Às vezes é preciso que se diga o óbvio para que todos percebam a dimensão das coisas. A coluna fez uma pergunta ao ministro da Defesa, José Múcio, já imaginando qual seria a resposta:
"O senhor acha que essa encrenca dos Estados Unidos contra o Irã pode acabar desencadeando uma guerra mundial?"
Múcio respondeu: "Acho que eles não têm coragem. Morre todo mundo."
A coluna insistiu: "Mas o presidente dos EUA, Donald Trump, e os Aiatolás iranianos parecem meio malucos. O Brasil se prepara para a hipótese de uma guerra mundial?"
Resposta: "Não temos como nos preparar para isso. Nossa principal arma continua sendo a diplomacia, o apelo para a racionalidade."
José Múcio tem esse hábito de dizer o óbvio, mesmo quando algumas pessoas não considerem adequado um ministro falar de maneira tão direta.
Ele já falou, por exemplo, que as Forças Armadas teriam munição para apenas 30 dias de conflito. Foi quando cobrou numa reunião ministerial maior aporte financeiro na Defesa. Argumentou que o Brasil contribui com apenas 1% dos gastos militares mundiais, apesar de ser a 10ª economia.
É a pura verdade, e até o presidente Luiz Inácio Lula da Silva admite. Assim como é verdade quando Múcio diz que o Brasil nada poderá fazer se Trump e os aiatolás resolverem explodir o mundo.
Não adianta comprar mais armas, convocar soldados, construir a toque de caixa uma super defesa antiaérea. Nada disso funcionará quando a radioatividade de centenas de bombas nucleares se espalhar sobre o planeta. "Morre todo mundo."
Essa hipótese de guerra nuclear não está fora de cogitação do governo. Especialmente dos comandantes militares e dos chefões da diplomacia brasileira e do Palácio do Planalto. Eles já conversaram francamente sobre esse assunto.
Chegaram à conclusão de que Donald Trump tem o hábito de esticar demais a corda, mas, dessa vez, bateu de frente com os aiatolás que comandam o Irã e que também não são afeitos a recuar. Há, sim, risco de o conflito se tornar incontrolável e o Brasil nada pode fazer, além de se colocar à disposição para tratativas diplomáticas de um lado ou de outro.
O guru do presidente Lula para a área diplomática, ex-ministro Celso Amorim, que também é guru do ministro das Relações Exteriores, embaixador Mauro Vieira, tem exatamente a mesma posição de José Múcio: a situação é delicada; Donald Trump é imprevisível; os aiatolás do Irã são complicados; o conflito com os Estados Unidos pode se alastrar e até virar uma Terceira Guerra Mundial.
Tudo o que o Brasil pode fazer é quase nada e está no campo diplomático. Mas é possível agir no campo interno: pedir muita calma nessa hora. Evitar discursos fáceis e belicosos.
O problema é que os ânimos da opinião pública às vezes ficam tão inflamáveis quanto o combustível das guerras. Especialmente perto de eleições polarizadas como as que o Brasil enfrentará em outubro.
Essa é a principal preocupação dos analistas do governo na diplomacia e na política: não se pode evitar o clima internacional belicoso, mas deve-se blindar a política brasileira contra a contaminação.
Correio da Manhã
https://www.correiodamanha.com.br/colunistas/tales-faria/2026/04/275158-jose-mucio-nao-temos-como-nos-preparar-para-a-guerra-mundial.html





