Filósofo e cientista social Marcos Nobre. - Foto: Nilani Goettems/Valor |
Entrevista: 'O partido digital da esquerda não vai nascer com a benção do PT', diz o cientista social Marcos Nobre

Entrevista: 'O partido digital da esquerda não vai nascer com a benção do PT', diz o cientista social Marcos Nobre

Professor da Unicamp afirma que Lula errou ao não produzir programa com a frente ampla que o elegeu em 2022 e que projeto de Flávio Bolsonaro se assemelha ao de líderes autoritários como Viktor Orbán

Por Ruan de Sousa Gabriel - São Paulo


Por mais bem-sucedida que seja, a mobilização digital da campanha à reeleição do presidente Lula (PT) para compensar a vantagem de Flávio Bolsonaro (PL) no primeiro turno não é capaz de competir com o que o filósofo e cientista social Marcos Nobre chama de Partido Digital Bolsonarista (PDB). Uma legenda tradicional, como o PT, pode até se "digitalizar", no sentido de aprimorar o uso das redes como ferramenta política, ele pondera, mas o PDB já nasceu on-line e opera segundo a lógica das redes, onde hierarquias são contestadas o tempo todo. A força do PT pode, inclusive, dificultar a formação de um partido digital de esquerda, avalia o professor de filosofia política da Unicamp, em entrevista ao GLOBO: "O partido digital não vai nascer se tiver que pedir a bênção do PT. Se nascer independentemente, entrará em conflito com ele pela liderança do progressismo".

Autor de "Limites da democracia: de junho de 2013 ao governo Bolsonaro" (Todavia), Nobre é diretor do Centro para Imaginação Crítica (CCI), do Cebrap, onde lidera uma equipe de pesquisadores dedicada a compreender o sucesso digital da extrema direita. Para ele, a capacidade de organização da extrema direita explica a resiliência do bolsonarismo nas urnas e na sociedade brasileira. Estudioso do "peemedebismo", ele também diz que o preço do apoio do Centrão será menor num eventual governo Flávio e que Lula falhou na tarefa de transformar a frente ampla que assegurou sua eleição em 2022 numa coalizão sustentada por um projeto político comum.

No 1º turno, Flávio Bolsonaro foi mais votado que seu pai em 2018 e 2022. O sucesso nas urnas é mérito do que o senhor chama de Partido Digital Bolsonarista (PDB)?

O PDB tem uma capacidade de influência eleitoral muito superior à dos partidos tradicionais porque combina elementos tradicionais de campanha, como propaganda em rádio e TV e comícios, com uma estrutura digital que está, o tempo todo, municiando as pessoas de materiais e aproveitando a inteligência coletiva. É um ambiente em que se testa o tempo todo que tipo de propaganda funciona, onde cúpula e base se encontram. Como não é registrado oficialmente, o PDB pode hackear diferentes siglas e ganha dos dois lados: no digital e no institucional. E o lado digital é opaco. Não se sabe que dinheiro circula ali, que articulações acontecem, nada é público. Ao mesmo tempo, ele se aproveita da institucionalidade para ter acesso a recursos públicos. Não por acaso, o PL, partido preferencial de aliança do PDB, teve 90% de reeleição e cresceu na Câmara e no Senado.

Os governistas investiram na mobilização digital após o 1º turno. André Janones comanda o "Exército do Lula" no WhatsApp e a campanha convocou a jovem deputada eleita Ana Elisa (PT-MG), que domina as redes. É suficiente para disputar com o PDB?

O partido digital se estrutura segundo a arquitetura das redes. Já o tradicional vê o mundo digital como ferramenta de propaganda. O "Exército do Lula", organizado pelo Janones no WhatsApp, é altamente centralizado e hierarquizado, mais parecido com um partido-plataforma, ainda que mimetize alguns elementos do partido digital. Já a atuação de Ana Elisa e Guilherme Cortez (deputado eleito pelo PSOL de São Paulo) é diferente, porque eles são nativos das redes e ganham protagonismo num momento crucial da campanha. A questão é: e depois?

É possível formar um partido digital da esquerda?

O PT é forte, enraizado na sociedade, e nunca permitiu que uma força relevante se organizasse à sua esquerda. O partido digital não vai nascer se tiver que pedir a bênção do PT. Se nascer independentemente, entrará em conflito com ele pela liderança do progressismo. Basta ver como a atuação de Ana Elisa incomoda. Ela não está seguindo a linha do partido. Neste momento, ninguém vai falar nada, mas, depois da eleição, podem dizer: "Escuta, o partido tem uma linha, a gente faz assim". Ela está questionando a hierarquia, o que, para quem tem 21 anos, é tão natural quanto respirar. A lógica da rede é desafiar.

E no PDB a hierarquia pode ser desafiada?

