Em alguns projetos, como Ferrogrão, especialistas apontam complexidade técnica, riscos ambientais e problemas de financiamento
Por Luiz Araújo (Broadcast) e Elisa Calmon (Broadcast)
BRASÍLIA e SÃO PAULO - Após cerca de três anos de elaboração, o governo federal coloca em prática a partir deste ano a nova carteira de concessões ferroviárias, que prevê a realização de oito leilões até 2027, abrangendo mais de nove mil quilômetros de extensão e um volume estimado de R$ 140 bilhões em investimentos. A agenda marca a retomada de um fluxo de projetos que ficou praticamente paralisado por quase uma década.
Desde a desestatização das malhas nos anos 1990, o modelo ferroviário permitiu ganhos de eficiência, mas tentativas posteriores de ampliar a malha, como no Programa de Investimentos em Logística (PIL), no governo de Dilma Rousseff, esbarraram em incertezas regulatórias, problemas ambientais e na falta de dinheiro (afinal, são projetos caros e de longo prazo).
Nos anos seguintes, as gestões de Michel Temer e Jair Bolsonaro priorizaram a prorrogação antecipada de contratos existentes, garantindo novos aportes, mas com poucos projetos greenfield (novos). A atual proposta tenta retomar uma agenda mais ampla de expansão da malha, em um ambiente ainda marcado por desafios ambientais e de financiamento.
A expectativa do Ministério dos Transportes é iniciar os leilões ainda este ano, apoiando-se no desempenho recente das concessões rodoviárias, que conseguiram atrair investidores mesmo em um cenário de juros elevados e ajudaram a recompor a confiança do mercado. "Vamos atrair operadores de rodovias, investidores financeiros e estrangeiros. Já há muito interesse", diz o secretário-executivo da pasta, George Santoro.
A avaliação, no entanto, não é consensual entre especialistas do setor ferroviário, que apontam diferenças estruturais relevantes nos dois modais e entre os próprios projetos incluídos no pipeline. Para o advogado Eros Frederico, da área de infraestrutura do SouzaOkawa Advogados, o sucesso recente das rodovias não se transfere automaticamente para as ferrovias. "O setor ferroviário parte de um patamar mais complexo", afirma.
Na mesma linha, o sócio da área de infraestrutura do L.O. Baptista, Felipe Kfuri, diz que o desempenho das rodovias cria um precedente institucional positivo, mas exige cautela na comparação entre os modais. "O setor ferroviário envolve maior complexidade técnica, volumes de investimento mais elevados e riscos ambientais, fundiários e de demanda mais acentuados", afirma.
Projetos ferroviários
A carteira anunciada pelo ministério é considerada diversa por todos os interlocutores. Os projetos listados incluem o Corredor Minas-Rio, o Anel Ferroviário do Sudeste, a Malha Oeste, o Corredor Leste-Oeste, a Ferrogrão, três corredores da Malha Sul e a Extensão Norte da Ferrovia Norte-Sul.
Entre os ativos considerados mais viáveis, há consenso em torno do Corredor Minas-Rio e da Extensão Norte da Norte-Sul. Os analistas observam que se tratam de empreendimentos interligados a trechos já operacionais, com demanda mais previsível. O Corredor Minas-Rio se beneficia de carga cativa ligada à mineração, o que reduz riscos de receita e melhora a viabilidade do projeto.
Também há avaliação relativamente positiva sobre parte da Malha Sul, especialmente os corredores Paraná-Santa Catarina e Rio Grande. Nesses, a diversificação de cargas, dentre o agronegócio, indústria e proteína animal, e a proximidade de portos organizados contribuem para um perfil de risco mais equilibrado, embora o volume de investimentos ainda seja elevado.
Por outro lado, projetos como a Ferrogrão, a Malha Oeste e o Corredor Leste-Oeste concentram as maiores dúvidas do mercado. Frederico diz que esses empreendimentos enfrentam entraves regulatórios, ambientais e contratuais relevantes. "A ausência de contratos âncora e a menor clareza sobre a demanda inicial reduzem a atratividade econômica no curto prazo", afirma.
Estratégia institucional
A Ferrogrão aparece como o caso mais sensível da carteira. O projeto permanece judicializado no Supremo Tribunal Federal (STF) e ainda não conta com licenciamento ambiental nem com aval do Tribunal de Contas da União (TCU). Para Kfuri, a presença do projeto no planejamento oficial indica prioridade estratégica, mas deve ser interpretada com cautela. "Reflete mais uma expectativa do que uma convicção de avanço no curto prazo", diz.A advogada Larissa Caroline de Almeida Silva, do gabinete Ambiental e Minerário do Fonseca Brasil Serrão Advogados, avalia que a sinalização do ministério tem caráter político-institucional. "O Executivo demonstra confiança na reversão do impasse, mas o controle do cronograma depende exclusivamente do STF. O mercado percebe esse risco e o precifica", afirma.
Em relação à Ferrogrão, o secretário George Santoro reforça que a publicação do edital só ocorrerá após autorização da Justiça e do TCU - órgão de controle ligado ao Legislativo. "Não adianta antecipar. Com essas autorizações, o edital estará pronto", diz, acrescentando que o projeto pode se tornar viável com financiamento de longo prazo estruturado junto ao BNDES.
Do lado do mercado, há consenso de que o governo precisará atuar de forma mais incisiva na maturação dos projetos. Frederico afirma que o principal desafio é transformar o pipeline anunciado em empreendimentos efetivamente bancáveis. "É indispensável avançar no licenciamento ambiental, na clareza fundiária e na estruturação de mecanismos de financiamento e subvenção para trechos greenfield", diz.
Estadão
https://www.estadao.com.br/economia/agenda-ferroviaria-de-r-140-bi-preve-oito-leiloes-para-tentar-destravar-setor-apos-decadas/





