José Guimarães, ministro da articulação política de Lula - Foto: Cristiano Mariz / O Globo |
Entrevista: 'Lulinha paz e amor foi erro e é hora de ir para cima', diz José Guimarães, ministro da articulação política

Entrevista: 'Lulinha paz e amor foi erro e é hora de ir para cima', diz José Guimarães, ministro da articulação política

Titular da pasta defende a necessidade de 'destruir' a imagem de Flávio Bolsonaro

Por Victoria Azevedo e Fabio Graner - Brasília


O ministro da Secretaria de Relações Institucionais (SRI), José Guimarães, disse em entrevista ao GLOBO considerar um erro a abordagem inicial da campanha do PT de defender o legado de Luiz Inácio Lula da Silva sem um enfrentamento direto com o seu principal adversário, Flávio Bolsonaro (PL). Segundo o responsável pela articulação política do Palácio do Planalto, o tempo do "Lulinha Paz e Amor" passou. Agora é preciso "destruir a imagem" de "bom moço" passada pelo filho de Jair Bolsonaro.

Governistas comemoraram quando o PL escolheu Flávio Bolsonaro como candidato, considerando que seria um adversário fraco. Mas agora ele e o presidente estão empatados. O que aconteceu?

Nós temos um problema que não superamos, o que eles fazem no ambiente digital, as mentiras que eles divulgam. Eles construíram uma imagem que não está sendo fácil de desmontar, de que o Flávio é diferente do Bolsonaro. Ele é a própria cara do pai. O que esse homem fez quando o pai estava governando, como senador da República? Um "Zé Ninguém" no Senado. O único atributo dado a ele é ser filho do Bolsonaro. Eles construíram uma ideia para a população de que ele é diferente, que ele não é radical. E ele é o mais radical de todos, do ponto de vista fiscal, de tirar direitos, de cortar tudo, não dar reajuste do salário mínimo. Ele é a cópia fiel (do pai). É uma mentira que ele é diferente. O pai é mais doido, do ponto de vista das presepadas. Ele é mais sofisticado, mas é o cara mais radical do ponto de vista econômico e do ponto de vista social. Direitos sociais, zero.

Vocês vão tentar desconstruir essa imagem?

É fundamental, estamos trabalhando muito para desconstruir essa imagem de bom moço. Ele é um péssimo moço. Ele não tem nada para oferecer ao Brasil. Da semana retrasada para a semana passada deu um curto-circuito geral e já houve uma mudança (no cenário eleitoral). Acho até que tem uma chance de a eleição ser resolvida no primeiro turno. Não é fácil. Daqui para o dia 4 (de outubro), é pau puro.

O sr. falou em curto-circuito. Que erros que a campanha cometeu para chegar nesse quadro hoje?

Foi a ideia de "Lulinha e o Paz e Amor", os programas (do horário eleitoral) muito amenos. Essa tese não serve para essa disputa, para a realidade política e eleitoral do Brasil. É mostrar e comparar e ir para cima, destruir a imagem do nosso adversário.

A campanha demorou a engrenar?

Demorou. Nesses últimos 20 dias engrenou. Tanto é que nas pesquisas nós interditamos o crescimento do adversário, passamos a ter um diálogo mais forte com o Brasil real e começamos a falar do futuro.

E qual é o futuro a ser apontado?

Temos que fazer uma reforma profunda da política, do Judiciário e desse ambiente institucional do Brasil, uma reforma que a democracia precisa, porque senão ela fica contaminada.

Lula intensificou os ataques às apostas esportivas. Ele vai acabar com as Bets?

Esse debate está acontecendo. Ou acaba totalmente ou faz uma coisa mais para regulamentar. O presidente fala da destruição das famílias e diz que o nosso governo está agindo com firmeza para regulamentar, fiscalizar e combater os abusos dessas plataformas. Virou uma doença que atinge as famílias.

O governo Lula regulamentou as bets. Não há uma responsabilidade aí?

Quando nós discutimos esse tema, havia uma opinião majoritária contrária a regulamentar, a impedir as bets. O ambiente político do Congresso era para não mexer nesse vespeiro, mas acho que hoje a situação exige uma mudança, e o governo vai agir, não pode ficar à mercê (do Legislativo).

E por que tomar essa medida agora?

O governo não acabou, o terceiro mandato do presidente vai até 31 de dezembro. Portanto, o governo tem legitimidade dada pelas urnas para tomar qualquer posição, como no Bolsa Família. "Ah, é eleitoreiro". Aí você vai fazer o levantamento e o que mais fez gastança e implodiu o fiscal foi Bolsonaro, (que reajustou em) 50%. Não tem isso de que é eleitoreiro.

Mas não há um temor de migração dos apostadores para a ilegalidade?

Cabe ao poder público fiscalizar, o Ministério Público, a Polícia Federal. Até porque a nossa fiscalização não foi suficiente para conter.

Além do Bolsa Família, teve também o anúncio das canetas emagrecedoras no SUS. Tem alguma outra medida a ser tomada?

Se tiver, vão ser tomadas. A oposição vai dizer sempre que são medidas eleitoreiras, mas o governo governa.

Por que Lula adota um tom mais ameno sobre a crise do STF do que o Flávio Bolsonaro, que vem cobrando o afastamento do ministro Alexandre de Moraes?

Ele devia propor o afastamento do Mendonça também, que se transformou em cabo eleitoral dele no Supremo. O presidente Lula disse uma coisa que é o fundamental: levanta os segredos, apura tudo, doa a quem doer. O presidente deixou claro que não vai proteger ninguém. O que o presidente tem dito, como ele diria para qualquer outro ministro: o Moraes foi fundamental para interditar o golpe e garantir a eleição, o resultado das eleições. Isso não pode deixar de ser reconhecido.

Há um compromisso do presidente Davi Alcolumbre de votar a PEC da 6x1?

Votar entre o primeiro e segundo turno e vamos fazer de tudo para votar. A nossa expectativa é que Alcolumbre vote entre o dia 5, 6, 7 ou 8 (de outubro) porque o Brasil precisa disso. Não tem nada a ver com o eleitoral, não, é a necessidade do Brasil. Nós temos maioria para aprovar.

O sr. foi apontado como um dos que trabalhou bastante ali pela neutralidade dos partidos do chamado Centrão: PP, União Brasil, Republicanos. Mas há sinais de que eles podem apoiar Flávio no segundo turno. Como encara isso?

São ambientes de política e especulação, tudo é especulação. Nós temos boa relação. Vamos dialogar, vamos para o segundo turno e a gente senta com eles todos para buscar uma ampla frente democrática contra o retrocesso. Eu posso assegurar que eu não deixarei essa peteca cair.

Apesar do mote da frente ampla em 2022, houve muita crítica de falta de diálogo. Essa nova frente ampla vai se reverter em espaço no governo?

Tem que necessariamente se refletir, tem que rediscutir a composição de governo, quais partidos vão integrar. Tem que ter casamento, não pode ser paquera. A vida ensina que temos que mudar de postura. Governo de coalizão, governo de frente ampla tem que se refletir na composição do governo. Quem é governo tem que fazer casamento. Quem for para o governo não pode ser meio governo de manhã e meio governo à noite, tem que ser completo.

O Globo
https://oglobo.globo.com/politica/eleicoes-2026/noticia/2026/09/23/entrevista-lulinha-paz-e-amor-foi-erro-e-e-hora-de-ir-para-cima-diz-jose-guimaraes-ministro-da-articulacao-politica.ghtml