Desfile na Sapucaí armou uma casa de caboclo para Lula candidato, por Luiz Carlos Azedo

Desfile na Sapucaí armou uma casa de caboclo para Lula candidato, por Luiz Carlos Azedo

O risco político não está apenas no Judiciário. O episódio fornece munição à oposição e, sobretudo, às forças de centro que articulam uma alternativa eleitoral fora da polarização

Petistas e juristas alinhados ao governo minimizam o impacto do desfile da Acadêmicos de Niterói, na Marquês de Sapucaí, sob o argumento de que não houve violação explícita da legislação eleitoral. É mesmo o que precisam fazer. Formalmente, de fato, a decisão da presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministra Cármen Lúcia, ao liberar a apresentação, respeitou o princípio constitucional da liberdade de expressão artística - impedir o desfile configuraria censura prévia. Mas a política, como se sabe, raramente se resolve apenas na esfera formal. E é justamente aí que os estrategistas da campanha de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva têm razões de sobra para pôr as barbas de molho.

O problema não é no gesto isolado, mas na cadeia que se projeta no tempo. "As consequências vêm depois", advertia o Conselheiro Acácio. O desfile não entrará para a história por seus méritos estéticos, mas pode entrar como jogada de marketing eleitoral e jurisprudência eleitoral, pela controvérsia jurídica que provocou: a suspeita de propaganda eleitoral antecipada e de abuso de poder político. Trata-se de um prato cheio para a oposição, que já protocolou umas 10 representações no TSE pedindo a inelegibilidade de Lula, e evocou precedentes recentes, como a condenação de Jair Bolsonaro pela reunião com diplomatas estrangeiros em que atacou a confiabilidade das urnas eletrônicas.

O contexto institucional torna o episódio ainda mais delicado. Em junho, Cármen Lúcia deixará a presidência do TSE e os ministros Nunes Marques e André Mendonça, ambos indicados por Bolsonaro, assumirão, respectivamente, a presidência e a vice-presidência da Corte Eleitoral. Ainda que não se projete, hoje, uma condenação capaz de tornar Lula inelegível - sobretudo sendo o favorito na disputa -, a judicialização do episódio já produz desgaste político, ruído institucional e incerteza estratégica. E pode custar uma multa milionária.

A favor de Lula pesam alguns cuidados adotados de última hora: a decisão de impedir que a primeira-dama, Janja Lula da Silva, desfilasse no último carro alegórico, como inicialmente previsto, e a opção por permanecer no camarote do prefeito Eduardo Paes, aliado político, limitando-se a gestos protocolares e os beijos às bandeiras das demais agremiações. Contra ele, contudo, fala o conteúdo do desfile em si, que recorreu ostensivamente a símbolos clássicos de campanha: o refrão "Olê, olê, olê, olá, Lula, Lula", o número 13 do PT e a exaltação direta de políticas públicas do atual governo, compondo um quadro difícil de dissociar do calendário eleitoral. Sem falar nos ataques aos que foram chamados "neoconservadores em conserva", onde Lula sempre enfrenta dificuldades eleitorais, como o agronegócio e os evangélicos.

Do ponto de vista estritamente jurídico, o TSE agiu corretamente ao não barrar o desfile. Mas isso não equivale a um salvo-conduto. A própria ministra Cármen Lúcia advertiu para o "risco concreto e plausível" de ocorrência de ilícitos, a serem avaliados posteriormente. O Carnaval, por definição, é espaço de transgressão simbólica, sátira e crítica ao poder, mas não eleitoral. Ao optar por homenagear um presidente vivo, no exercício do cargo e candidato à reeleição, às vésperas do pleito, a Acadêmicos de Niterói subverteu essa lógica e tensionou deliberadamente os limites entre manifestação cultural e propaganda política.

Onde mora o perigo


O risco político não está apenas no Judiciário. O episódio fornece munição narrativa à oposição e, sobretudo, às forças de centro que articulam uma alternativa eleitoral fora da polarização tradicional. O presidente do PSD, Gilberto Kassab, trabalha para viabilizar uma candidatura competitiva, tendo como principal aposta o governador do Paraná, Ratinho Junior, sem descartar outros nomes, como Eduardo Leite e Ronaldo Caiado. Nesse cenário, cada desgaste simbólico do presidente fortalece o discurso de que Lula representa um ciclo em esgotamento.

Não por acaso, editoriais dos principais jornais apontaram o desfile como um exemplo de campanha antecipada disfarçada de festa popular. No mercado financeiro, a chamada Faria Lima não esconde seu crescente entusiasmo com uma candidatura do PSD, vista como mais previsível e menos polarizadora. Kassab avança na montagem de palanques estaduais onde Lula enfrenta maior rejeição, como Rio Grande do Sul, Paraná, Rondônia, ou tem palanques fortes, como Pernambuco e Sergipe. Num ambiente em que a desaprovação ao governo ainda permanece elevada, apesar da melhora recente dos indicadores econômicos.

A conjuntura econômica, porém, joga a favor do presidente: inflação sob controle, desemprego baixo, renda em recuperação e expectativas mais positivas quanto ao crescimento podem reduzir a rejeição e ampliar sua aprovação. Ainda assim, mesmo para o marqueteiro de Lula, o secretário de Comunicação Social do Governo, Sidônio Palmeira, o episódio da Sapucaí foi um erro de cálculo político, um tiro no próprio pé. O eleitor que rejeita Lula não mudou de opinião por causa do desfile; o eleitor fiel ganhou, no máximo, um jingle reciclado; e o eleitor volátil, aquele que decide eleições, teve mais motivos para irritação do que para reconciliação.

Ao permitir que a maior festa popular do país fosse atravessada por símbolos explícitos da disputa eleitoral e comparecer ao desfile da Acadêmicos de Niterói, Lula armou, para si mesmo, uma casa de caboclo: entrou confiante, mas saiu deixando rastros para adversários, juristas e candidatos alternativos explorarem. Na política, em ano eleitoral, nem tudo que é permitido é aconselhável e o aplauso não é sinônimo de voto.

Em tempo: a grande campeã do carnaval de 2026 foi a Unidos do Viradouro, de Niterói, com o enredo Pra cima, Ciça, uma homenagem a Moacyr Silva Pinto, aos 69 anos, seu mestre de bateria. A Acadêmicos de Niterói, em último lugar, voltou para a Série Ouro.

Correio Braziliense
https://blogs.correiobraziliense.com.br/azedo/desfile-na-sapucai-armou-uma-casa-de-caboclo-para-lula-candidato/