Marcelo Portugal Gouvêa é candidato de oposição à presidência do São Paulo. Foto: Liga Agência |
Marcelo Portugal Gouvêa dispensa aclamação e prevê gestão 'sem conchavos políticos' no São Paulo

Marcelo Portugal Gouvêa dispensa aclamação e prevê gestão 'sem conchavos políticos' no São Paulo

Em entrevista ao 'Estadão', filho de histórico dirigente tricolor quer ir além do legado do pai em nova fase de profissionalização e promete reconstrução do clube


Por Leonardo Catto

Marcelo Marcucci Portugal Gouvêa é o candidato de oposição à presidência do São Paulo, na eleição que ocorre no fim deste ano. O nome não é incomum. O advogado de 44 anos é filho de Marcelo Figueiredo Portugal Gouvêa, que presidiu o clube campeão da Libertadores e do Mundial em 2005. O filho quer retomar o legado do pai, mas com a profissionalização que o futebol atual demanda.

Para isso, um dos planos é a formação de diretorias exclusivamente técnicas. Em alguns setores, os nomes podem vir até mesmo de fora do futebol, a depender do processo de contratação, que também é planejado para ser profissionalizado.

"Queremos um CEO que chegue a um banco e seja recebido pelo presidente, sem precisar pedir favor para ser atendido. Um CFO conhecido no mercado - talvez não pela torcida", exemplifica Marcelo Portgual Gouvêa ao Estadão.

Os cargos, portanto, não seriam ocupados por aliados políticos que compõem a campanha. "Meu plano é aberto e todos concordaram com uma gestão profissional, sem conchavos políticos. Se depois quiserem mudar de ideia, podem sair. Não me preocupo com isso porque não estou no poder pelo poder, nem pensando em reeleição. Estou pensando em pavimentar a reconstrução do São Paulo. Foi criada uma cultura de aclamação. Não estou atrás disso. Preciso apenas de pessoas que pensem como eu do meu lado.", diz o candidato.

Leia abaixo a entrevista, editada para melhor leitura, e assista à conversa na íntegra no vídeo do topo da página.

Como conquistar a confiança do torcedor numa eventual gestão e mostrar sua capacidade além do sobrenome?
Meu pai foi presidente no momento vitorioso do clube. Foi o último candidato de oposição a ser eleito. Naquele momento, o São Paulo estava, no futebol, patinando. Fazia tempo que não disputava a Libertadores. O grande objetivo da campanha e, depois, da gestão foi voltar. Ele não só voltou, como chegou à semifinal em 2004 e depois foi campeão em 2005. E depois ainda fez o time para ir para a final de 2006.

Agora, a gente está em um outro momento, em uma das maiores crises da história do São Paulo. É um momento em que o torcedor que não consegue acompanhar um pouco mais da política acha que todos os conselheiros são iguais, que é tudo farinha do mesmo saco. E eu estou nesse momento de comprovar que eu não sou.

Eu participei ativamente da gestão do meu pai. Lá aprendi muito e agora estou preparado para implementar coisas que aprendi com ele de postura, de caráter e de honestidade. Isso vai trazer uma credibilidade que o São Paulo perdeu, mas, por outro lado, com ideias mais novas, ideias que a gente consegue implementar, porque o futebol mudou muito.

O futebol se profissionalizou totalmente. Ali era o início de uma profissionalização. Agora já é uma profissionalização consolidada, e o São Paulo parou no tempo e está nas maiores crises institucionais.

Então, acho que estou preparado para ser o cara a mudar isso, pegando as coisas boas da época do meu pai, mas implementando ideias novas, e para mostrar para o torcedor que está na dúvida que não é todo mundo farinha do mesmo saco. É muito fácil você separar o joio do trigo lá no Conselho do São Paulo.

O futebol se profissionalizou totalmente. Ali (2005) era o início de uma profissionalização. Agora já é uma profissionalização consolidada, e o São Paulo parou no tempo e está nas maiores crises institucionais.

Marcelo Portugal Gouvêa

No seu trabalho de campanha, conversando com o mercado, como o senhor tem notado a credibilidade da marca São Paulo em meio a essa crise institucional?
Obviamente, o que a última gestão, que está até agora no poder, fez acabou muito com a credibilidade da marca do São Paulo. O mercado enxerga isso: verifica quem está lá e vê páginas policiais, dirigentes expulsos, dirigentes investigados em inquéritos. Isso atrapalhou demais.

