Em seu 15º álbum, 'Taracá', Jorge Drexler se volta para suas raízes no Uruguai e celebra a essência da vida em turnê que chega a SP no dia 23
Por Alice Granato e Tomás Novaes
Quem ouve as onze canções do novo disco de Jorge Drexler, sente um calor no coração, o astral positivo, um clima de boas vibrações. E não é que sua conjuntura pessoal estivesse soprando a favor no momento da criação. "Na verdade, não estava. O aspecto mais marcante foi a morte do meu pai (no final de 2024) e deveria ser um disco de luto. Um disco de perda de referências, de procura de referências diante da perda", responde o cantor e compositor de maior sucesso do Uruguai. "Mas o luto tem caminhos muito misteriosos."
É a primeira vez em sua vida que faz um disco sem a presença dos pais (sua mãe faleceu sete anos atrás). "Essa perspectiva me levou a procurar no Uruguai uma reconexão com a minha essência original", afirma. Nascido em Montevidéu há 61 anos, já vive na capital espanhola, Madri, há trinta. E agora volta o olhar para sua origem. "É um disco muito uruguaio e inexplicavelmente celebratório", define o músico, que se apresenta em São Paulo no próximo dia 23, no Espaço Unimed. "Nem o mundo nos últimos anos (que foi superduro), nem as minhas circunstâncias pessoais indicavam isso. Mas a dor, o medo e o luto não se explicam muito."

Jorge Drexler, 61: ensaio no Rio de Janeiro, durante passagem do músico pelo Brasil (Camilla Maia/Veja SP)
"A música de Gonzaguinha é uma reflexão cantada do mais alto nível ontológico."
A escolha de gravar a célebre canção de Gonzaguinha encontrou em cheio o seu momento. Drexler tem uma relação estreita com o Brasil, é um admirador e entusiasta da cultura e da nossa música. Tanto que fala português muito bem com seu charmoso sotaque espanhol, chegando até a puxar uns "ss" depois de umas semanas no Rio de Janeiro. "A música de Gonzaguinha é uma reflexão cantada do mais alto nível ontológico", reflete Drexler. "É uma pergunta sobre a essência do ser, das mais complexas e difíceis de responder. E ele responde não somente na somatória de respostas da letra, mas também na estrutura da canção. Começa com uma explosão de alegria e entra num túnel, passa por tonalidades tristes, te envolve como uma espiral."

Novo disco 'Taracá' (2026): álbum traz versão de 'O que É O que É?', de Gonzaguinha (Camilla Maia/Veja SP)
Para Drexler, a música traça um paralelo da vida, sempre igual, sempre diferente. Ele diz que é muito difícil de tocar. "É a única canção hoje em dia do repertório que, se quero tocar, tenho que ler os acordes, pois mudam muito", explica. "E terminamos sem entender a lógica - da canção e da vida. É magistral!".
O compositor conta que a escolha não foi premeditada, aconteceu de forma espontânea. "Não foi calculado." (risos) Mas, evidentemente, isso o conecta ainda mais fortemente ao país. Ele faz um paralelo com o trabalho de Caetano Veloso em Fina Estampa (1994). "Eu nunca gostei das aproximações automáticas. Adoro o conceito desse disco. Ele não entrou no arquétipo da música latina, cantou as músicas como ele tinha percebido e as transformou para o seu mundo", observa.
"Eu não queria fazer um samba com essa canção porque já está feito. E, sinceramente, é imelhorável a versão em samba dele. Mas eu pensei num jeito de deixá-la viva. Da minha vontade mais humilde de levar o talento do Gonzaguinha para ser compreendido em Lima, Buenos Aires, Madri, no México. Botar no meu idioma, mudar algumas coisas da letra pela sonoridade, mantendo o significado, fazer ela em candombe. Para que as pessoas entendam que essa música é universal. Pertence a todos os seres humanos e não só ao mundo do samba, que eu adoro."

Relação próxima com o Brasil: Paulinho Moska traduziu a sua música 'La Edad Del Cielo', em 2003, o hit 'A Idade do Céu' (Camilla Maia/Veja SP)
"Deveria ser um disco de procura de referências diante da perda. Mas o luto tem caminhos muitos misteriosos."
O compositor afirma estar entendendo muito mais do Brasil agora, depois de viver essas experiências. Importante lembrar da ligação fortíssima do uruguaio com o Brasil também através do cinema. Foi no filme Diários de Motocicleta (2004), do diretor Walter Salles, que ele arrebatou o primeiro Oscar de Canção Original em língua espanhola, com a belíssima Al Otro Lado del Río.

Registro da nova turnê: formação de candombe uruguaio no palco (Simon Canedo/Divulgação)
Algumas cenas do clipe foram registradas em La Paloma, no litoral uruguaio. "A praia era como o nosso jardim", relembra o músico, que, com seus irmãos, organiza ali um festival anual na praia de La Serena, em janeiro. Por fim, voltamos à origem do disco. "A vida do meu pai merece uma celebração. Ele foi um sobrevivente de guerra e formou uma família linda, deixou uma trilha de muito amor neste planeta.

Drexler no Brasil, em 2018: nova turnê chega a São Paulo no dia 23 (Vinicius Grosbelli/Divulgação)
A obsessão dele em registrar tudo o que acontecia na família em super-8 - temos horas e horas - diz muito sobre seu amor e seu olhar para a gente." Segundo Drexler, ele pôde observar agora a "bolha" que os pais criaram para protegê-los do período duro que viviam no Uruguai. "Era uma época de muito medo, muita gente que vemos nos vídeos dele, como meus tios, tias e primos, não estava em um momento de felicidade, mas a família consegue criar essa atmosfera", diz. "Fiquei muito emocionado quando percebi isso agora. Muitos dos meus familiares foram exilados na Venezuela e não voltaram mais para o Uruguai."
Para o compositor, o olhar de seu pai nas filmagens conta mais sobre ele próprio do que dos que estão retratados nos vídeos. "Revelam o amor dele pelo que estava vendo." Não por acaso, essa visão o conectou com a canção existencial de Gonzaguinha e embalou o ritmo de celebração de sua roda de candombe. ■
Publicado em VEJA São Paulo de 1o de maio de 2026, edição nº 2994
https://vejasp.abril.com.br/cultura-lazer/jorge-drexler-taraca-entrevista/





