Enquanto o personalista partido de Bolsonaro fustiga Kassab, ele segue privilegiando o interesse coletivo para alcançar objetivos pessoais
Beto Bombig
Um bom conhecedor de Gilberto Kassab o descreve assim: "Sua competência política resulta de atitudes que sugerem a renúncia a projetos individuais aliada ao compromisso com a cooperação". Dessa maneira, colocando os objetivos coletivos acima de seus interesses particulares, o presidente nacional do PSD vem atingindo, desde o início de sua trajetória na política, os seus objetivos pessoais. Parece um contrassenso ou algum tipo de charada. Mas não é.
Em outras palavras, Kassab privilegia o interesse coletivo para extrair dele, em algum momento, a satisfação pessoal. Uma estratégia sofisticada que demanda alto grau de habilidade intelectual para antever cenários, maturidade emocional para lidar com frustrações e controle do tempo para tomar decisões, ativos essenciais na arte da política. Basta lembrar que ele foi deputado federal, prefeito da capital paulista, ministro das Comunicações e fundou um dos maiores partidos do Brasil. Atualmente, ocupa o cargo de secretário de Governo do Estado de São Paulo.
É nesse mesmo Kassab que o chamado bolsonarismo raiz e os neobolsonaristas do PL estão mirando faz algum tempo. Desde o final do ano passado, quando Jair Bolsonaro lançou seu filho Flávio a presidente sem combinar com os demais atores e partidos que sustentam politicamente a centro-direita brasileira, o partido de Valdemar Costa Neto se esforça para empurrar o PSD para o colo de Lula (PT).
Bolsonaro e Valdemar têm estilos personalista e individualista de fazer política. O primeiro quer manter o controle da direita; o segundo, do Congresso. Movimentos nesse sentido são tão explícitos que chegam a levantar dúvidas se o partido do ex-presidente, preso em Brasília, quer mesmo ganhar a disputa pelo Planalto ou apenas alimentar seu elevado fundo partidário, elegendo grandes bancadas, e continuar liderando o pensamento conservador nacional, impondo Flávio a qualquer custo como cabeça de chapa.
De acordo com a coluna "Painel", da Folha de S.Paulo, Valdemar, que embarcou prontamente na canoa de Flávio, agora quer desalojar o PSD do posto de vice na provável chapa do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) à reeleição em São Paulo. "O partido e a bancada vão trabalhar pelo André [do Prado, deputado estadual do PL e presidente da Assembleia Legislativa paulista]", disse o dirigente.
O presidente nacional do PL poderia estar se utilizando da mesma estratégia de Kassab: privilegiar o coletivo para atingir um interesse pessoal. Ocorre, no entanto, que ele decidiu pleitear publicamente a vaga menos de uma semana após Kassab ter dito à mesma Folha que seria um "privilégio" ele próprio ser o vice de Tarcísio, desde que essa seja a escolha do PSD e, obviamente, do governador. "Para quem tem a história que eu tenho de vida pública, seria um privilégio."
Nos bastidores, o presidente do PL não gostou de ver Kassab dizendo que o PSD dobrará o tamanho de sua bancada na Câmara e tentará uma ampliação no Senado. Ou seja, Valdemar, brincando de tentar ser Gilberto, está, na verdade, marcando uma posição personalista, afinal, a vaga de vice em São Paulo já é do PSD, com Felício Ramuth.
Está também dando mais um empurrãozinho para o PSD entrar definitivamente na órbita eleitoral de Lula e do PT. Conforme a lógica que move Kassab, contrariar os interesses coletivos de seu partido é o mesmo que obrigá-lo a buscar uma nova estratégia política que mantenha a sigla bem posicionada no cenário nacional, com força política e poder administrativo.
Assim, com três pré-candidatos a presidente em seu partido e sem Tarcísio no jogo nacional, Kassab se afasta cada vez mais da direita bolsonarista e, sempre em nome do interesse coletivo, ganha mais autonomia para liberar seus governadores a apoiarem para presidente quem eles quiserem no âmbito estadual, o que, por si só, já representa um ponto favorável a Lula no jogo.
Mas, como já dito aqui, Kassab enxerga longe e sabe usar o tempo. Quem o conhece aposta que os governadores e pré-candidatos a presidente Ratinho Júnior (PR), Eduardo Leite (RS) e Ronaldo Caiado (GO) vão se desincompatibilizar de seus cargos em abril para ficarem à disposição do PSD. Como o período para a realização das convenções partidárias vai de julho até agosto, o partido ainda terá um prazo precioso para, no limite, lançar os três para o Senado e declarar "neutralidade" na campanha presidencial antes mesmo do segundo turno. Esse é o sonho dourado do PT.
Se isso acontecer, já terá sido um golaço para Lula. Há, porém, no PT quem acalente sonhos ainda mais fantásticos: sem a vice de Tarcísio e sem candidato próprio ao Planalto, Kassab dará uma nova entrevista e dirá que, em nome do interesse coletivo do PSD, o partido, impedido de dar sua contribuição administrativa em São Paulo, aceitará a vice de Lula. Questionado sobre seu interesse pessoal na vaga, ele poderá responder: "para quem tem a história que eu tenho de vida pública, seria um privilégio".
Fica ou sai?
No Paraná ainda persistem as desconfianças de que Ratinho Júnior abrirá mão do projeto presidencial para se dedicar de corpo e alma a eleger um sucessor. Algo que poderá fazer concorrendo ao Senado ou mesmo permanecendo no cargo até o último dia do mandato.Quatro estrelas
Se concretizada, a filiação de Simone Tebet ao PSB paulista criará um cenário que havia muito tempo o partido não experimentava no estado. Ao lado de Geraldo Alckmin, Márcio França e Tabata Amaral, a atual ministra do Planejamento passará a ser um ativo eleitoral valioso.logo-jotaJota
https://www.jota.info/opiniao-e-analise/colunas/coluna-do-bombig/pl-se-esforca-para-jogar-psd-no-colo-de-lula-ainda-no-1o-turno





