O enredo gira em torno do investimento de uma grande maison francesa que comemora dois séculos de vida e que acompanha o agente 007 há mais de 40 anos
Por Marianne Piemonte 17 out 2026, 10h51
James Bond já cumpriu missões perigosas nos lugares mais inóspitos do planeta. Considerando-se essa vida atribulada, cabe a pergunta: em que lugar ele descansa entre um e outro serviço? Pois um local que parece concebido sob medida para isso está sendo erguido em Champagne, a famosa província localizada no nordeste da França. Trata-se do hotel que a Bollinger vai abrir. A famosa maison, que acompanha o agente 007 há mais de 40 anos, vai inaugurar por lá um recanto de luxo, com apenas 25 quartos e um restaurante. O endereço é o histórico vilarejo de Aÿ, perto de Épernay e Reims, as duas principais cidades da região, a cerca de 140 quilômetros de Paris.
A Bollinger tem uma longa história com a terra de James Bond. Em 1884, foi nomeada fornecedora oficial da corte por ordem da rainha Vitória. Desde então, seus champanhes marcaram grandes celebrações da monarquia, entre elas o casamento de Charles e Diana, em 1981. Agora, essa que é uma das mais conhecidas casas francesas prepara uma nova aventura: em 2029, ano em que completa 200 anos, vai abrir o seu próprio hotel.

O projeto do hotel: inauguração prevista para 2029 (Reprodução/VEJA)
A ideia é simples, pelo menos no papel: fazer o tempo parar. Ficar para conhecer os vinhedos, provar os vinhos e conversar com quem os produz - uma rotina para ser degustada sem pressa pelos hóspedes. "É tudo sobre tempo na Bollinger", disse à coluna Morgane Renaud, diretora de negócios da casa em passagem recente pelo Brasil. Na próxima terça, 20, confira a entrevista completa dela na nova edição do programa AL VINO, na VEJA+TV.
Fundada em 1829, a Bollinger continua pertencendo à mesma família, hoje na sexta geração. Morgane, que nasceu em Bordeaux e passou por Château Haut-Brion antes de chegar à Champagne, conhece bem o universo das grandes casas francesas. Mas foi na Bollinger que definitivamente descobriu que o tempo não é apenas uma questão de história. É matéria-prima.
Embora a Bollinger seja conhecida pelo protagonismo da Pinot Noir, uva que dá estrutura e densidade aos vinhos espumantes, a assinatura da casa também aparece nos vinhos de reserva, alguns envelhecidos por até 15 anos em magnums, garrafas de 1,5l. Um dos melhores exemplos é o R.D., cuvée criado por Elisabeth Bollinger e envelhecido por mais de 14 anos antes de chegar ao consumidor. Não é produzido todos os anos. Ele aparece apenas quando a casa considera ter uma safra excepcional para oferecer ao mercado.
Elisabeth foi uma das personagens mais importantes dessa história. Viúva de Jacques Bollinger, ela assumiu a empresa em 1941, aos 40 anos, em plena Segunda Guerra Mundial. Ficou três décadas à frente da maison e foi responsável por levar a Bollinger para além das fronteiras francesas, viajando para apresentar seus vinhos aos clientes. Durante a Guerra, quando os veículos franceses estavam confiscados pelas tropas alemãs, Madame Lily, como é conhecida, supervisionava os vinhedos de bicicleta e ordenou o emparedamento secreto das caves para proteger o patrimônio da família contra o saque nazista.

Madame Lily: inspeção a bordo de bicicleta nos vinhedos e estratégias para esconder seus vinhos das tropas nazistas (Reprodução/VEJA)
É dela também a declaração espirituosa e atemporal estampada na entrada da Maison. A frase dita em uma entrevista ao jornal britânico Daily Mail, em 14 de outubro de 1961, tornou-se uma das citações mais famosas e reproduzidas de toda a história do vinho mundial: "Eu só bebo champagne quando estou feliz e quando estou triste. Às vezes, bebo quando estou sozinha. Quando tenho companhia, considero obrigatório. Brinco com ele se não estou com fome e bebo quando estou. Fora isso, nunca toco nele - a menos que esteja com sede".
