O presidente Lula durante agenda nesta segunda-feira (4), em Brasília - Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil |
Lula vai renunciar à candidatura?

Lula vai renunciar à candidatura?

  • O Brasil tem vivido um insólito repeteco, com dois anos de delay, da política americana
  • Lula está bem melhor que Biden estava em 2024 e é um dos maiores fenômenos políticos da história do país

Joel Pinheiro da Fonseca

O Brasil tem vivido um insólito repeteco -com dois anos de delay- da experiência política americana. Em 2016, Trump é eleito. Em 2018, Bolsonaro. Depois de um mandato polêmico e marcado pela pandemia, Trump perde em 2020. Bolsonaro perde em 2022. Inconformada com a derrota, uma turba trumpista invade o Capitólio em 6 de janeiro de 2021. Aqui, uma turba bolsonarista invade os três Poderes em 8 de janeiro de 2023. Por fim, considerado muito velho para concorrer a mais uma eleição, Biden foi tirado do páreo em 2024 poucos meses antes do pleito, e sua substituta perdeu a eleição. Por aqui, em 2026.

A cada nova pesquisa em que sua popularidade não sobe e em que Flávio aparece numericamente à sua frente, aumenta o coro daqueles que preveem ou pedem a saída de Lula da corrida. Em 2023, Lula já era o presidente mais velho ao tomar a posse, com 77 anos. Hoje, com 80, está próximo dos 81 que tinha Biden em maio de 2024.

O mero paralelo entre os países não é argumento. Existem diferenças importantes entre o quadro americano de 2024 e o brasileiro de 2026. Primeiro, no funcionamento da Justiça. A Justiça não colocou obstáculo nenhum aos planos de Trump. Já Bolsonaro foi tornado inelegível pela Justiça Eleitoral em 2023 e condenado criminalmente pelo STF em 2025. Está preso e não poderá concorrer. Seu filho, Flávio, é bem menos expressivo que o pai e sua candidatura ainda não foi devidamente testada.

Em segundo lugar, apesar das idades semelhantes, Lula está bem melhor que Biden estava em 2024. Era visível a dificuldade em encontrar as palavras. Dávamos um suspiro aliviado sempre que ele concluía um raciocínio sem perder o fio da meada. Já Lula está saudável e mentalmente ágil. Graças aos avanços médicos e de estilo de vida, idades que antes remetiam à casa de repouso hoje vão se tornando cada vez mais compatíveis com vida profissional ativa. Oitenta é só um número.

Além disso, embora Biden fosse um quadro histórico do Partido Democrata -senador de muitos mandatos, depois vice de Obama-, ele nunca foi um rei de popularidade nacional. Já Lula é um dos maiores fenômenos políticos da história do Brasil, um nome que, por si só, atrai adesão e rejeição em massa.

Por isso, e por ter bloqueado o surgimento de sucessores, é difícil imaginar qualquer outro nome da esquerda alcançando um resultado melhor do que Lula numa eleição nacional. Lula ainda tem eleitores -especialmente nas camadas mais pobres- que depositam na pessoa dele suas esperanças e sua gratidão. Quem mais faria o povo sair de casa no domingo de votação?

Assim, a decisão de não concorrer à reeleição teve nos EUA significado oposto do que teria aqui. A saída de Biden da corrida permitiu que os democratas voltassem ao jogo em vez de perder por WO. Uma eventual saída de Lula seria jogar a toalha para poupar sua biografia de uma derrota final, aceitando que a direita vencerá a eleição.

A corrida promete ser disputada. Assim como em 2022, é possível que não tenhamos ideia do vencedor até a apuração do segundo turno. (Não quero aqui cravar que serão Lula e Flávio no segundo turno, negando a chance dos demais; mas digamos que é o cenário mais provável.) Muita coisa ainda pode acontecer: Flávio desinflar, Trump bagunçar tudo, o povo mudar de humor. Se, contudo, nada mudar, Lula terá um dilema em mãos: poupar a própria biografia ou correr o risco da derrota para, quem sabe, triunfar.

Folha de S.Paulo
https://www1.folha.uol.com.br/colunas/joel-pinheiro-da-fonseca/2026/05/lula-vai-renunciar-a-candidatura.shtml