Lula e Flávio no último debate: expectativa é que os presidenciáveis dediquem mais tempo à apresentação e discussão de propostas, no debate da TV Globo - Foto: Maria Isabel Oliveira/O Globo - 18/10/2026 |
Em debate na TV, excesso pode ser prejudicial

Em debate na TV, excesso pode ser prejudicial

Campanhas de Flávio e Lula se preparam para discussão propositiva na TV Globo, nesta sexta

Por Fernanda Godoy e Joelmir Tavares - De São Paulo

Preparar um candidato para atuar de forma hiperagressiva em debate eleitoral transmitido ao vivo pela TV pode ser uma tática vencedora. Ou não. Deu certo para Donald Trump em 2016, contra Hillary Clinton, na disputa em três rounds que mudou a história das campanhas americanas. Deu errado para Pablo Marçal (PRTB), em 2024, na campanha para prefeito de São Paulo em que o então outsider provocou os adversários até que José Luiz Datena (à época no PSDB) atirasse uma cadeira em sua direção, mas não conquistou um lugar no segundo turno.

O desempenho do candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro, no debate da Band no domingo (18) não pegou de surpresa quem acompanha a política eleitoral dos Estados Unidos. Estava lá tudo o que constava do manual de Trump de dez anos atrás: invadir o espaço corporal da(o) adversária(o) para deixá-la(o) incomodada(o); levar para a primeira fileira, como convidados de honra, pessoas cuja presença é perturbadora para o oponente; gestual ostensivo e até desrespeitoso. E denúncias dificilmente comprováveis.

Os detalhes finais do debate da TV Globo, com início previsto às 21h20 desta sexta-feira (23), ainda não foram anunciados oficialmente. Procurada na quarta-feira (21), a assessoria da emissora disse que as informações sobre formato e regras serão divulgadas assim que estiverem fechadas. As campanhas de Flávio e Lula trabalham com o cenário de um debate considerado "mais propositivo", com perguntas obrigatórias sobre assuntos e regiões do país, nos moldes dos debates entre postulantes a governador no primeiro turno. A expectativa é que os presidenciáveis dediquem mais tempo à apresentação e discussão de propostas, mas também deverá ser reservado um espaço para que eles abordem temas livres.

O manual para debatedores da atualidade tem como objetivo número 1 produzir imagens para cortes, cenas curtas, aptas a se tornarem virais nas redes sociais. Em uma palavra: lacrar.


"Há muito despreparo dos políticos, que se apaixonam pelas redes sociais", diz o marqueteiro Paulo Vasconcelos, que, nestas eleições, foi o responsável pela estratégia vencedora do governador eleito do Rio, Douglas Ruas (PL). "Eles têm a sensação de que as redes sociais são a vida, são a realidade. E elas não são", avalia Vasconcelos.

O especialista em marketing político Lula Guimarães, que cuidou da comunicação da campanha de Guilherme Boulos (Psol) a prefeito de São Paulo em 2024, diz que Flávio Bolsonaro replicou contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) o estilo empregado por Marçal na disputa municipal, mas a aposta é arriscada porque um tom demasiadamente agressivo ou arrogante pode acabar afugentando eleitores. "Acho que ele [Flávio] foi excessivo", diz Guimarães, que já trabalhou com candidaturas à direita e à esquerda.

O marqueteiro, que teve acesso a pesquisas qualitativas com grupos de espectadores, diz que Flávio seguiu a cartilha de lideranças da direita mundial, como Trump. Lula Guimarães afirma que é comum a equipe de preparação dos candidatos orientá-los a usar o tempo para não apenas responder ao que é perguntado, mas também embutir discursos sobre propostas ou críticas aos oponentes. No entanto, segundo ele, a direita alinhada a Trump leva a "estratégia diversionista" a outro patamar, o que, na prática, pode até inviabilizar o debate.

Para Vasconcelos, de 66 anos de idade e ampla experiência no marketing político desde a candidatura a governador de Minas Gerais de Itamar Franco em 1986, comunicação política não é novela: se o espectador não estiver acompanhando o enredo, vai se perder em um mar de denúncias e siglas que ele desconhece.

"No caso, os dois candidatos falharam no domingo", analisa o marqueteiro. "Eles falaram para suas bases, quando precisavam conquistar o voto dos indecisos", afirma Vasconcelos.
Boulos foi o principal alvo de Marçal na campanha de dois anos atrás. Durante um dos primeiros debates daquela disputa, o influenciador provocou o adversário agitando a réplica de uma carteira de trabalho e arrancou uma reação de Boulos, que deu um tapa no objeto. O então candidato do PRTB também apareceu gesticulando e fazendo expressões faciais enquanto o oponente falava, além de fazer seguidas referências a suposto uso de drogas. Na véspera da eleição, chegou a apresentar um laudo médico falso contra Boulos.

Segundo Guimarães, surpreende que Flávio tenha recorrido a uma estratégia já rejeitada em âmbito municipal e deixado de lado uma comunicação que pudesse ajudá-lo a atrair eleitores indecisos. "Ele parecia mais interessado em emplacar frases de efeito 'lacradoras', que rendessem depois cortes para as redes sociais", afirma. Lula, por sua vez, pareceu "não ter chegado preparado para esse tipo de enfrentamento, assim como Boulos foi surpreendido no episódio da carteira e acabou fazendo um papel que o deixou frustrado".

O problema para Flávio, na avaliação do marqueteiro, é que a estratégia até pode ter sido bem aceita pelo público bolsonarista, mas dificilmente dialoga com os "não convertidos" do eleitorado.

"Nenhum dos dois conseguiu concluir de maneira eficaz essa tarefa de encantar eleitores que precisam ser conquistados, mas Flávio conseguiu ser mais desastroso do que Lula", afirma Guimarães, acrescentando que a imagem apresentada pelo senador foi na contramão da suavização que ele buscava imprimir no início da campanha, intitulando-se "o Bolsonaro moderado".

Além de Marçal, dois parlamentares populares nas redes, o deputado federal reeleito Nikolas Ferreira (PL-MG) e o vereador da capital paulista Lucas Pavanato (PL), recém-eleito deputado federal com votação recorde, deram orientações a Flávio no programa da Band. Nikolas e Pavanato, que são aliados, também atuaram como agitadores nos bastidores da emissora, fazendo vídeos e tentando irritar membros da campanha de Lula.

Segundo a análise de Guimarães, a lógica do marketing político recomendaria que Flávio assuma uma postura mais contida no debate da TV Globo, para o qual os candidatos costumam adotar um tom cauteloso. "Vence o debate quem erra menos", resume. "Muito mais do que o conteúdo ou as propostas, o que fica é a atitude." Para Paulo Vasconcelos, a orientação do marqueteiro é sempre a da sobrevivência. "Você não vai a debate para ganhar. Vai para sair vivo", conclui.

Valor
https://valor.globo.com/politica/eleicoes-2026/noticia/2026/10/22/em-debate-na-tv-excesso-pode-ser-prejudicial.ghtml