caiado. No único momento em que ousou criticar Flávio Bolsonaro, Zema quase perdeu a legenda do Novo. Não é de se espantar que os dois podem terminar atrás do outsider Renan Santos.
O problema está na oferta, não na demanda. Pesquisa Genial/Quaest aponta que os bolsonaristas radicais são apenas 12% dos brasileiros, enquanto 21% se qualificam como de direita não-bolsonarista. Ou seja, em tese, haveria espaço para uma outra candidatura de direita sem o sobrenome Bolsonaro. A prática, no entanto, indica que essa candidatura precisa de ideias e pernas próprias.
Além do equívoco de dar como certa a candidatura Tarcísio, parte da responsabilidade desta direita ser refém da família Bolsonaro está no Congresso. Assim como a economia nos ensina sobre como a riqueza do petróleo pode ser um problema para o desenvolvimento social de um país (vide o caso da Venezuela), a oposição que gira em torno do Centrão vive a doença das emendas. Com o dinheiro garantido das emendas parlamentares, o Centrão deixou de disputar o protagonismo do governo, como bem ou mal faziam o PMDB e o PFL. Sem precisar de ministérios para colocar em prática políticas públicas, deputados e senadores do Centrão viraram vereadores federais. Como não tem ideias para defender, os parlamentares do Centrão terminaram no papel de figurantes dos cortes de internet dos radicais bolsonaristas.
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3. É possível vencer sem Michelle?
A campanha de Flávio Bolsonaro está numa areia movediça, a mistura de areia fina, argila e água que age como um líquido quando você se move devagar, mas endurece se a pessoa se debate. Ao contrário dos filmes, a densidade da areia movediça é maior que a do corpo humano, o que impede afogamentos totais. Atolada, a pessoa não sai do lugar se não tiver paciência e um plano de como chegar à terra firme.Flávio Bolsonaro reagiu mal aos vídeos de Michelle Bolsonaro, que o acusou de desrespeitá-la e desobedecer às ordens do pai. Ele manteve sua decisão de apoiar o ex-inimigo Ciro Gomes no Ceará (o pretexto da reclamação de Michelle), não abriu espaço no comando da campanha para a madrasta e, principalmente, aumentou o volume de ataques nas redes sociais. Em um deles, depois de atacar Michelle e a senadora Damares Alves, o assessor internacional da família Bolsonaro, Paulo Figueiredo, disse que "mulher vota estatisticamente muito mal. Principalmente mulheres solteiras. Mulheres casadas, em geral, tendem a acompanhar o voto do marido. Mulheres solteiras, não. Podem arrancar os pentelhos das calcinhas, fazer o que quiser, principalmente as feministas, que têm mais pentelhos, mas eu quero dizer a vocês: isso é estatística".
O vídeo foi postado na sexta-feira (26), mas somente na quarta-feira (1º) Flávio Bolsonaro se pronunciou, e ainda assim depois que o próprio Paulo Figueiredo divulgou vídeo sugerindo ao candidato que o desautorizasse. Dias depois, o bolsonarismo passou a divulgar montagens de Michelle com uma camisa do PT por ter elogiado a Política Nacional de Educação Bilíngue de Surdos, lançada pelo Ministério da Educação do governo Lula. No sábado (5), a ex-primeira-dama (a quem os bolsonaristas agora só se referem pelo sobrenome de família, Michelle Firmo) disse que "o bem das pessoas deve prevalecer sobre as diferenças, acima de qualquer ideologia ou partido". Só deu mais munição à guerrilha digital da extrema direita.
Nenhuma pesquisa de tracking registrou até agora um efeito relevante da crise de Flávio Bolsonaro com Michelle. Os índices de Flávio Bolsonaro seguem no mesmo lugar. Como na alegoria da areia movediça, a crise não vai afogar o candidato, mas pode deixá-lo patinando por semanas, tempo precioso numa campanha tão apertada. Sem Michelle, a campanha de Flávio Bolsonaro fica mais longe da terra firme.
Assim como o pai, Flávio Bolsonaro tem um desempenho ruim entre as mulheres e tentava reduzir a rejeição com a propaganda de que era um "Bolsonaro vacinado". O rompimento com Michelle destrói essa construção de imagem. Os líderes evangélicos, que há meses reclamavam que o candidato não os recebia, estão usando a briga familiar para pressionar por mais espaço na campanha.
Michelle é apenas parte dos problemas da campanha. O fantasma de Daniel Vorcaro vai voltar com força depois que a Polícia Federal abriu o primeiro dos três inquéritos para investigar os R$ 61 milhões supostamente usados para financiar a cinebiografia de Jair Bolsonaro.