Se a história da Bollinger fosse um filme, Elisabeth provavelmente mereceria um capítulo todo para ela. O cinema, aliás, faz parte da história da casa. Há mais de quatro décadas, Bollinger e James Bond mantêm uma parceria que Morgane define como uma amizade entre as famílias Bollinger e Broccoli. A parceria em questão é com os ingleses donos da produtora EON, que detêm os direitos de adaptação dos livros de Ian Fleming para o cinema. Não houve, segundo ela, um contrato formal.
O que começou como uma relação pessoal acabou se transformando em uma das associações mais reconhecíveis entre uma marca de vinho e o cinema. Nos filmes, Bond apareceu pela primeira vez entornando uma taça de Bollinger em Viva e Deixe Morrer, de 1973, na época em que o agente era interpretado por Roger Moore. Aos poucos, a bebida virou uma marca registrada dele tão grande quanto o dry martini.
O Bollinger R.D. 1975 aparece em uma cena emblemática do filme 007 - Na Mira dos Assassinos (1985). Bond está à mesa do restaurante Jules Verne, na Torre Eiffel. Ao provar o champanhe servido, reconhece imediatamente um Bollinger 1975. Impressionado, o policial francês Achille Aubergine, sentado à sua frente, elogia o agente: "Vejo que o senhor é um conhecedor, Monsieur Bond!".
O glamour dos carros elegantes, das mulheres em vestidos fascinantes e da atmosfera que o cinema ajuda a criar parece um universo inatingível para os simples mortais. A proposta da Bollinger é tornar acessível esse mundo, na forma de um hotel diferenciado. Morgane conta que o novo empreendimento é uma maneira de estar mais próxima do público, mas sem perder a identidade da marca. "Queremos usar a tradição para nos conectarmos com o público, principalmente os mais jovens", disse. É uma mudança importante para uma casa que sempre teve como uma de suas forças a exclusividade.
Quanto o assunto é o público mais jovem, somente o apelo da marca não é suficiente para esses consumidores. A história sobre o que há dentro da garrafa também conta. Por isso, a Bollinger criou a série PN, dedicada ao Pinot Noir, com uma nova edição a cada ano. O grande diferencial dessa linha é focar no terroir, trazendo a cada ano uma reinterpretação baseada em um vilarejo (cru) específico e em uma safra principal (todas elas chegam ao Brasil pela importadora Mistral). É a Bollinger fazendo uma coisa que grandes maisons sabem fazer muito bem: mudar sem parecer que mudaram.
Há ainda um problema que não se resolve com marketing: o clima. Morgane me contou que, nos últimos 40 anos, a temperatura média em Champagne aumentou quase 2 graus. A colheita 2026 começou muito cedo, em 13 de agosto, recorde histórico da região. E a resposta da casa para esse problema não é abandonar seu estilo, mas adaptar-se. Escolher parcelas mais frescas, trabalhar com diferentes vilarejos, pesquisar variedades que praticamente desapareceram da Champagne e usar a experiência acumulada ao longo de gerações.
Mesmo diante da urgência climática, é preciso lembra que 200 anos de história não se constroem em uma década. Morgane me disse que, quando a casa planta uma vinha hoje, sabe que aquilo só vai produzir uvas depois de alguns anos - e que essas uvas poderão terminar dentro de uma cuvée muitos anos depois.
O mesmo raciocínio vale para o hotel. É um projeto de longo prazo para uma casa que gosta de pensar no próximo século enquanto comemora dois. Em um mundo obcecado por velocidade, a Bollinger está construindo um lugar dedicado justamente ao contrário.
Um hotel onde a experiência começa quando a pessoa decide ficar. E onde o luxo, no fundo, não será ter pressa nenhuma.
James Bond pode até continuar chegando de Aston Martin. Mas, em 2029, talvez a melhor coisa a fazer seja simplesmente estacionar - e brindar.
Viva e deixe morrer, sempre com estilo.
Veja
https://veja.abril.com.br/coluna/al-vino/a-aventura-que-reune-james-bond-um-champanhe-estrelado-e-um-novo-hotel-de-luxo/