Mas as primeiras conversas que estou tendo com o mercado são positivas. E não é só porque é o Marcelo e "não é o Zézinho", é porque estou apresentando o que farei na gestão, e o mercado olha muito para a questão da governança.

Então, quando eu explico como vai ser a governança do São Paulo, eles veem uma segurança maior de investimento no clube, sabendo que o dinheiro não vai ser tratado por amadores, mas sim por profissionais de mercado, pessoas que já estão acostumadas a lidar com isso e com vários níveis de governança na questão da fiscalização e na hierarquia de ideias mais colegiadas, não na mão de uma pessoa só.

Há várias questões em nosso plano, mudando o formato de gestão. A governança vai trazer ao mercado a confiabilidade necessária para que ele invista e volte a investir no São Paulo, o que é o que a gente precisa.

Seu plano de gestão prevê as diretorias com cargos técnicos, inclusive com 'headhunters' que contratarão a partir de um perfil. Quais são esses perfis e que estrutura e organograma eles irão seguir no São Paulo?
A diretoria executiva profissional vai ser organizada da seguinte forma: haverá um CEO de mercado que vai organizar isso. E daí é importante o que você falou sobre a questão do perfil: não adianta eu pegar um CEO que não esteja acostumado com a grandeza do São Paulo, com uma empresa que tenha uma receita de centenas de milhões ou de R$ 1 bilhão. A gente precisa de uma pessoa com essa característica. O antigo CEO, que até foi expulso do clube envolvido em escândalos, nunca tinha tido esse tipo de experiência antes de assumir o São Paulo. O São Paulo não é lugar para testes. Precisamos pegar pessoas de mercado. Queremos um CEO que chegue a um banco e seja recebido pelo presidente, sem precisar pedir favor para ser atendido.

Da mesma forma, o CFO tem de ter trânsito em bancos, falar com os melhores bancos e ser conhecido no mercado. Talvez não pela torcida, mas por onde ele vai transitar, que são os bancos. É por isso que falo da questão do perfil. Tenho o "job description" de tudo o que quero e das funções, para dar esse perfil ao "headhunter" achar a melhor opção no mercado que possa ser contratada e tenha interesse em trabalhar no São Paulo.

Não são pessoas que eu conheço e que a torcida deva conhecer, mas são pessoas que o mercado conhece em cada área: no CFO, no CEO, no diretor comercial, no diretor de marketing. O diretor de futebol, provavelmente a torcida já ouviu falar, porque é alguém que já trabalhou em outro clube, mas o fato é que não é meu amigo. Vamos pegar alguém que atenda às funções que entendemos necessárias neste momento para o São Paulo.

O São Paulo não é lugar para testes. Precisamos pegar pessoas de mercado. Queremos um CEO que chegue a um banco e seja recebido pelo presidente, sem precisar pedir favor para ser atendido.

Marcelo Portugal Gouvêa


Isso significa que, a depender da pasta, pode ser alguém alheio ao futebol?
Depende muito da função. O diretor de futebol obviamente é do futebol e vai saber atuar.

Agora, se eu tiver um perfil de executivo que preciso e não houver ninguém do futebol que se encaixe nisso com a experiência necessária, é preferível ter um cara técnico com contato no mercado do que um que apenas diga que já trabalhou com futebol.

Se ele trabalhou em um time onde nunca se deveu dinheiro, onde todo dia 30 a conta estava paga e ele não precisava gerenciar a pressão de uma dívida de R$ 1 bilhão, isso não serve para o São Paulo. É mais útil um profissional que trabalhou na reestruturação de uma empresa endividada do que alguém que apenas trabalhou no futebol, para o que preciso neste momento.

Pode ser que, daqui a três ou cinco anos, sem essa dívida, o perfil necessário seja outro. Mas agora preciso de uma pessoa que atenda a essas características. Se tiver experiência prévia no futebol, melhor ainda, mas o profissionalismo no futebol brasileiro é recente, então não há tantas figuras assim.

Para diretor de futebol já existe um mercado, mas no setor financeiro não é tão amplo, porque não adianta a pessoa ter vivido essa situação sem ter encontrado soluções. Precisa unir tudo isso: ter vivido a situação, apresentado soluções e ter bom trânsito no mercado - talvez seja alguém que não venha do futebol.

