- Episódio atua como catalisador de disputas que se acumulam no campo evangélico
- Entre pastores e lideranças, predomina a percepção de que motivação errada não valida boa ação
Quais as consequências do ataque dos EUA à Venezuela para evangélicos brasileiros em ano eleitoral? A ofensiva pode aprofundar o cisma entre conservadores de direita.
O ano de 2025 terminou com o pastor Silas Malafaia elevando o tom ao criticar a indicação de Flávio Bolsonaro como candidato à Presidência. Flávio respondeu com gestos simbólicos: participou de cultos com o influenciador Pablo Marçal e com André Valadão, líder da Lagoinha Church.
Bolsonaristas raiz, independentemente da religião, reagiram de forma previsível à notícia de que os Estados Unidos atacaram a Venezuela e capturaram seu líder, o ditador Nicolás Maduro.
Jeffrey Chiquini, evangélico e advogado de Filipe Martins, ex-assessor de Jair Bolsonaro, escreveu nas redes: "Alguém avisa o Trump que Brasília fica a apenas 3 mil km de Caracas. Tem um cara aqui que chama Maduro de companheiro e que adoraria dividir hospedagem com ele".
Outra ideia recorrente é a de que a investigação contra Maduro, visando a seu julgamento, exporia vínculos com o governo petista. O deputado Nikolas Ferreira e o próprio Flávio Bolsonaro repetiram os mesmos argumentos.
Apesar disso, esse tipo de manifestação foi recebido com silêncio por parte das lideranças evangélicas em grupos de WhatsApp e redes sociais.
A narrativa de que os EUA "salvaram o povo venezuelano da ditadura" não ecoa fora das bolhas mais radicalizadas. Entre pastores e lideranças, predomina a percepção de que uma motivação errada não valida uma boa ação.
A imagem da bandeira dos EUA celebrada em uma manifestação bolsonarista no segundo semestre volta à memória. Donald Trump aparece como um líder belicista e impulsivo, que age por interesses próprios e contribui para desequilibrar o continente.
A Aliança de Igrejas Presbiterianas e Reformadas da América Latina divulgou comunicado conclamando cristãos latino-americanos a "proclamar o direito de um país soberano à sua soberania e o direito de um povo de viver sem temor de ser invadido".
Líderes da Convenção Nacional Batista da Venezuela, historicamente ligados aos EUA e opositores de Maduro, também não celebraram a ação. Em nota oficial, pediram prudência e orações pelo país: "A crentes e não crentes, nossa exortação é que se mantenham atentos aos acontecimentos e promovam um clima de tranquilidade, primeiro no ambiente familiar e também na comunidade. Nessa ordem, os cristãos são chamados a ser bênção para os outros".
O episódio venezuelano não cria essas divisões, mas atua como catalisador de disputas que já vinham se acumulando no campo evangélico pelo menos desde as eleições de 2024.
Até aqui, a liderança de Silas Malafaia conseguiu sustentar um equilíbrio delicado entre grupos distintos do campo evangélico, de igrejas históricas a neopentecostais -equilíbrio que se completava com a atuação de Michelle Bolsonaro entre mulheres. Esse arranjo, porém, parece ter se desfeito.
Parte do centro evangélico aguarda agora a definição de quem será o outro candidato da direita a disputar a eleição presidencial deste ano.
Folha de S.Paulo
https://www1.folha.uol.com.br/colunas/juliano-spyer/2026/01/acao-contra-venezuela-fratura-direita-religiosa-no-brasil.shtml





