Flávio Bolsonaro em reunião de obreiros da Assembleia de Deus - Belém - Foto: Reprodução |
Direita puxa fila para desgastar Flávio Bolsonaro

Direita puxa fila para desgastar Flávio Bolsonaro

Candidato do PL enfrenta mais questionamentos dentro do seu campo ideológico que aqueles vindos de Lula ou do PT


Por Vera Magalhães

Enquanto o governo e o PT catam cavaco quanto ao momento para começar a confrontar Flávio Bolsonaro, partem da direita as maiores dores de cabeça para o projeto de franquia familiar empreendido por Jair Bolsonaro a partir da Papudinha. Pelo menos duas pré-candidaturas questionam a escolha do filho Zero Um para suceder ao pai inelegível: Ronaldo Caiado, que tenta abocanhar votos daqueles que acham Flávio radical demais, e Renan Santos, que ataca o flanco oposto do senador, falando àquela fatia do eleitorado que se identifica com o discurso antissistema.

Até aqui, as pesquisas mostram pouco espaço para o crescimento de nomes que tentam evitar que já se imponha no primeiro turno a polarização estabelecida em 2018 e repetida em 2022, entre lulopetismo e bolsonarismo.

Mas a entrada em cena desses nomes disputando a atenção dos eleitores que rejeitam Lula obriga os filhos de Jair a gastar tempo em debates estridentes via redes sociais e a combater acusações pesadas de corrupção, rachadinha e conluio com escândalos como o do Banco Master - tudo aquilo que a esquerda ameaça fazer, mas ainda não conseguiu entabular na forma de uma estratégia de comunicação minimamente coesa.

Uma das maiores preocupações dos apoiadores de Flávio é estabelecer uma trégua com setores das igrejas evangélicas que também andaram meio atritados com o clã, por discordar da condução do ex-presidente e da escolha do filho como sucessor. Dirigentes do PL se preocupam com a guerra nada velada entre os filhos de Bolsonaro e a ex-primeira-dama Michelle, que tem muito mais ascendência sobre lideranças evangélicas do que os enteados que a desautorizam publicamente a cada oportunidade.

Outro foco de atenção é o agronegócio, setor fundamental para a estruturação dos palanques bolsonaristas no Centro-Oeste e no Sul, principalmente, mas também em estados cruciais, como São Paulo e Minas Gerais. Caso o PSD leve até o fim a disposição de lançar o ex-governador de Goiás, Ronaldo Caiado, existe a chance de que ele seja visto como opção mais sólida por expoentes importantes desse segmento econômico. Isso poderia abalar a credibilidade do candidato do PL e dividir votos que, até aqui, são creditados a ele nas pesquisas.

Também pesa sobre os ombros de Flávio a atuação do irmão Eduardo, que desertou para os Estados Unidos e, de lá, não consegue passar um dia sem criar confusão. A última quase custou ao pai a prisão domiciliar provisória que obteve pelo agravamento do seu quadro de saúde.

Cobrado pelas trapalhadas que continua a promover, Eduardo já não esconde a amargura pelo fato de, com seus gestos tresloucados, ter deixado a candidatura presidencial escorrer pelos dedos e cair no colo do irmão. Passou a dizer nas redes sociais que, em uma família, sempre existe um que se "sacrifica" pelo todo.

Todas essas arestas e todos os questionamentos, tanto pela direita mais institucional quanto pela extrema direita que tenta mimetizar Javier Milei, só mostram as fragilidades de Flávio, que o PT e a esquerda não parecem saber como confrontar.

O esfacelamento do bolsonarismo em seu estado de origem, o Rio de Janeiro - com denúncias que vão do uso da máquina em campanhas ao envolvimento explícito com o crime organizado, passando por negócios com o Master no Rioprevidência -, passa ao largo dos discursos de Lula e de seus aliados no Congresso.

A entrada na disputa de nomes de direita que precisam primeiro fustigar o filho de Bolsonaro para ter alguma esperança de tirá-lo do segundo turno não deixa de ser um alento para Lula no momento em que ele parece sem repertório, time e tática para sair das cordas onde está desde o início do ano. Só que a terceirização da disputa política tem alcance e prazo limitados.

O Globo
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