Essa é uma visão que a gente vê mais frequentemente nas SAFs. Como o senhor pretende tratar o tema se eleito?
No Brasil, já tivemos exemplos que deram certo e exemplos que deram errado. O que realmente importa é a questão da gestão: como você vai organizar isso e quais pessoas estarão envolvidas. Em vários exemplos de SAF no Brasil, vendeu-se o controle para pessoas que não estavam preparadas, e depois os clubes tiveram de mudar as empresas por causa disso. Por outro lado, há clubes que não viraram SAF e estão disputando títulos sempre porque encontraram a fórmula das pessoas certas nos lugares certos, fazendo a coisa certa.

Não existe solução mágica. O torcedor precisa entender que, se o São Paulo resolver virar SAF, a situação não estará resolvida no dia seguinte. Depende muito de quem estiver lá. Sobre virar SAF ou não, essa é uma discussão que foge da alçada do presidente. É uma decisão que tem de partir do Conselho Deliberativo, com quórum mínimo de aprovação, e depois ser discutida na Assembleia de sócios, como determina o estatuto.

O que depende do presidente é uma gestão profissional, via SAF ou via modelo associativo. Você consegue fazer uma gestão profissional com pessoas certas, funções bem definidas e metas estipuladas - o que o estatuto do São Paulo já determina, mas não foi cumprido por 10 anos por colocarem pessoas políticas lá. A partir do momento em que a gestão é profissional, com grande parte da remuneração atrelada a metas, se o profissional não atingir os resultados, pode ser demitido, porque o vínculo é estritamente profissional, sem amarras políticas.

É comum falar em 'separar o futebol do social do São Paulo'. Na prática, o que isso representaria e o que o senhor pensa sobre isso?
Significa que hoje, no São Paulo, tudo faz parte de um caixa único. Ainda que chamem de unidades de negócio diferentes - Morumbi, Barra Funda, Cotia, Clube Social -, o dinheiro entra e sai do mesmo lugar e de um único CNPJ. Não há contas separadas ou ordem de preferência. Existe alocação para verificar orçamento e rentabilidade, mas nem isso é alocado totalmente correto.

A primeira coisa a ser feita é essa divisão orçamentária clara, para que as despesas estejam corretamente alocadas e se saiba de onde vem e para onde vai o dinheiro, trazendo transparência para o torcedor e para o sócio. O sócio que paga mensalidade não acha correto seu dinheiro ser usado para pagar salário de jogador, assim como o torcedor que compra uma camisa do São Paulo não quer que os royalties sejam usados para pagar o cloro da piscina do clube social.

Sobre a separação física ou jurídica, me comprometi no plano de gestão a contratar um estudo sobre as vantagens e desvantagens disso. Se o clube decidir virar SAF - mesmo uma SAF nos moldes do Fortaleza, em que 100% das cotas pertencem à associação dos sócios -, essa separação já acontece naturalmente, pois cria-se uma empresa para gerir o futebol, enquanto o clube social continua independente. Mas, de novo, isso depende do Conselho. O que depende de mim é separar o orçamento, e isso será feito.

O que também depende do Conselho são mudanças no sistema eleitoral. Ainda assim, como o senhor vê a possibilidade de uma participação maior do sócio nas decisões políticas do São Paulo, não só pelo voto, e também a possibilidade de participação do sócio-torcedor?
Precisa ser algo discutido e legitimado, não imposto. Mas, se perguntar minha opinião pessoal, sou totalmente favorável à democratização do voto no São Paulo, abrindo o voto.

Isso, por si só, garante o sucesso? Não. Os dois clubes gaúchos (Grêmio e Internacional) têm votação ampla com sócios-torcedores, e isso não se reflete necessariamente no desempenho esportivo, mas me incomoda pessoalmente o São Paulo ser talvez o clube mais antidemocrático em sua política. Acho que deveria haver o voto do sócio do clube, do sócio-torcedor e também do proprietário de cadeira cativa, sempre um voto por CPF. É preciso estabelecer regras de permanência e valores adequados para o sócio-torcedor, mas acho uma medida muito válida.

A sua candidatura tem apoio do grupo do presidente do Conselho, Olten Ayres de Abreu Júnior, que, até o afastamento de Júlio Casares, era apoiador do ex-presidente. Há perspectiva de que a articulação com diferentes grupos políticos do São Paulo tenha um custo durante a gestão?
Membros da situação deram entrevistas dizendo que não existe oposição e situação no São Paulo. Claro que existe. O São Paulo tem oito grupos políticos atualmente. Três estão ao lado da minha candidatura. Um deles foi oposição desde o início a Júlio Casares, e os outros dois perceberam, com todos esses escândalos, que não fazia sentido continuar apoiando as mesmas pessoas. Os outros cinco grupos continuam apoiando a gestão atual (de Harry Massis), que é a continuidade da anterior (Júlio Casares).

