- Defesa diz que empresário nunca foi sócio da instituição e apenas manteve relações comerciais legítimas como cliente
- De acordo com documentos, emprésario investiu pelo menos R$ 1,6 bilhão na instituição de Daniel Vorcaro desde 2020
Cristiane Lucchesi
Rachel Gamarski
Matheus Piovesana
Durante anos, Nelson Tanure foi um titã dos negócios brasileiros. Ele investiu em mais de 200 empresas em dificuldades financeiras e construiu gigantes corporativos em diversos setores, do petróleo às telecomunicações.
Agora, enquanto investigadores apuram se ele era um sócio oculto do Banco Master, o império de Tanure está se desfazendo: as autoridades congelaram alguns de seus bens; um aperto de crédito obrigou o empresário a liquidar participação em seu maior negócio; e as ações de muitas de suas empresas caíram.
Tanure, de 74 anos, não é estranho a controvérsias. Ele já enfrentou acionistas minoritários na Justiça e foi multado por violações das normas do mercado de capitais.
Mas o escândalo do Banco Master arrastou Tanure para o que está se tornando rapidamente um dos maiores casos de corrupção da história do Brasil. Sob escrutínio está uma série de transações financeiras que parecem envolvê-lo com o banco e seu dono, Daniel Vorcaro, preso em Brasília.
"Há anos existem questionamentos sobre a dimensão e a origem do seu apoio financeiro", disse Cesar Fernandez, sócio da Alpha Credit Advisors, referindo-se a Tanure. "O que está emergindo da investigação sugere um ecossistema complexo e circular de fundos ligados ao Banco Master, que parece ter sustentado muitas de suas posições corporativas."
De acordo com documentos vistos pela Bloomberg, Tanure investiu pelo menos R$ 1,6 bilhão no Banco Master desde 2020, utilizando seus veículos de investimento, incluindo o Estocolmo e uma empresa offshore chamada Aventti Strategic Partners LLP.
Esses veículos foram usados para comprar títulos locais de dívida da Banvox, uma holding cujo único investimento era o Banco Master. As aquisições das debêntures foram rapidamente seguidas por aumentos de capital de valores semelhantes no Banco Master.
Embora os títulos não fossem conversíveis em ações, desde dezembro de 2022 alguns deles passaram a ser elegíveis para o pagamento de cupons utilizando ações da Banvox. Embora não esteja claro se esses pagamentos em ações chegaram a ser feitos, recebê-los significaria que Tanure teria se tornado acionista da instituição financeira.
Tanure nunca foi sócio, controlador ou beneficiário, direto ou indireto do Banco Master, tendo mantido com a instituição apenas relações comerciais legítimas, como cliente, disse um representante de Tanure, acrescentando que as debêntures emitidas pelo Banvox não permitiam a conversão em ações ou participação societária em caso de inadimplência. Tanure está confiante de que os fatos serão esclarecidos pelas investigações em andamento, disse o representante.
Discreto e introvertido
Foi por volta de 2020 que Tanure conheceu Vorcaro, por meio de Mauricio Quadrado, um ex-sócio do Banco Master, segundo pessoas familiarizadas com o assunto.Os dois se aproximaram apesar de terem estilos de vida muito diferentes. Tanure se descreve como "introvertido" e "solitário" e raramente concede entrevistas, preferindo tragédias shakespearianas e música clássica a festas e holofotes, de acordo com uma conversa em um podcast com um gestor de fundos em 2024. Ele é conhecido por se vestir com roupas discretas, e disse no mesmo podcast que se orgulhava de seus quatro filhos sempre viajarem de classe econômica.
Enquanto isso, Vorcaro, de 42 anos, possui seu próprio jato particular e exibia sua riqueza publicamente com frequência -dando uma festa em um iate no Grande Prêmio de Mônaco e uma festa de aniversário de 15 anos para sua filha que teria custado quase US$ 3 milhões. Ele namorou a influenciadora Martha Graeff e aparecia frequentemente em suas postagens em locais luxuosos. Eles fizeram uma festa de noivado cara em Roma, mas se separaram recentemente.
Seu gosto por produtos caros se estendia aos presentes para seus amigos. De acordo com mensagens do WhatsApp divulgadas pela Polícia Federal, Vorcaro comprou para Tanure um relógio da marca suíça Jaeger-LeCoultre. As mensagens também revelaram um apelido que Vorcaro usava para o amigo: "grande comandante".
