Enforcamento de jovem Erfan pode acelerar derrubada do regime xiita iraniano, por Luiz Carlos Azedo

Enforcamento de jovem Erfan pode acelerar derrubada do regime xiita iraniano, por Luiz Carlos Azedo

Imagens de enforcamentos, necrotérios improvisados e repressão aberta elevam o custo moral e político de manter relações "normais" com Teerã. O Brasil terá de se reposicionar

A execução do jovem Erfan Soltani, 26 anos, na forca, hoje, sob acusação de terrorismo, pelo regime do aiatolá Ali Khamenei, 86, tem potencial para piorar a mais grave crise enfrentada pela República Islâmica desde 1979. A morte de um manifestante não é novidade na longa história de repressão do Estado teocrático iraniano. Mas há momentos em que um único corpo, pendurado em praça pública, condensa o medo, a indignação e a ruptura moral de uma sociedade que já não aceita ser governada pela combinação da moralidade religiosa, vigilância militar e miséria econômica.

É por isso que a morte de Erfan pode operar como catalisador de mais manifestações populares e, também, de uma reação internacional mais dura, com repercussões econômicas e diplomáticas que ultrapassam o Oriente Médio e atingem diretamente países como o Brasil. Não está descartada uma intervenção militar norte-americana mais letal do que o bombardeio das instalações nucleares iranianas, durante a guerra de Gaza, com apoio dos agentes do Mossad, o serviço secreto de Israel, especialista em execuções de seus inimigos.

O regime iraniano adotou a receita mais vulgar das ditaduras em crise: tenta vencer a rua com o terrorismo de Estado. A execução pública é um ritual de intimidação que busca rebaixar a política ao instinto de sobrevivência. Serve para dizer ao povo que o preço da liberdade é a forca. O problema, historicamente, é o medo virar fúria coletiva, tendo a vítima como mártir e sua execução como a energia social para a derrubada do regime.

Inflação elevada, moeda em colapso, sanções econômicas, corrupção endêmica, revolta popular contra rígidos códigos morais impostos pelo clero. A crise começou com uma greve de comerciantes afetados pela desvalorização da moeda e pela carestia. O governo fez promessas de diálogo, reconhecimento parcial de demandas e até um subsídio modesto. Entretanto, a sociedade concluiu que o problema não é a carestia, mas o regime.

Entretanto, a República Islâmica está disposta a matar em massa para permanecer viva. O uso do conceito jurídico-religioso de "guerra contra Deus" contra os manifestantes é um dogma do Estado teocrático: o regime tenta retirar dos manifestantes qualquer direito e justifica os assassinatos como missão divina. O Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica, que controla setores estratégicos da economia, da política e da segurança, continua ligado ao regime por interesse, ideologia e autopreservação. Tem força suficiente para manter o controle do país, mas não se houver uma intervenção militar externa.

Quando os custos de manter o sistema superam os benefícios de protegê-lo, surgem divisões e rachas internos. E as negociações secretas com os inimigos começam a ocorrer, como aconteceu na Venezuela, após o sequestro de Nicolás Maduro por forças especiais norte-americanas. Se de fato ocorrer, a execução de Erfan será um divisor de águas: ou intimida a sociedade e esfria os protestos ou inflama ainda mais o país e a mobilização cresce até se tornar irreversível.

Efeito persa


A crise iraniana não é um episódio isolado. A recente guerra de Gaza e as pressões dos Estados Unidos fragilizaram o regime. Com as mobilizações, Donald Trump ganhou uma oportunidade. A antiga Pérsia ocupa um papel estratégico na Ásia Ocidental. Tem fronteiras a norte com Arménia, Azerbaijão e Turcomenistão, e com o Cazaquistão e a Rússia por meio do Mar Cáspio; a leste, com o Afeganistão e o Paquistão; ao sul, com o Golfo Pérsico e o Golfo de Omã; a oeste com o Iraque; e a noroeste com a Turquia. Com 1, 648 milhão km², é a segunda maior nação do Oriente Médio, com mais de 92 milhões de habitantes.

Como em outros episódios, Trump promove um espetáculo, no qual o adversário deve ser exposto, cercado, asfixiado e humilhado diante do próprio povo e da comunidade internacional. Pediu que a população iraniana "mantenha as manifestações" e prometeu "ajuda". Não é um gesto humanitário; é uma declaração de guerra, que serve aos aliados regionais, especialmente Israel, que tem interesse objetivo em reduzir a capacidade militar e a projeção de poder iraniana no Oriente Médio. Uma intervenção externa também pode unificar a elite governante, justificar a repressão como defesa nacional e transformar manifestantes em "agentes estrangeiros" aos olhos de parte da população. A história do Oriente Médio está repleta de revoltas legítimas esmagadas pelo patriotismo.

E o Brasil com isso? Nosso fluxo comercial com o Irã é de aproximadamente US$ 3 bilhões. Está concentrado em setores sensíveis, sobretudo o agronegócio. O anúncio de Trump de impor tarifas de 25% a países que mantenham relações comerciais com o Teerã inaugura sanções secundárias por meio tarifa comercial, em mais uma agressão à institucionalidade do comércio mundial. O "direito de punir" não se limita a quem negocia com os EUA. Atinge quem negocia com o inimigo definido por Washington.

Historicamente, o Brasil busca autonomia na política externa e preserva o princípio do diálogo. Entretanto, cada vez mais Trump quer forçar alinhamentos. Imagens de enforcamentos, necrotérios improvisados e repressão aberta elevam o custo moral e político de manter relações "normais" com Teerã. O Brasil terá de se reposicionar no Oriente Médio. Empresas, bancos, seguradoras e operadores logísticos serão mais cautelosos.

Correio Braziliense
https://blogs.correiobraziliense.com.br/azedo/enforcamento-de-jovem-erfan-pode-acelerar-derrubada-do-regime-xiita-iraniano/