O tempo todo. Se você perde a disputa, precisa ajoelhar no milho e ser perdoado, ou é expulso, cancelado. Mas o desafio é legítimo. Num partido tradicional, a hierarquia é definida por convenções, mandatos e cargos. No digital, sua posição precisa ser conquistada hora a hora, o que produz mobilização e engajamento permanentes. O partido tradicional não está adaptado a essa lógica. Se surgir um partido digital de esquerda, haverá uma disputa de lideranças.

O que explica a resiliência do bolsonarismo mesmo depois da condenação do 8 de Janeiro e da prisão de Jair Bolsonaro?

A organização. Além disso, a cúpula bolsonarista é muito eficiente e estratégica. Desde 2023, Bolsonaro estabeleceu como prioridade conquistar o Senado. É um grau de planejamento que não é pouca coisa. Além disso, embora a punição pela tentativa de golpe tenha sido exemplar, com generais presos, ninguém dentro do sistema político foi responsabilizado. Funcionou como uma espécie de senha: posso continuar fazendo alianças com a extrema direita, mesmo golpista, sem consequências.

O avanço do PL na Câmara e no Senado se deu à custa do encolhimento do Centrão, que ficou neutro no 1º turno e agora está com Flávio. Num eventual governo dele, o preço do apoio do Centrão seria mais baixo?

O bolsonarismo é uma ameaça ao Centrão. O apoio a Flávio no segundo turno tem valor simbólico porque, quando o candidato estava fragilizado, essas legendas se recusaram a apoiá-lo. Caso vença, Flávio poderá negociar em condições mais favoráveis, reduzindo o preço do apoio do Centrão. O bolsonarismo não está restrito ao PL. Tem representantes em partidos do Centrão, como Podemos e Republicanos. Flávio poderia contar com bolsonaristas desses partidos, enfraquecendo o poder das direções partidárias de disciplinar esses deputados.

Flávio Bolsonaro afirmou que quer mudar a Constituição para 'redemocratizar' o país. Se eleito, ele terá mais apoio no Legislativo do que teve seu pai. A ameaça à democracia pode ser maior num eventual governo Flávio do que foi no de Jair?

A hipótese do golpe militar clássico saiu da mesa. O projeto do Flávio é mais próximo dos regimes autoritários como os de Viktor Orbán, na Hungria, e (Recep Tayyip) Erdogan, na Turquia, em que você vai garroteando a democracia por dentro. Um dos movimentos clássicos é tomar o Judiciário. Quando Jair Bolsonaro estabelece a eleição para o Senado como prioridade, ele estava olhando para o STF. Faz parte do manual do ditador moderno ocupar os três Poderes. Se eleito, Flávio poderá controlar o STF por meio de indicações e do impeachment de ministros. Esse projeto está claramente na mesa dele, como indicam não só declarações recentes dele, mas também o elogio ininterrupto da ditadura militar. Ele sabe que não dá para repetir a ditadura, mas algo parecido dá para fazer, como restringir as liberdades em nome da segurança, como fez (Nayib) Bukele em El Salvador.

Por que Lula não foi capaz de organizar uma frente ampla em defesa da democracia, como em 2022?

Há várias razões. A frente ampla foi um movimento das elites política, econômica e cultural. Boa parte dessas elites, por ingenuidade ou puro cinismo, não vê em Flávio o mesmo risco que via em Jair. A democracia deixou de ser decisiva para elas. O governo Lula também tem sua parcela de responsabilidade, porque subestimou tanto o projeto autoritário do bolsonarismo quanto sua força eleitoral e superestimou a própria força. Apostou numa visão economicista, de que só reconstruir o que Jair destruiu e fazer a economia funcionar era suficiente para garantir a reeleição. Lula não sentiu necessidade de transformar a frente de 2022 em uma coalizão sustentada por um projeto político comum.

O que seria esse projeto comum?

Não quero ser engenheiro de obra pronta, mas dá para dizer que o programa deveria ser resultado de conversas e negociações entre diferentes forças políticas a partir de um diagnóstico da situação. Que projeto alternativo ao bolsonarismo é possível construir com setores da direita que não querem se aliar à extrema direita, para alcançar esse eleitorado? Não existem "o agro" ou "os evangélicos" como blocos homogêneos. É necessário olhar fissuras internas, identificar as possibilidades de diálogo, com quem dá para conversar. É possível que, depois da conversa, chegue-se à conclusão de que não existe um programa capaz de unir essas forças, mas essa tentativa sequer foi feita.

O Globo
https://oglobo.globo.com/politica/eleicoes-2026/noticia/2026/10/15/entrevista-o-partido-digital-da-esquerda-nao-vai-nascer-com-a-bencao-do-pt-diz-o-cientista-social-marcos-nobre.ghtml