Para o torcedor entender: para ganhar eleição, você precisa de maioria. Ainda bem que esses dois grupos entenderam a situação e viram nosso projeto como a melhor opção, construindo juntos um plano de gestão com reformas estatutárias profundas.

Sobre a governabilidade: meu plano é aberto e todos concordaram com uma gestão profissional, sem conchavos políticos. Se depois quiserem mudar de ideia, podem sair. Não me preocupo com isso porque não estou no poder pelo poder, nem pensando em reeleição. Estou pensando em pavimentar a reconstrução do São Paulo. Foi criada uma cultura de aclamação. Não estou atrás disso. Preciso apenas de pessoas que pensem como eu do meu lado.

O São Paulo teve um 2026 muito difícil no bastidor e no futebol masculino, mas foi campeão brasileiro no feminino. Qual o caminho para que a modalidade gere sua própria receita e seja autossuficiente no São Paulo?
O futebol feminino está evoluindo muito e temos uma oportunidade gigante com a Copa do Mundo no ano que vem. Há cinco ou 10 anos era considerado apenas gasto de dinheiro, mas hoje a marca do São Paulo já começou a realizar transferências de jogadoras para o exterior. O futebol masculino também não se tornou rentável da noite para o dia. Em 1935, o São Paulo quase fechou as portas porque era um gasto gigantesco. Não existia patrocínio, dependia da vontade dos sócios.

O feminino está nesse processo e o São Paulo precisa dar uma estrutura melhor a ele. O título brasileiro veio muito pelo mérito das pessoas envolvidas, mas com uma estrutura do clube que ainda está muito aquém em relação a outros rivais. Quando você oferece um trabalho consistente de estrutura, os resultados vêm com mais constância. O São Paulo precisa melhorar muito sua estrutura no feminino para continuar brigando de igual para igual.

Já houve reclamações sobre o CT da Barra Funda, além de vermos imagens sobre problemas no CFA de Cotia, incluindo alagamentos. Como o senhor pretende trabalhar esses problemas?
O São Paulo parou no tempo na preservação de seus espaços e na estrutura física. Temos profissionais competentes na preparação física, no departamento médico e no scout, mas falta dar o material adequado para eles exercerem o seu melhor.

Em Cotia, além da necessidade de investimento em infraestrutura, há o problema do alagamento. Quando o São Paulo comprou aquele terreno em 2004, era um haras e quase não havia vizinhança. Com o desenvolvimento populacional não planejado e prédios na frente do CT, a vazão do rio que passa ali foi afetada.

Eu sempre acompanho o nível dos mananciais do Estado de São Paulo. Esse manancial está em 102% de capacidade. Quando isso acontece, as comportas são abertas e a água escapa por esse rio, alagando a parte baixa do CT. Isso só vai se resolver com obras do poder público, como está sendo feito no Morumbi com os piscinões do córrego Antonico. O São Paulo não tem como resolver isso sozinho com um simples muro. Precisa de uma ação conjunta com o poder público de Cotia.

Sobre reestruturação financeira, no seu plano está escrito: 'reorganizar a dívida e disciplinar despesas'. Na prática, como executar essa ideia?
Nas últimas gestões, o São Paulo, no popular, "vendeu o almoço para pagar o jantar". Quando havia desnível no fluxo de caixa, tomava-se empréstimo a juros altíssimos em bancos, dando garantias de receitas futuras para pagar a folha.

O que precisamos fazer é contratar um negociador profissional em reestruturação financeira para renegociar os débitos com os principais credores, pagando com deságio e liberando as garantias do fluxo de caixa. Vamos buscar um empréstimo maior, com juros menores e maior carência, sem empurrar a conta para o presidente seguinte. Com o fluxo de caixa aliviado, em um ou dois anos, reduziremos as despesas ao patamar das receitas recorrentes. Apenas com a redução de despesas que já planejei, consigo pagar os juros dessa operação.

Não será fácil.Se assumirmos em janeiro, não há dinheiro para pagar a folha do mês, mas faremos isso mudando a governança, trazendo novos parceiros financeiros e incrementando receitas com sócio-torcedor, novos produtos e otimização dos contratos existentes.