Tanure confirmou, por meio de um representante, que recebeu um relógio de Vorcaro como presente de aniversário de 70 anos, em 2021.
Vorcaro foi preso pela segunda vez no início de março, sob a acusação de ameaçar agredir o jornalista Lauro Jardim, supervisionar funcionários que obtiveram acesso não autorizado a sistemas do FBI e da Interpol e interferir em investigações em andamento sobre o escândalo do Banco Master. Vorcaro disse, por meio de seus advogados, que não iria comentar. Na semana passada, ele firmou um acordo de cooperação com as autoridades federais, informou a Bloomberg.
TRANSAÇÕES COM CDBS
Muitas das transações que estão sendo investigadas pelos reguladores ocorreram nos últimos dois anos, à medida que os negócios de Tanure e do Banco Master parecem ter se tornado cada vez mais interligados.Um exemplo é a rede de supermercados Dia, adquirida por Tanure durante o processo de recuperação judicial em 2024, utilizando fundos administrados pelo Banco Master. Em dezembro de 2025, o Dia informou ter utilizado cerca de 70% de seu caixa -aproximadamente R$ 163,3 milhões na época- para comprar títulos do Letsbank, banco parte do conglomerado do Master, segundo documentos.
A empresa de energia Emae (Empresa Metropolitana de Águas e Energia), da qual a Tanure era acionista na época, também comprou R$ 140 milhões em títulos do Banco Master, o equivalente a 5,88% do total de seus ativos em novembro de 2025, segundo informações da própria empresa.
Um representante de Tanure disse que, durante o período em que Tanure era cliente do Banco Master, não havia qualquer indicativo de irregularidade nas atividades desempenhadas pela instituição. Desse modo, a aquisição de CDBs pelas companhias "seguiu o mesmo padrão adotado por diversas outras empresas, uma vez que os títulos emitidos pelo banco naquele período apresentavam boa rentabilidade," disse o representante.
A área técnica da CVM (Comissão de Valores Mobiliários) afirmou que houve uma ação "interdependente e coordenada" entre Tanure, o Banco Master e o presidente da Ambipar para comprar ações da empresa de gestão de resíduos e impulsionar seu preço em 2024, de acordo com um relatório do órgão regulador. Os três negaram qualquer irregularidade.
A ação contribuiu para aumentar o valor da participação do Banco Master na empresa, disse a CVM, enquanto Tanure utilizou as ações da Ambipar como garantia em um pacote de dívida para financiar a aquisição da Emae.
O representante de Tanure disse que ele comprou as ações da Ambipar após os eventos investigados pela CVM, acrescentando que esse foi o motivo de sua exclusão do processo de aquisição pela própria CVM. A Comissão de Valores Mobiliários acabou não tomando nenhuma medida contra ele.
Tanure e o presidente da Ambipar, Tercio Borlenghi Júnior, perderam o controle da Emae quando a dívida não foi paga. A Ambipar entrou com pedido de recuperação judicial em outubro, e credores, incluindo o Banco Bradesco, entraram com uma ação judicial para responsabilizar a administração da empresa pelo que classificou como uma possível fraude "ostensiva".
O Banco Master e Tanure também utilizaram serviços e fundos de investimento da gestora de ativos Trustee DTVM, que pertence a Quadrado. Os fundos administrados pela Trustee estão sendo investigados pela Polícia Federal como parte de uma operação conjunta em vários estados para desmantelar esquemas criminosos de lavagem de dinheiro ligados à distribuição de combustíveis.
Os advogados de Tanure disseram que o empresário não pode responder por operações de qualquer banco, corretora ou gestora da qual era cliente.
ASSUMINDO RISCOS
Ao longo de um período de dois anos, a partir de 2021, Tanure utilizou fundos administrados pela Trustee para assumir o controle da Alliança Saúde, tendo a corretora do Banco Master como sua representante em um leilão na B3.Em 2023, Tanure pagou R$ 891 milhões para adquirir o restante da empresa. Em dezembro, a CVM reabriu um inquérito sobre a aquisição, apurando os motivos da demora de mais de 30 dias para o início do processo.
Na semana passada, a Alliança Saúde obteve uma medida cautelar de proteção contra credores, em meio a dificuldades para honrar seus compromissos financeiros.
O representante de Tanure disse que a oferta pública de aquisição sempre fez parte do plano de compra da Alliança e foi realizada com os recursos disponíveis.
