Mário Frias no set de Dark Horse ao lado de Jim Caviezel - Foto: Divulgação |
Polícia apura contrato entre prefeitura de SP e dona da produtora de Dark Horse

Polícia apura contrato entre prefeitura de SP e dona da produtora de Dark Horse

Iniciado em março, o inquérito policial é a segunda investigação sobre o contrato entre a ONG e a prefeitura


Por Sérgio Quintella

A Polícia Civil abriu um inquérito para apurar supostas irregularidades na execução de um contrato de R$ 108 milhões entre a prefeitura de São Paulo e a ONG Instituto Conhecer Brasil para a instalação de 5 mil pontos de internet em vias públicas da cidade. A ONG é comandada pela jornalista Karina Ferreira da Gama, também proprietária da Go Up Entertainment, produtora responsável pelo filme "Dark horse", que conta a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro e teve patrocínio de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.

Moradora da Brasilândia, na Zona Norte de São Paulo, Karina é ligada ao deputado federal Mario Frias (PL-SP), que assina o roteiro do filme. Ela possui em seu nome cinco empresas - além da ONG e da produtora, tem a Conhecer Brasil Assessoria, a Upcon Serviços Especializados Ltda. (com filial em Goiás) e a Academia Nacional de Cultura.

O contrato com a prefeitura de Ricardo Nunes (MDB) começou a ser executado em 2024 e deveria atingir os 5 mil pontos de wi-fi em 2025, mas no momento tem 3,2 mil instalações na capital paulista.

Iniciado em março, o inquérito policial é a segunda investigação sobre o contrato entre a ONG e a prefeitura. A primeira, de fevereiro, que tramita na Promotoria do Patrimônio Público e Social, surgiu de denúncia do vereador Nabil Bonduki (PT), que contesta a falta de concorrência na licitação e a falta de experiência da ONG na gestão de redes de wi-fi.

- As irregularidades são evidentes, desde a forma de contrato até a prestação de contas - afirma Bonduki.

'Suspeita de ilegalidades'

A investigação mais recente também teve início no Ministério Público de São Paulo, que remeteu o caso à Polícia Civil a fim de instaurar um inquérito, que poderá originar uma ação criminal.

"As apurações revelaram várias suspeitas de ilegalidades, como a falta de expertise da ONG na implementação de rede wi-fi, o recebimento de 26 milhões de reais sem que o serviço tivesse sido efetivamente prestado, a falta de concorrência na licitação e, ainda, a possibilidade do mesmo serviço ser prestado pela empresa pública municipal (Prodam) por valor significativamente inferior. Havendo indícios da prática de crimes licitatórios, determino a remessa dos autos à Delegacia de Polícia para a apuração dos fatos", diz o pedido da promotora Fabíola Cezarini, da 6° Promotoria de Justiça Criminal.

A ligação entre as duas empresas de Karina - ONG e a produtora do filme -, embora não seja objeto específico do despacho da promotora, pode vir a ser tratada no inquérito policial, segundo fontes da Polícia Civil, à medida em que os investigadores encontrarem evidências de que os recursos pagos pela prefeitura possam ter sido repassados para outras contas relacionadas às empresas.

A prefeitura afirma, em nota, "que a produção do filme citado não recebeu recursos municipais e qualquer relação entre a contratação do Instituto Conhecer Brasil e a produção cinematográfica é descabida. O contrato do ICB foi fechado em junho de 2024, pelo menos um ano antes do início da produção do filme. Já a SPCine foi procurada para autorização das filmagens apenas em outubro de 2025, ou seja, um ano e quatro meses após o contrato com o ICB ser firmado - seguindo exatamente o mesmo trâmite usado em todas as solicitações recebidas pelo Município para essa finalidade".

Sobre o contrato para instalação de wifi, a gestão Nunes diz que "a parceria com o Instituto Conhecer Brasil foi estabelecida por meio de chamamento público transparente, cumprindo as exigências legais do edital. A execução dos valores do contrato se dá por ponto ativo (de wi-fi), modalidade que evita qualquer desperdício de recursos públicos. Cerca de R$ 106 milhões foram destinados à implantação dos milhares de pontos espalhados pela cidade, manutenção preventiva, suporte técnico e continuidade dos serviços de conectividade já entregues às comunidades", completa a prefeitura.

Sobre o primeiro inquérito do MP, a gestão municipal diz que respondeu aos questionamentos em janeiro e que a investigação não traz menção sobre o filme. Já em relação ao inquérito policial, a prefeitura diz que não recebeu nenhum questionamento. Procuradas, a ONG e Karina da Gama não responderam à reportagem.

Nas redes sociais, na segunda-feira (18), em resposta a uma postagem do vereador Nabil Bonduki, Karina comentou sobre a suposta falta de experiência da ONG para gerir um contrato milionário. "Você acha que o fato de ter nascido na Brasilândia e empreender nos Jardins [e] em Hollywood é um demérito? Tenho que me envergonhar de trabalhar desde os 10 anos de idade? Comecei na feira livre vendendo verduras e legumes, registrada na carteira de trabalho desde os 14 anos [...] O filme não teve dinheiro público, todos os projetos sociais foram executados, para o seu desespero e da sua fonte que é um homem frustrado e derrotado na vida", escreveu Karina.

Destino do dinheiro

Em outra frente, a Polícia Federal (PF) investiga se o dinheiro solicitado pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ao banqueiro Daniel Vorcaro para financiar a cinebiografia também foi usado para custear a permanência do deputado cassado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) nos Estados Unidos. Desde que os áudios e mensagens de Flávio e Vorcaro vieram a público, diferentes versões sobre o destino dos recursos foram divulgadas por bolsonaristas.

Flávio admitiu os aportes feitos por Vorcaro ao filme - e as reclamações sobre "parcelas" não quitadas -, mas pessoas envolvidas na produção do projeto, como Mario Frias e a produtora Go Up, além de Eduardo, alegaram que não houve financiamento pelo dono do Master ou de empresas ligadas a ele. Depois, o deputado disse que foi mal interpretado quando falou que "não há um centavo do Master": "nosso relacionamento foi com a Entre, pessoa jurídica distinta".

A Entre Investimentos foi, segundo o Intercept Brasil, a empresa ligada a Vorcaro usada para o repasse de R$ 61 milhões para o Havengate Development Fund LP, empresa com sede no Texas, nos Estados Unidos, e gerida pelo advogado de imigração de Eduardo, Paulo Calixto.

O Globo
https://oglobo.globo.com/politica/noticia/2026/05/19/policia-apura-contrato-entre-prefeitura-de-sp-e-dona-da-produtora-de-dark-horse.ghtml