André Moor, do Bradesco BBI: ofertas subsequentes em ritmo acelerado - Foto: Rogerio Vieira/Valor |
Estrangeiro traz otimismo para retomada de IPOs na B3

Estrangeiro traz otimismo para retomada de IPOs na B3

Os sinais são positivos e os investidores estrangeiros estão demonstrando interesse pelas operações

Por Fernanda Guimarães - De São Paulo

As emissões de ações de companhias brasileiras começaram o ano mais aquecidas, reforçando as expectativas de que 2026 será de retomada mediante um impulso do fluxo de capital estrangeiro, que tem irrigado mercados emergentes. A visão, já predominante, é que o jejum se encerrará inclusive para aberturas de capital na bolsa brasileira após uma entressafra inédita de quatro anos.

Os sinais são positivos e os investidores estrangeiros estão demonstrando apetite nas operações. A quebra da entressafra para ofertas iniciais de ações (IPOs, na sigla em inglês) de companhias brasileiras ocorreu na semana passada, mas nos Estados Unidos. A oferta do PicPay, na Nasdaq no topo da faixa indicativa, teve forte demanda. Na mesma esteira, o Agibank lançou seu IPO, operação também fora do país, corroborando a leitura de que investidores estrangeiros têm interesse por nomes brasileiros.

Por aqui, o setor de saneamento deverá ser o abre-alas para IPOs, e as operações já foram engatilhadas. BRK e Aegea estão com sindicatos de bancos contratados. Lá fora, o Agibank deve precificar seu IPO no dia 10 e a companhia área Azul lançou uma oferta de ações que poderá somar até US$ 950 milhões, um último passo de seu plano de reestruturação previsto no Chapter 11, correspondente à recuperação judicial nos EUA.

Também na área de saneamento, a Copasa prepara sua oferta subsequente ("follow-on"), que culminará em sua privatização, já no próximo mês.

A realocação global de portfólios, beneficiando os emergentes, deve sustentar essa agenda, algo já notório no fluxo de entrada de recursos de estrangeiros na bolsa local. Apenas em janeiro a entrada de capital externo na B3Cotação de B3 somou R$ 26,3 bilhões.

"O movimento tectônico de recursos começou a atingir os mercados emergentes", diz o sócio do BTG Pactual, Fabio Nazari, responsável pela área de renda variável da instituição financeira.

O resultado, segundo ele, será a reabertura do mercado e a estimativa de IPOs de empresas brasileiras não só nos Estados Unidos, mas também no mercado local. As companhias já estão, segundo ele, se movimentando.

O sócio da área de mercado de capitais do escritório Pinheiro Neto Guilherme Sampaio diz que o rearranjo global dos recursos ajudou a renovar o otimismo, após um longo período de entressafra. "Observamos uma virada clara de humor", afirma.

Marcelo Millen, diretor de mercado de ações para América Latina no Citi, aponta que o ano deve ser mais positivo exatamente por conta da continuação dos fluxos para mercados emergentes. O cenário é reforçado pela esperada queda de juros por aqui -- que leva a uma saída de recursos da renda fixa em direção à variável - e pelo bom desempenho visto atualmente nas bolsas. "Vamos ter mais IPOs, tanto lá fora como no Brasil. A janela está aberta, há interesse pelo Brasil."

Para André Moor, responsável pelo Bradesco BBI, as ofertas subsequentes também serão retomadas em ritmo mais acelerado, puxadas pela melhora no preço das ações. "Teremos um mercado de capitais mais ativo. A mentalidade é aproveitar que a bolsa está negociando bem para se colocar mais gasolina no tanque para atravessar o segundo semestre", diz.

George Costa e Silva, que comanda a área de renda variável do BBI, projeta para 2026 15 ofertas de ações, com um volume de R$ 15 bilhões. "Vemos três teses. Operações oportunísticas, empresas levantando capital para Capex [investimentos de capital] e aquelas com necessidade de capital para desalavancagem", diz.

O movimento tectônico de recurso começou a atingir os mercados emergentes"

- Fabio Nazari

Entre aquelas que vão captar para investir a tendência é de concentração em infraestrutura e energia, que vão precisar de recursos para os leilões já previstos.

Leonardo Cabral, que lidera o banco de investimento do Santander, também acredita em um cenário mais positivo para ofertas de ações. "Estamos começando a ver um reaquecimento de ofertas."

O chefe global do banco de investimento do Itaú BBA, Roderick Greenlees, aponta que há setores na bolsa que estão bem avaliados, tanto que os blocos na bolsa ("block trades") já começaram a refletir essa melhora, sendo que existe um "pipeline de follow-ons". "O que ditará o ritmo das ofertas será o que será dito sobre política fiscal", afirma.

Outro sinal de que o ano será de mais otimismo para esse mercado também deve vir do perfil das ofertas, com menos presença de operações para redução de endividamento. O responsável pela renda variável do Banco XP, Glenn Mallett, afirma que as captações para crescimento devem voltar a ocorrer.

O calendário do ano pode ser um desafio por conta das eleições, evento que tipicamente traz volatilidade. O corresponsável pelo banco de investimento do Bank of America (BofA), Bruno Saraiva, aponta que mais operações devem ser vistas com o corte de juros, o que torna sua visão ainda mais positiva para 2027. Segundo ele, as operações tendem a ganhar maior ritmo após ser definido o processo eleitoral do próximo ano.

Já o responsável pelo banco de investimento do UBS BB, Anderson Brito, afirma que a retirada da incerteza das eleições deve impulsionar uma retomada mais forte das operações, com o mercado retomando apetite ao risco. Antes disso, segundo o executivo, o mercado seguirá mais focado em "follow-ons". "O mercado se abrirá para novos papéis depois das eleições", comenta. O executivo espera um mercado no próximo ano de 15% a 20% superior a esse ano em termos de volume financeiro.

Responsável pela área de renda variável do Goldman Sachs, Fabio Federici destaca que é natural que, em anos de eleição, se tenha uma atividade mais reduzida no mercado de capitais. O executivo, no entanto, aponta que o nível de interesse de investidores no Brasil tem aumentado por conta de um monumento de diversificação de portfólios. "Hoje temos muito mais diálogo com as empresas querendo se preparar. Há emissores trabalhando para fazer IPO no Brasil e outros fora", afirma.

O chefe da área de renda variável do Morgan Stanley para a América Latina, Marcello Lo Re, disse que vê um IPO ocorrendo no mercado brasileiro nos próximos 12 meses a 18 meses. "Muitas empresas que vão acessar o mercado vão tomar uma decisão consciente e tática, para poder acelerar crescimento e ter moeda de troca para se fazer um M&A [fusão e aquisição]. No Brasil se adiou muito a decisão [de realizar um IPO] e não tem por que esperar mais", afirma. (Colaborou Álvaro Campos)

Valor
https://valor.globo.com/financas/noticia/2026/02/04/estrangeiro-traz-otimismo-para-retomada-de-ipos-na-b3.ghtml