"Eu tomei riscos, e essa capacidade de tomar riscos é muito importante e deve ser mais desenvolvida," disse, em entrevista ao podcast em 2024, quando comentou sobre seus empreendimentos. "É o risco que gera riqueza".
Na mesma conversa, Tanure afirmou que foi motivado a investir em empresas em dificuldade financeira devido a sua "completa falta de dinheiro".
"Se eu tivesse dinheiro," disse ele, "teria comprado ações de empresas como Alphabet e Microsoft."
"Eu não tinha nem um tostão", disse. "Eu tinha que procurar negócios onde a minha capacidade de trabalho, de produzir, seja trabalho físico ou mental, fizesse a diferença."
Tanure nasceu na Bahia e se formou em administração de empresas em meados da década de 1970 por uma universidade pública do estado. Estudou por um tempo em Paris e depois começou a trabalhar na imobiliária do pai.
Ele disse que ele se frustrou com as poucas oportunidades na Bahia, mudou-se para o Rio de Janeiro em 1977 e começou a investir em empresas muito endividadas. Um de seus primeiros investimentos foi uma participação minoritária na Sequip, empresa de serviços de petróleo e gás.
Ao longo da década de 1990, Tanure investiu em empresas de engenharia, do setor marítimo e de estaleiros, incluindo a Verolme e a Ishibras. Em 2001, adquiriu a operadora portuária Companhia Docas do Rio de Janeiro, que transformou em uma de suas holdings mais famosas, a Docas Investimentos.
Após algumas incursões menores no setor de telecomunicações, Tanure ganhou destaque ao tentar comprar a Oi, que em 2016 enfrentava um dos maiores processos de recuperação judicial da história do país. Ele comprou o Jornal do Brasil e Gazeta Mercantil, mas disse que nunca conseguiu tornar esses jornais lucrativos e decidiu fechar os dois pouco tempo depois.
Ele também investiu no setor imobiliário, ingressando no conselho da Gafisa em 2019, e ajudou a transformar a Prio em uma das maiores petrolíferas do Brasil.
Tanure também adquiriu uma participação na Light, utilizando fundos administrados pela Trustee. O Banco Master também comprou ações da Light, que foram vendidas ao BTG Pactual quando a instituição financeira buscava levantar capital em 2025.
Nem todas as suas ambiciosas investidas em empresas em dificuldades financeiras terminaram em negócio. Em 2023, ele perdeu para um outro investidor brasileiro a disputa pela aquisição das operações da UnitedHealth no Brasil. No ano seguinte, ele tentou, mas desistiu dos planos de investir na Sabesp.
E no ano passado Tanure planejou comprar o controle de uma das maiores empresas petroquímicas do mundo, a Braskem. Seu envolvimento preocupou os investidores, que temiam que ele pressionasse pela reestruturação da dívida. Tanure abandonou o plano devido ao possível impacto de um desastre em Alagoas no balanço patrimonial da empresa, segundo seu representante.
Quando tentou comprar o Grupo Pão de Açúcar em 2024, Tanure usou fundos da Reag Trust Administração de Recursos. A gestão desses fundos foi transferida para a Trustee em janeiro de 2025. A Reag também está sendo investigada pelas autoridades brasileiras por uma possível implicação em um esquema de lavagem de dinheiro.
O advogado de Tanure disse que ele nunca foi cliente da Reag.
DIFICULDADES FINANCEIRAS
No ano passado, a taxa Selic no maior patamar em quase duas décadas começou a pesar sobre o portfólio de empresas altamente alavancadas de Tanure e a série de empréstimos contraídos pelo empresário usando suas ações como garantia para a compra de outras.Mais recentemente, com o surgimento de problemas nas operações do Banco Master, Tanure enfrentou uma crise de crédito ainda maior.
Em fevereiro, os credores tomaram medidas para tomar parte das participações de Tanure na Alliança Saúde e na Light. Tanure já vendeu quase toda a sua participação na Prio -a petrolífera considerada a joia da coroa de seu império- e em sua empresa de telecomunicações, a Ligga Telecomunicações, para pagar os credores.
Tanure ainda busca bons negócios e está comprometido com o crescimento das empresas em que investiu, disse seu representante.
Folha de S.Paulo
https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2026/04/imperio-de-nelson-tanure-desmorona-em-meio-as-ligacoes-com-banco-master.shtml





