Flávio tenta virar o jogo do tarifaço, mas pode aprofundar seu desgaste, por Luiz Carlos Azedo

Flávio tenta virar o jogo do tarifaço, mas pode aprofundar seu desgaste, por Luiz Carlos Azedo

Lula sentiu o cheiro de animal ferido na floresta. Trabalha para colar no clã Bolsonaro a responsabilidade política pelo tarifaço, ainda que a decisão formal pertença à Casa Branca

As audiências públicas sobre o tarifaço a ser aplicado às exportações brasileiras pelo presidente Donald Trump foram transformadas em palanque eleitoral pelo senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência da República, que tenta desfazer a imagem de que o bolsonarismo apoiou ou, no mínimo, estimulou as medidas da Casa Branca contra empresas brasileiras. O Itamaraty acompanha as audiências, mas não participará formalmente, a não ser com observadores, porque privilegia as negociações técnicas entre os dois governos, que atravessam um momento de turbulência, mas não foram de todo interrompidas. Ou seja, não queimou os navios.

Em Washington, ao mesmo tempo em que tenta se apresentar como defensor dos exportadores brasileiros, Flávio Bolsonaro precisa administrar o passivo político acumulado por sua própria família nesse assunto. Seu irmão, Eduardo Bolsonaro, hoje radicado nos Estados Unidos, e seu aliado Paulo Figueiredo, neto do ex-presidente João Figueiredo, foram defensores assumidos da linha de pressão de Trump contra o governo Lula e acabaram associados ao ambiente político que favoreceu a escalada tarifária. Agora, com a crise comercial no centro da disputa presidencial, essas declarações vêm sendo exumadas e usadas pelo Planalto contra Flávio Bolsonaro.

A ida de Flávio à audiência pública do Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) foi desenhada como operação de contenção de danos, mas pode se tornar uma armadilha política. Seu objetivo é não entrar na campanha de 2026 com a pecha de "traidor da pátria", sendo corresponsável por uma agressão econômica a setores estratégicos do agronegócio, da indústria e da pauta exportadora brasileira.

A operação do candidato de oposição é arriscada, porque, em vez de apagar o rastro anterior, pode reavivar a memória das posições adotadas pelo bolsonarismo ao longo do conflito com o governo Lula e reforçar a acusação de oportunismo. Flávio se enrolou ainda mais ao defender, na prática, que a entrada em vigor das novas tarifas fosse adiada até depois das eleições brasileiras, sob o argumento de que a medida poderia favorecer politicamente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

A declaração foi politicamente desastrosa. Deslocou o debate do terreno econômico e diplomático para a disputa eleitoral, como se o problema central não fosse o impacto sobre empresas, empregos e exportações, mas sim o efeito da sobretaxa no resultado da eleição presidencial. Deu para Lula o argumento de que Flávio não discute a legitimidade das tarifas nem a defesa do interesse nacional, mas apenas calibrar o calendário de implementação das tarifas para não prejudicar sua eleição.

Foro de negociação


Lula sentiu o cheiro de animal ferido na floresta. Trabalha para colar no clã Bolsonaro a responsabilidade política pelo tarifaço, ainda que a decisão formal pertença à Casa Branca. A narrativa oficial é a de que a investigação comercial americana e a retórica punitiva contra o Brasil foram fomentadas pelo clã Bolsonaro por meio de seus interlocutores nos Estados Unidos.

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O ministro do Desenvolvimento, Márcio Elias Rosa, não tirou por menos. Disse que a ida de Flávio à audiência é "ineficaz" e "pouco sincera". A crítica resume a percepção do governo. A audiência virou extensão da campanha presidencial, para demonstrar ao empresariado e ao eleitor conservador brasileiros que Bolsonaro 01 tem trânsito em Washington e capacidade de interlocução com a direita americana. Busca ser uma ponte privilegiada com o trumpismo, para transformar em ativo aquilo que, até aqui, tornou-se passivo eleitoral: a afinidade ideológica da família com o governo dos EUA.

Para Lula, a crise oferece uma clivagem favorável ao governo. Em vez de se limitar ao embate ideológico clássico entre petismo e bolsonarismo, o Planalto tenta reposicionar a discussão em termos de soberania econômica e defesa do interesse nacional. O bolsonarismo deixa de ser apenas adversário interno e passa a ser retratado como força disposta a tolerar - ou até estimular - medidas de um governo estrangeiro contra empresas e trabalhadores brasileiros, desde que isso enfraqueça o Palácio do Planalto.

Esse ataque alcança segmentos refratários à reeleição de Lula do agro e da indústria que têm peso regional, influência política e aversão a aventuras que atinjam seus negócios. Mas a outra dimensão do problema, mais importante, é a negociação técnica, que está sendo atropelada pelo debate eleitoral. O Itamaraty e o Ministério do Desenvolvimento sustentam que o espaço real de negociação não é a audiência pública, mas as conversas bilaterais e reservadas mantidas com a administração americana.

A opção do governo brasileiro de não participar formalmente das audiências, enviando apenas observadores, decorre dessa avaliação. As sessões do USTR servem para ouvir importadores, exportadores, associações setoriais, consultorias e representantes empresariais. Mas não são o foro de um acordo entre os governos. A aposta do Itamaraty brasileira é demonstrar, nas tratativas técnicas, que a relação comercial com os Estados Unidos não se enquadra na lógica punitiva sugerida pelo USTR e que o tarifaço, além de politicamente contaminado, é economicamente contraproducente para os próprios Estados Unidos, que tem superavit comercial com o Brasil.

Correio Braziliense
https://blogs.correiobraziliense.com.br/azedo/flavio-tenta-virar-o-jogo-do-tarifaco-mas-pode-aprofundar-seu-desgaste/