E ainda tem Trump. As pesquisas internas são unânimes em indicar que a maioria considera que o novo tarifaço norte-americano é de responsabilidade da família Bolsonaro. Na semana passada, Flávio Bolsonaro ampliou sua submissão ao governo Trump ao divulgar carta sugerindo reduzir impostos sobre os cartões de crédito e um ridículo abandono do Mercosul em troca do adiamento do tarifaço.
Só se sai do atoleiro com paciência e um plano. Flávio precisa urgentemente dos dois.
4. O pior cenário do PL
A brigalhada na família Bolsonaro levou o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, a imaginar o que seria o seu pior cenário: Flávio Bolsonaro perde a eleição e a gigantesca bancada do PL se esfacela. Michelle leva parte da bancada para o Republicanos e Nikolas Ferreira forma seu próprio partido ou se associa ao Novo.5. As juras de ajuste
Em conversas reservadas com executivos de bancos e empresários, ministros do governo Lula reconhecem a necessidade de um ajuste nas contas públicas num eventual novo governo. Eles dizem estudar uma redução no índice de reajustes de gastos do arcabouço fiscal de 2,5% ao ano para menos de 2%, uma mudança nos critérios de políticas sociais, como o BPC, um freio nos gastos parafiscais (que estão fora do controle do arcabouço), a retomada da agenda parada no Congresso de reforma da previdência dos militares e supersalários dos servidores públicos. Pressionado, um ex-ministro muito próximo de Lula falou de uma nova reforma da Previdência.A agenda agradou, mas tem um pequeno problema: ninguém conversou com o presidente Lula.
6. O ministro em campanha
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, está em campanha para ficar no cargo num eventual governo Lula 4. Ganhou pontos com a rapidez com que entregou o programa de refinanciamento de dívidas Desenrola, o crédito para motoristas de Uber e as medidas para atenuar os efeitos da guerra do Irã. Avançou mais com as declarações fortes contra a família Bolsonaro e seu lobby pelo tarifaço norte-americano.A candidatura Durigan, no entanto, depende do desempenho do seu antigo chefe Fernando Haddad ao governo paulista. Se Haddad sair enfraquecido das urnas, contamina as chances de o ministro ficar no cargo.
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7. O desafio de Haddad
A pesquisa Datafolha reforçando a possibilidade de o governador Tarcísio de Freitas ser reeleito no primeiro turno é uma amostra do desafio do ex-ministro Fernando Haddad. Segundo o levantamento divulgado no domingo, Tarcísio tem 46% das intenções de voto que se traduzem em 52% dos votos válidos. Haddad, com 30% das intenções de voto, teria 34% dos votos válidos. Embora os candidatos nanicos sejam diferentes, o cenário é o mesmo da pesquisa anterior de março.Levar a eleição do Estado de São Paulo para o segundo turno é uma obrigação do PT. Sem uma campanha efetiva no segundo turno no estado que concentra 22% dos votos brasileiros, a campanha de Lula entra na zona de risco. Foi por isso que o presidente Lula impôs a Haddad a missão de ser candidato, fez a sul-mato-grossense Simone Tebet mudar de domicílio eleitoral e incentivou Marina Silva a se candidatar ao Senado. O trio de ex-ministros, todos mais moderados que a média do lulismo, é a aposta de Lula para impedir que, a partir de São Paulo, o bolsonarismo construa sua volta ao Palácio do Planalto.
Com a Copa do Mundo e a pouca atenção do eleitorado às disputas estaduais, é factível supor que Haddad possa melhorar seu desempenho. Entre os que pretendem votar em Lula, só 66% dizem preferir Haddad para governador - o que sugere um espaço de crescimento. Surpreendentemente, a pesquisa Datafolha mostra três candidatos da extrema esquerda do Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU), do Partido Comunista Brasileiro e da União Popular - somados com 12%. É um voto de protesto numa eleição que, pela segunda vez, apresenta aos eleitores a opção entre Tarcísio e Haddad.
8. American Way
O ato do Departamento do Tesouro americano de sancionar dois brasileiros e três empresas nacionais por suspeitas de ligação com o PCC causou mais medo na Faria Lima do que nas quebradas controladas pelas facções. A ação afeta mais o dia a dia de bancos e grandes empresas do que a rotina do crime organizado.Até quarta-feira (1), parte do mercado trabalhava no modo wishful thinking, pelo qual a decisão da Casa Branca de decretar o PCC e o CV como facções terroristas era apenas para fustigar o governo Lula. Desde o anúncio das sanções, no entanto, o pânico se instalou. Assustados, grandes bancos estão reforçando seus compliances em busca de apertar normas contra a lavagem de dinheiro para se prevenir contra clientes indesejáveis.
