Ex-governador de Goiás foi sabatinado pelos jornais O GLOBO e Valor e a rádio CBN nesta quarta-feira. Existe um eleitor que não gosta do PT, mas também não quer votar em Flávio: é esse eleitor que Caiado precisa conquistar
Por Renato Meirelles
Ronaldo Caiado está há quatro décadas na política, mas conserva um jeito interiorano que produz simpatia. Fala como quem conversa à mesa, conta casos e chama o interlocutor pelo nome. Carrega cacoetes antigos da política brasileira: respostas longas, desvios quando apertado e a tendência de voltar a Goiás quando querem saber o que faria no Brasil.
Na segurança, Caiado esteve melhor do que no Jornal Nacional. É o tema em que sua experiência vira proposta e chega à vida concreta. Falou em enfrentar facções, construir 40 presídios de segurança máxima e tratar o crime organizado como problema nacional.
Pode-se discordar de parte das soluções, sobretudo da resistência às câmeras corporais, difícil de explicar tecnicamente e que soa mais como aceno ao bolsonarismo, apesar da ampla aprovação popular de seu uso. Ainda assim, o eleitor sabe que tipo de presidente Caiado pretende ser.
Para quem mora na periferia, segurança não é Código Penal. É voltar do trabalho à noite, deixar a filha pegar ônibus, usar o celular na rua sem transformar cada esquina numa roleta-russa. Caiado captou uma parte da sensação térmica de 2026: ordem também é organização de vida.
O caminho para uma terceira via, porém, não passa só pela segurança.
Existe um eleitor que não gosta do PT, mas também não quer votar em Flávio Bolsonaro. É esse eleitor que Caiado precisa conquistar. Dois temas ajudam a entender esse afastamento do bolsonarismo: vacina e anistia.
Caiado se diferencia de Bolsonaro ao defender a vacinação. Mas volta a se aproximar quando promete anistiar os condenados pelo 8 de Janeiro. Vale pouco romper com o bolsonarismo numa questão que afastou esse eleitor e abraçá-lo em outra.
Nossas pesquisas qualitativas no Locomotiva mostram resistência à anistia entre eleitores pendulares. Para alguns, insistir no tema funciona quase como um "atestado de culpa".
Brasília adora chamar esse eleitor de contraditório. Não é.
Ele pode querer polícia mais forte e programa social preservado. Pode defender responsabilidade fiscal e vacinação. Pode ser antipetista e achar que quem tentou dar um golpe e não respeitou o resultado das urnas deve responder à Justiça. Ele não procura um Bolsonaro de banho tomado. Procura uma alternativa.
Por isso chama atenção a comparação de Caiado entre a anistia que propõe e uma suposta "anistia de Lula".
Lula não foi anistiado. Suas condenações foram anuladas por decisões judiciais sobre a competência da Vara de Curitiba, e o STF reconheceu a parcialidade de Sergio Moro no processo do triplex. Pode-se concordar ou não com essas decisões. Mas anulação judicial e anistia são coisas diferentes.
Isso não é detalhe.
O eleitor que Caiado precisa conquistar tende a ser mais escolarizado, acompanha mais o noticiário e desconfia das narrativas prontas dos dois polos. Depois de anos de fake news e guerra nas redes, cobra um ativo raro na política: coerência factual.
Na segurança, Caiado mostrou um caminho para esse eleitor: experiência, autoridade e linguagem concreta
Ronaldo Caiado está há quatro décadas na política, mas conserva um jeito interiorano que produz simpatia. Fala como quem conversa à mesa, conta casos e chama o interlocutor pelo nome. Carrega cacoetes antigos da política brasileira: respostas longas, desvios quando apertado e a tendência de voltar a Goiás quando querem saber o que faria no Brasil.
Na segurança, Caiado esteve melhor do que no Jornal Nacional. É o tema em que sua experiência vira proposta e chega à vida concreta. Falou em enfrentar facções, construir 40 presídios de segurança máxima e tratar o crime organizado como problema nacional.
Pode-se discordar de parte das soluções, sobretudo da resistência às câmeras corporais, difícil de explicar tecnicamente e que soa mais como aceno ao bolsonarismo, apesar da ampla aprovação popular de seu uso. Ainda assim, o eleitor sabe que tipo de presidente Caiado pretende ser.
Para quem mora na periferia, segurança não é Código Penal. É voltar do trabalho à noite, deixar a filha pegar ônibus, usar o celular na rua sem transformar cada esquina numa roleta-russa. Caiado captou uma parte da sensação térmica de 2026: ordem também é organização de vida.
O caminho para uma terceira via, porém, não passa só pela segurança.
Existe um eleitor que não gosta do PT, mas também não quer votar em Flávio Bolsonaro. É esse eleitor que Caiado precisa conquistar. Dois temas ajudam a entender esse afastamento do bolsonarismo: vacina e anistia.
Caiado se diferencia de Bolsonaro ao defender a vacinação. Mas volta a se aproximar quando promete anistiar os condenados pelo 8 de Janeiro. Vale pouco romper com o bolsonarismo numa questão que afastou esse eleitor e abraçá-lo em outra.
Nossas pesquisas qualitativas no Locomotiva mostram resistência à anistia entre eleitores pendulares. Para alguns, insistir no tema funciona quase como um "atestado de culpa".
Brasília adora chamar esse eleitor de contraditório. Não é.
Ele pode querer polícia mais forte e programa social preservado. Pode defender responsabilidade fiscal e vacinação. Pode ser antipetista e achar que quem tentou dar um golpe e não respeitou o resultado das urnas deve responder à Justiça. Ele não procura um Bolsonaro de banho tomado. Procura uma alternativa.
Por isso chama atenção a comparação de Caiado entre a anistia que propõe e uma suposta "anistia de Lula".
Lula não foi anistiado. Suas condenações foram anuladas por decisões judiciais sobre a competência da Vara de Curitiba, e o STF reconheceu a parcialidade de Sergio Moro no processo do triplex. Pode-se concordar ou não com essas decisões. Mas anulação judicial e anistia são coisas diferentes.
Isso não é detalhe.
O eleitor que Caiado precisa conquistar tende a ser mais escolarizado, acompanha mais o noticiário e desconfia das narrativas prontas dos dois polos. Depois de anos de fake news e guerra nas redes, cobra um ativo raro na política: coerência factual.
Na segurança, Caiado mostrou um caminho para esse eleitor: experiência, autoridade e linguagem concreta.
Mas terceira via não é ficar no meio de Lula e Bolsonaro. É oferecer alguma coisa que nenhum dos dois oferece.
Esse eleitor não quer apenas trocar os personagens da polarização. Quer sair da lógica dela.
Defender a vacina e depois abraçar a anistia é ficar com um pé fora e outro dentro do bolsonarismo. Terceira via não se constrói com um pé em cada margem.
O Globo





