Números que mostram acirramento de eleição no segundo turno indicam que ajustes de comunicação precisam ser feitos desde logo
Marco Damiani
As pesquisas de opinião são os indicadores mais usados para medir as variações dos humores e das preferências do eleitorado. Mas não são os únicos. Elas apresentam resultados que têm relação direta com fatos ocorridos antes da ida a campo dos pesquisadores, cuja repercussão pode ser percebida, praticamente antecipada, pela velha e boa avaliação política de cada situação.
Especialmente este ano, no entanto, quando a divulgação de novas pesquisas vem ocorrendo à razão de três a quatro por semana, a avaliação política costuma perder-se nas curvas e atalhos que as pesquisas instalam no percurso eleitoral. A cada divulgação, a grande maioria dos comentaristas costuma adaptar seus discursos para justificar os números apurados, desobrigando-se de procurar, pela via empírica, vieses e tendências que já vinham se formando no tabuleiro do jogo eleitoral.
A bússola das pesquisas prevalece como instrumento de definição, checagem e correção de rotas das campanhas eleitorais, relegando a leitura política ao segundo plano. O problema é que, muitas vezes, a observação dos fatos políticos e o seu rebatimento no eleitorado podem ocorrer mais rapidamente pela interpretação política do que pelo levantamento estatístico. Neste sentido, quem aguarda o número para se pautar perde por esperar.
No caso da disputa entre o presidente Lula e o adversário Flávio Bolsonaro, a observação política, antes das pesquisas, indica estar havendo uma inversão de papéis. Em suas propagandas oficiais, o filho de Bolsonaro tem aparecido como uma pessoa honesta e apaziguadora, ligada à família e aos melhores valores da sociedade. Na vida real, porém, ele é um político enrolado historicamente em esquemas de rachadinhas de salários de funcionários públicos, próximo de personagens que têm parte em milícias que exploram a população dos bairros do Rio de Janeiro e é a mesma pessoa flagrada em áudio com um pedido de R$ 61 milhões ao banqueiro Daniel Vorcaro.
Na outra ponta, o candidato à reeleição tem-se mostrado muito mais como um crítico do adversário, com o slogan que define Flávio como 'o pior dos bolsonaros', do que um propagador das realizações de seu terceiro mandato na Presidência da República. Lula, em resumo, está mais se misturando aos antibolsonaristas, o que já se sabe que ele é, do que se destacando como o governante que promoveu uma política econômica que resulta no menor desemprego da história do país e na retirada recorde de milhões de pessoas da situação de fome e pobreza extrema.
A disparidade qualitativa entre as campanhas do PT e do PL está se refletindo em uma tendência nas pesquisas que é incômoda para Lula e, ao mesmo tempo, tudo o que Flávio poderia querer a esta altura da disputa. Além de se manter competitivo, ele já alcança projeções de vitória no segundo turno, como apontado pela pesquisa BTG/Nexus divulgada nesta terça-feira, 8: 46% X 45%.
As pesquisas refletem a atividade eleitoral, sendo que a comunicação é a mais vistosa delas. Para mudar o viés das pesquisas, que projetam uma eleição mais acirrada para Lula do que os seus estrategistas projetavam inicialmente, é preciso mudar o ângulo da comunicação. Mostrar muito mais as realizações do governo federal do que apenas acentuar as críticas ao principal adversário. A estratégia de bater insistentemente no oponente também tem sido praticada em São Paulo pelo ex-ministro Fernando Haddad em relação ao governador Tarcísio de Freitas. O ex-prefeito tem mostrado menos os seus trunfos à frente da política econômica e mais se parecido com um opositor comum do candidato do Republicanos. As pesquisas regionais têm indicado que essa estratégia está proporcionando resultados muito aquém dos esperados.
A definição da eleição presidencial, como tem insistido o líder do instituto de pesquisas Quaest, Felipe Nunes, estará com o eleitorado que hoje ainda está indeciso sobre em quem votar. Ele estima esse contingente em 37% do eleitorado neste momento da disputa, com 20% inclinados a escolher um outsider e 17% com tendência a apoiar um nome mais conservador. É esse contingente de indecisos que Lula precisa perseguir para derrotar o bolsonarismo. Para tanto, terá de voltar seus discursos mais para o centro do espectro político, movendo-se de sua posição firmada e arraigada no campo da esquerda. Sem mexer em seu próprio discurso, Lula amplia o risco de atrair todos contra ele próprio no segundo turno.
Marco Damiani é editor especial do Brasil 247 no Rio de Janeiro
Brasil 247
https://www.brasil247.com/blog/pesquisas-indicam-que-lula-deve-mirar-o-centro-e-mostrar-mais-as-realizacoes-do-3o-mandato/