Devido à publicação do Tesouro americano, a Polícia Federal teve de adiantar uma operação contra o grupo criminoso sancionado. A investigação do grupo, suspeito de ter lavado mais de R$ 10 bilhões nos Estados Unidos, começou em 2023 com a prisão de um brasileiro na Flórida. Avançou com base na cooperação entre autoridades americanas e brasileiras.
A operação da Polícia Federal estava organizada desde o mês passado, faltava localizar o líder do grupo, Victor Shimada, para ser deflagrada. A publicação das sanções pelo governo norte-americano obrigou a PF a antecipar a operação sem achar Shimada, que está foragido. O primeiro episódio da aplicação prática mostra que tratar facções como terroristas é pouco eficiente no combate aos criminosos. A Faria Lima deve temer suas consequências mais do que o PCC e o CV.
9. A eleição do W.O.
Terceiro maior colégio eleitoral do país, o Rio de Janeiro caminha para ter uma eleição decidida por W.O. em favor de Eduardo Paes. É resultado da soma dos erros do PL e de Flávio Bolsonaro em ter um candidato minimamente viável com ações policiais que expõem a ligação da política local com as milícias e o tráfico.Na quinta-feira (2), uma operação da Polícia Federal prendeu o pastor Márcio Poncio por suposta ligação com o bicheiro Adilson Oliveira Coutinho Filho, suspeito de contrabando e falsificação de cigarros. Foram tomadas medidas também contra Rodrigo Bacellar, ex-presidente da Assembleia Legislativa, e do grupo político de Douglas Ruas, do PL, atual presidente da Alerj e pré-candidato ao governo.
Além de desconhecido do eleitorado, Douglas Ruas é do grupo político de Bacellar e do ex-governador Cláudio Castro. De acordo com o repórter Mahomed Saigg, do G1, os nomes de Castro e de outros políticos estão numa lista de pagamentos encontrada pela PF com Adilsinho em 2022 e cuja investigação levou à operação. Castro também é suspeito de ter recebido dinheiro de Daniel Vorcaro, do Banco Master.
Assim, seu grupo na Alerj e a proximidade com Castro penduram duas âncoras pesadas na candidatura de Douglas Ruas. Sua principal chance era assumir o governo do Rio devido à confusão na linha sucessória. O STF, no entanto, negou suas ações e manteve no cargo o desembargador Ricardo Couto, hoje o desconhecido mais bem avaliado do estado.
Durante a semana, o ministro Flávio Dino devolveu para julgamento a ação que define se a eleição para mandato-tampão no Rio será direta ou indireta (por este formato, Ruas seria eleito). Como o recesso do Supremo vai até 3 de agosto e o julgamento ainda precisa ser marcado, a chance de haver uma eleição para escolher um governador para atuar por dois ou três meses é perto de zero.
Em 2022, com a máquina nas mãos, Jair Bolsonaro venceu Lula da Silva no Rio por 56,53% a 43,47%. Sem Ruas no cargo, sem a máquina para negociar o apoio dos prefeitos, o bolsonarismo é um protagonista como qualquer outro no Estado do Rio. Se o ex-prefeito Eduardo Paes, candidato de Lula, vencer as eleições no primeiro turno, como sugerem as pesquisas, a situação de Flávio Bolsonaro no estado fica crítica.
10. Fique atento
- Mesmo com o Brasil desclassificado, a política segue fora do radar do grande público. É a hora da imolação dos culpados, Carlo Ancelotti à frente, e de se preparar para a volta do Brasileirão.
- Na terça-feira (7), Flávio Bolsonaro participa em Washington de uma audiência pública sobre o tarifaço imposto pelo governo Trump ao Brasil. É um perde-perde. Se o tarifaço for mantido, Flávio Bolsonaro é culpado. Se for adiado, a questão será o que ele prometeu para obter a vantagem.
- É a última semana de trabalho do Congresso até o esforço concentrado em agosto. Davi Alcolumbre ameaça aprovar a pauta-bomba que concede aposentadoria especial para agentes de saúde ao custo de R$ 3 bilhões por ano.
- O governo anuncia o aumento de 30% para 32% do etanol na gasolina. É uma bondade com o agro, opositor de Lula da Silva.
- Escolhido pelo presidente Lula, Camilo Santana será o novo líder do PT no Senado.
- O Tesouro prepara uma intervenção no mercado de NTN-Bs, os títulos públicos atrelados à inflação.
O Globo
https://oglobo.globo.com/politica/thomas-traumann/coluna/2026/07/o-outsider-vem-ai.ghtml