Um dos contratos que o torcedor reclama é com a Live Nation, que administra shows no MorumBis. O senhor pretende renegociá-lo para manter essa receita, mas tendo maior controle de datas e não perder tantos jogos em casa?
Qualquer contrato será auditado e renegociado. Se estiver sendo cumprido pela Live Nation, o São Paulo não pode e nem quer rescindir, pois a multa é gigantesca e o contrato traz retorno financeiro importante. O torcedor precisa entender que não podemos nos desfazer de receitas.

Sobre as datas: turnês internacionais são agendadas com dois anos de antecedência, antes de saírem as tabelas dos campeonatos. Para o São Paulo não perder desportivamente nem financeiramente no futebol quando houver shows, já temos planos B, C e D em estudo para garantir um campo adequado e manter o rendimento da equipe.

No sentido da austeridade no futebol, o plano fala em aproveitar a base. Como prever um time competitivo sem, por exemplo, correr risco de rebaixamento, dependendo de garotos novos, e como o técnico que chega deve encarar essa decisão da gestão?
Não sei se um técnico vai chegar. O Dorival vai ser ouvido. Pode ser que seja ele que seja mantido. Para mim, o que importa é que o técnico esteja adequado ao nosso projeto de gestão. Na atual situação financeira, o São Paulo precisa usar a base. Isso não significa ter 11 titulares da base em 2027. Temos jogadores experientes com contrato que serão mantidos. Vamos mesclar experiência com a base, dando espaço e condições para os jovens se desenvolverem desportivamente. Não como a gestão atual fez, vendendo promessas a troco de nada para pagar a folha do mês e repondo com contratações piores e mais caras.

O São Paulo tem histórico de grandes times formados na base, como os Menudos do Morumbi, que tinham dois ou três experientes e o resto de garotos. O que precisamos é dar ambiente adequado, tirar a pressão, pagar em dia e oferecer estrutura física e psicológica. O torcedor vai apoiar e os jogadores vão se desenvolver.

Recentemente tivemos a MP das Bets, que ainda será discutida no Congresso e no STF. O São Paulo tem uma casa de aposta como patrocínio máster. Como o senhor vê esse tema e a necessidade de diversificação de setores nos patrocínios?
Acho que é uma utopia buscar uma diversificação proposital de setores. Cada clube vai lutar pelo que conseguir de patrocínio maior. Já tivemos, na década de 1980, uma marca de refrigerantes que patrocinou 95% dos clubes naquele momento. E só não patrocinou 100% porque um ou dois clubes tinham patrocínios melhores para eles.

Por que as bets patrocinaram quase todos? Porque elas tinham dinheiro muito superior ao resto do mercado. Se o torcedor reparar, em, por exemplo, placas de publicidade, (aposta) era o único ramo que tinha mais do que uma empresa patrocinando. Se você tinha antigamente uma empresa de telefonia X, a Y não patrocinava. Na Copa do Mundo é assim. Você tem uma empresa de bebidas, uma empresa de cartão de crédito, é sempre uma, não tem o concorrente.

A bet não. Você olhava nos jogos recentemente, tinha quatro, cinco, seis empresas concorrentes entre si que patrocinavam por dois motivos. Primeiro, era um valor muito superior, então não valia a pena você garantir exclusividade. E, segundo, o próprio setor não via isso como problema, porque, para eles, quanto mais recebessem de clientes, melhor, nem que seja para concorrente, porque muitos apostadores apostavam em uma, em outra, e tal.

A gente está acompanhando essa discussão. E isso vai mudar totalmente o futebol. O que se precisa ter é planejamento também nisso para você ter um plano B, C, D.

Claro que, para quem está numa dívida como a do São Paulo, afeta mais do que para um time que está saudável, mas o fato é que a gente precisa se adaptar, ter um planejamento, ter plano B, plano C para resolver essa situação. Como você falou, era o principal patrocinador do São Paulo, mas eu acredito que há caminhos para suprir isso. Não era assim que eu gostaria de começar minha gestão, mas é mais uma das dificuldades que a gente vai enfrentar e vamos ter de enfrentar.

Estadão
https://www.estadao.com.br/esportes/futebol/marcelo-portugal-gouvea-dispensa-aclamacao-e-preve-gestao-sem-conchavos-politicos-no-sao-paulo