Por Jamil Chade
Delcy Rodríguez, a nova presidente da Venezuela, é uma velha conhecida dos operadores da política externa dos EUA e, por anos, foi monitorada pelos serviços de inteligência. Isso é o que revelam telegramas oficiais do Departamento de Estado norte-americano e que fazem parte do acervo do Wikileaks.
Nesta semana, para a surpresa da oposição venezuelana, Delcy foi apontada como a aposta de Donald Trump para conduzir o novo governo de Caracas, em coordenação com a Casa Branca. A decisão criou um profundo mal-estar entre as lideranças da oposição, que apostavam na escolha de Maria Corina Machado como a pessoa que iria liderar a transição. Trump, pelo menos por enquanto, desprezou essa opção.
A nova presidente, na avaliação do governo brasileiro, teria sido a forma escolhida por Trump para evitar uma tensão política na Venezuela, instabilidade e eventualmente um vácuo de poder. O republicano, ainda assim, já alertou: se ela não tomar "as decisões certas", terá um destino "ainda pior" que o de Nicolas Maduro.
Delcy, porém, vinha sendo acompanhada de perto pela Casa Branca há pelo menos 20 anos. A primeira descrição sobre ela aparece num telegrama diplomático dos EUA de março de 2006. Naquele momento, ela era vice-ministra da chancelaria e teria operado nos bastidores para prejudicar um outro protagonista do governo de Hugo Chávez. A meta, segundo a tese americana, era de que ela tentava se aproximar do então presidente.
Naquele mesmo período, num outro documento, embaixadores europeus em Caracas relatavam como enviaram para Delcy queixas de abusos por parte dos tribunais contra vozes que pudessem ser dissonantes ao chavismo.
Alguns meses depois, ela volta a ser citada com destaque e, desta vez, já como ministra chefe do gabinete da presidência. Em 12 de agosto de 2006, a diplomacia americana em Caracas produz um telegrama e envia para Washington relatando o que parecia ser um racha entre Delcy e Chávez.
"O irmão de Chávez, Adan Chávez, retornou a Caracas para substituir Delcy Rodríguez como Ministro da Secretaria da Presidência, após seu mandato como Embaixador em Cuba", informavam os americanos.
"Fontes da imprensa indicam que a saída de Delcy Rodríguez se deu devido a "diferenças" com Chávez durante sua recente viagem internacional", apontou o telegrama. Naquele momento, Delcy tinha pouco mais de 30 anos e a Casa Branca questionava se ela realmente teria futuro no governo.
"Não está claro se ela será nomeada para outro cargo no governo, embora os rumores em Caracas indiquem que ela ou Ali Rodríguez possam substituir Adan em Havana", disse.
"Embora o cargo de Ministro da Secretaria da Presidência seja vagamente definido - Chávez afirmou, quando criou o cargo em fevereiro, que ele visa "buscar níveis mais altos de eficiência no governo", destacou.
O interesse sobre Delcy não era por acaso. Seu percurso era considerado como simbólico. Seu pai, Jorge Antonio Rodríguez, guerrilheiro morto sob custódia policial em 1976. Ele havia sido preso por ser suspeito de fazer parte do sequestro de William Niehous, um alto executivo de uma empresa americana que operava na Venezuela. O empresário apareceria três anos depois.
O caso também aparece nos arquivos americanos. Mas num contexto de preocupação para os EUA. Em 27 de julho de 1976, no dia do enterro do pai da nova presidente, um telegrama enviado pela embaixada dos EUA em Caracas para o Departamento de Estado alertou que a morte do líder da esquerda poderia causar protestos contra os americanos, por conta de o sequestrado ser um empresário dos EUA.
"Queremos evitar qualquer identificação com a polícia venezuelana. Os protestos de estudantes estão ocorrendo e podemos esperar que, em algum momento, sejamos alvos. Medidas adequadas de segurança já foram tomadas", completou.
De fato, a morte de Rodríguez causou comoção popular, diante das torturas que foram registradas. Foi essa situação de seu pai que levou a jovem Delcy a optar pelo Direito e, em seguida, pela mobilização política de esquerda.
Com a chegada de Hugo Chávez ao poder, ela ocupou o cargo de chefe de gabinete da presidência. Mas seria com Nicolás Maduro que sua carreira política decolaria. Primeiro como Ministra da Comunicação e Informação, e logo como Ministra da Economia e Ministra das Relações Exteriores.
Como chefe da diplomacia venezuelana, ela era o rosto externo do governo Maduro e foi a arquiteta da aliança com China e Irã, principalmente. Ao tomar posse, um dos abraços mais simbólicos que recebeu nesta semana foi do enviado de Pequim.
Em 2018, ela seria nomeada como vice-presidente e, logo depois, acumulou as responsabilidades de Ministra dos Hidrocarbonetos. Alvo de sanções tanto da UE como dos EUA.
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Vero Notícias
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