EUA já sinalizaram que Cuba e Colômbia podem ser afetados por medidas de intervenção
Por Eliane Oliveira - Brasília
A despeito das divergências políticas entre governos de esquerda e de direita na América Latina, a palavra que mais se repetiu na reunião extraordinária da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac), realizada no domingo, foi "precedente". De acordo com participantes, o termo sintetizou a preocupação comum diante da ação militar dos Estados Unidos na Venezuela, vista por diversos países da região como um marco perigoso, capaz de abrir espaço para novas intervenções unilaterais no continente.
Nos bastidores, integrantes do governo brasileiro afirmam que o fato de o presidente dos EUA, Donald Trump, ter mencionado que outros países da região poderão ser alvo de novas ações, após a operação na Venezuela, motivou a preocupação. Segundo avaliações internas, Cuba é vista como um país que corre risco de pressão adicional, enquanto eventuais ameaças à Colômbia tendem a ser interpretadas como bravata. Interlocutores destacam que atacar um país com presidente democraticamente eleito, histórico militarista e presença de guerrilhas e contraguerrilhas em áreas montanhosas e amazônicas representaria um custo político e militar muito mais elevado.
A avaliação de diplomatas brasileiros é que as referências a Cuba e à Colômbia funcionam sobretudo como jogo de cena, destinado a distrair a opinião pública e a classe política dos Estados Unidos, onde a ação militar na Venezuela não teria obtido apoio majoritário. Em outras palavras, Washington ainda precisará lidar com as consequências políticas e operacionais da intervenção antes de qualquer novo movimento na região.
Para o governo brasileiro, a prioridade segue sendo evitar qualquer tipo de instabilidade prolongada no país vizinho. O Brasil abriga cerca de 3.500 brasileiros na Venezuela e compartilha com o país a maior fronteira terrestre do território nacional. Um auxiliar presidencial afirma que não interessa ao Brasil "nenhuma convulsão social" na Venezuela.
A Constituição venezuelana prevê que, em caso de vacância presidencial reconhecida pela Assembleia Nacional, a vice-presidência assuma e convoque eleições em até 30 dias. A primeira etapa foi cumprida, mas há dúvidas sobre a viabilidade do calendário eleitoral em um contexto de instabilidade política e tensão internacional.
A avaliação de integrantes do governo brasileiro é que a manutenção de uma relação funcional entre Caracas e Washington pode postergar decisões sobre eleições. Segundo um interlocutor com conhecimento do assunto, caso o novo governo venezuelano adote uma postura considerada "transacional", especialmente no setor de petróleo, os EUA podem optar por preservar o status quo por mais tempo.
Nesse contexto, o Brasil reafirma sua doutrina de reconhecer Estados, e não governos, e mantém diálogo com as autoridades constituídas, com foco em interesses concretos: estabilidade regional, controle migratório, retomada da cooperação e reconstrução do comércio bilateral. Esse intercâmbio, que já alcançou cerca de US$ 6 bilhões anuais, hoje mal supera US$ 1,5 bilhão.
Para o governo brasileiro, uma Venezuela estável, com economia em recuperação e retorno gradual à normalidade democrática, é condição essencial para reduzir o impacto regional da crise migratória e reabrir oportunidades de negócios.
Paradoxalmente, apesar da gravidade do ato, o cenário interno venezuelano tem sido descrito como relativamente estável. Relatos vindos da embaixada brasileira em Caracas indicam uma "calma tensa", sem distúrbios de grande escala, ameaças a missões diplomáticas ou necessidade de repatriação de brasileiros. Houve protestos pontuais, mas nenhum quadro de convulsão social ou colapso institucional imediato.
A posse da vice-presidente Delcy Rodríguez como presidente interina ocorreu sem incidentes relevantes e contou com a presença da embaixadora do Brasil, Glivânia de Oliveira, que também havia participado da posse anterior de Nicolás Maduro. Esse grau de normalidade institucional chama a atenção de interlocutores do governo brasileiro, mesmo após um evento classificado como "gravíssimo" no plano internacional. As Forças Armadas venezuelanas reafirmaram apoio à nova presidente, e declarações públicas indicaram disposição para manter canais de diálogo com Washington.
O Globo
https://oglobo.globo.com/mundo/noticia/2026/01/05/diplomatas-e-auxiliares-de-lula-avaliam-que-cuba-sofre-maior-risco-com-ameaca-de-trump-de-novas-intervencoes.ghtml





