Por: Tales Faria
Poucas pessoas têm tanta capacidade de irritar o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, quanto a ministra das Relações Institucionais.
Mas agora Haddad avalia que Gleisi está tentando jogar o presidente Lula contra ele, ao insinuar que o ministro não está sendo fiel ao presidente.
Na última quarta-feira, 28, a ministra declarou: "Todos têm que entrar em campo, todos têm que vestir a camisa. [...] Eu defendo que todos os quadros nossos, inclusive o ministro (Fernando Haddad), sejam candidatos nesse processo eleitoral. [...] Nós precisamos fazer essa disputa nos estados para a extrema-direita e precisamos instalar os nossos melhores quadros" disse Gleisi ao ser questionada por jornalistas.
Publicamente, no dia seguinte, Haddad reagiu apenas com ironia: "Estou comemorando a Gleisi ter me elogiado." Mas, reservadamente, interlocutores próximos disseram que o ministro ameaçou até desistir da política e voltar para o meio acadêmico. Ele teria dito: "Me dá vontade de pegar o boné."
Os dois se desentendem desde a época em que o então ex-presidente foi preso, em abril de 2018. Eles mantinham visitas constantes a Lula na prisão e disputavam o papel de porta-voz de Lula, que permaneceu candidato até ser declarado inelegível pela Justiça Eleitoral, em outubro de 2018.
Haddad tornou-se candidato como cabeça da chapa do PT ao Planalto, tendo Manuela D'Ávila (PcdoB) como vice. Gleisi passou a campanha adotando um tom crítico em relação ao candidato. Primeiro disse publicamente que ele estava em "estágio probatório". Depois, quando Haddad já tinha chegado ao segundo turno contra Jair Bolsonaro (PL), declarou que Lula, da cadeia, havia lhe mandado um recado: não era para ele visitá-lo mais.
O tom adotado por Gleisi era o de uma bronca, como se Haddad tivesse feito menos campanha de rua do que era preciso para vencer no primeiro turno.
Dentro do PT, Gleisi sempre defendeu uma postura crítica em relação à política econômica do ministro da Fazenda. Haddad se aliou ao grupo que elegeu Edinho Silva sucessor da ministra no comando da sigla.
O grupo de Edinho defendeu a ampliação do diálogo do PT com setores mais alinhados ao centro e à direita para ampliar a penetração eleitoral do partido em outros segmentos da população. O grupo de Gleisi defende que o PT deve ser firme na defesa das ideias de esquerda que regem o partido.
O ministro anunciou que deixará o comando da pasta neste mês, mas que não gostaria de ser candidato a nenhum cargo eletivo neste ano. Prefere atuar na coordenação da campanha pela reeleição de Lula.
No Palácio do Planalto, no entanto, diz-se que Lula quer Haddad como candidato a governador de São Paulo. No PT, praticamente todos os integrantes do comando do partido defendem a candidatura de Haddad como única opção. Pesquisas internas apontariam que ele é o único nome da sigla em condições de levar a eleição contra Tarcísio de Freitas (Republicanos) ao segundo turno.
Gleisi se juntou a Edinho Silva e a ministros como Camilo Santana - que anunciou que deixará a pasta da Educação em abril para concorrer às eleições - na defesa da tese de que Haddad também tem que ser candidato.
Mas o ministro entende as estocadas de Gleisi contra ele e até contra a política econômica como mera provocação e "dor de cotovelo" por não ter conseguido derrotá-lo nas batalhas que sempre mantiveram. Só acha que ela está "passando dos limites".
Correio da Manhã
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