Delcy Rodríguez, líder interina da Venezuela, fala entre o ministro da Defesa, Vladimir Padrino (de unifome), e o ministro do Interior, Diosdado Cabello (de boné), em Caracas - Marcelo Garcia/Presidência da Venezuela/AFP |
Chavismo sem Maduro compõe com Trump, mas dúvidas persistem

Chavismo sem Maduro compõe com Trump, mas dúvidas persistem

  • Se entregaram ditador é incerto, embora provável, mas militares foram em frente com o plano do americano
  • Resta saber se as divisões internas podem descambar para guerra civil, já que volta da democracia por ora é só propaganda

Igor Gielow

Com o assentamento da poeira levantada pelos helicópteros americanos e as explosões que sacudiram a Venezuela no sábado (3), um cenário um pouco mais claro se desenha no panorama político do país após o ataque que capturou Nicolás Maduro.

As dúvidas, porém, persistem, e dizem respeito à nebulosa divisão de poder ora vigente em Caracas. O fantasma de uma guerra civil sempre estará presente, embora a usual analogia com o caso do Iraque em 2003 não pareça 100% aplicável.

Naquela ocasião, também animado pelo sucesso militar mais imediato, George W. Bush jogou fora toda a estrutura de poder que serviu para manter coeso, à força, o tecido social do país sob Saddam Hussein.

A fantasia da construção de uma democracia liberal que facilitasse a vida de empresas petrolíferas americanas, instalando um governo fantoche em Bagdá, levou a uma sangrenta insurreição decorrente da disputa tribal de poderes.

Até aqui, apesar da atabalhoada entrevista na qual disse que os EUA iriam governar a Venezuela por um tempo -algo que claramente nem o secretário de Estado, Marco Rubio, sabe o que é- Trump evitou tornar o chavismo ilegal.

Ao contrário: sua primeira menção foi a de dizer que ia trabalhar com a líder interina, Delcy Rodríguez, descartando imediatamente a pretensão da líder oposicionista María Corina Machado de voltar e colocar seu preposto Edmundo González no poder.

A interina jogou para a plateia e criticou os EUA, exigindo o impossível retorno de Maduro. Ato contínuo, Trump ameaçou novas ações militares e tudo voltou ao eixo previsível, com a líder prometendo nesta segunda-feira (5) colaboração com o plano americano de tomada do petróleo da Venezuela.

Com isso, o chavismo teoricamente segue no poder, apenas com o comando trocado. A ideia de que os militares que comandam o país entregaram a cabeça de Maduro para ficar no poder, reforçada pela inexistente reação ao ataque americano, ganha ares de verdade na prática.

Se foi isso mesmo ou se apenas optaram por uma acomodação em nome da sobrevivência, é quase irrelevante agora. O risco que persiste é o de não haver coordenação entre os chavistas remanescentes, notadamente os ministros Vladimir Padrino (Defesa) e Diosdado Cabello (Interior).

Desde os anos de Hugo Chávez (1999-2013), a Venezuela passou por um processo de militarização que armou milícias com armas leve em todo o país. Apesar de terem sido humilhadas, as Forças Armadas têm recursos bastante razoáveis em termos regionais.

Com isso, o fantasma de uma guerra civil segue no ar, embora até aqui não haja sinais disso. Se ocorrer, o temor regional de uma crise humanitária vai virar realidade -e nem se entrará aqui no aspecto das próximas ações de Trump, que miram Colômbia e Cuba.

Em Caracas, por ora, a improvável aliança trumpista-chavista está se desenhando, com o evidente desprezo à ideia da volta da democracia ao país. A queda de um tirano corrupto certamente foi bom para a Venezuela, mas nada indica que os seus cidadãos terão mais liberdade.

Um executivo russo com experiência em negócios no país disse à Folha esperar apenas a troca de parceiro externo, papel que coube a Moscou e a Pequim desde 1999, com a volta da hegemonia americana.

Seria a mudança de regime possível nos dias pragmáticos -ou cínicos, a gosto do crítico- da era Trump 2. Qualquer menção a valores democráticos não passa de propaganda.

Como é óbvio, isso é uma fotografia momentânea. A quantidade de fios desencapados no processo desencadeado pelo republicano é grande, assim como o de curtos-circuitos.

Folha de S.Paulo
https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2026/01/chavismo-sem-maduro-compoe-com-trump-mas-duvidas-persistem.shtml