Em vídeo, Amanda Ungaro afirma que viu menores no colo do financista e que, durante o mesmo voo, um agente de modelos tentou colocar drogas na sua bolsa
Por Natasha Ribeiro Especial para O GLOBO
Amanda Ungaro tinha 17 anos quando embarcou de Paris a Nova York no avião particular de Jeffrey Epstein, o Lolita Express. Era junho de 2002, e os crimes sexuais do financista - encontrado morto na prisão em 2019 enquanto aguardava julgamento por tráfico sexual - ainda não tinham vindo a público, o que só aconteceria com as primeiras denúncias, em 2005. Em entrevista ao GLOBO, a ex-modelo conta o que viu no avião, cenas que ilustram a vulnerabilidade de meninas muito jovens, muitas delas entre 14 e 16 anos.
- Tinha mais ou menos umas 30 meninas no avião. Achei aquilo muito estranho - conta Amanda. - Elas eram mais parecidas com estudantes do que com modelos. Bonitas e bem novinhas, mas não tinham perfil de modelo.
Amanda, hoje com 41 anos, concedeu entrevista ao GLOBO após chegar ao Brasil deportada dos EUA , onde viveu de 2002 a 2025. Paranaense de Londrina, ela acusa o pai de seu filho, o empresário italiano Paolo Zampolli, de usar sua influência nos bastidores de Washington para conseguir que ela fosse presa pela polícia de imigração americana, o ICE, em meio a uma disputa pela guarda do filho dos dois, um adolescente de 15 anos.
Zampolli, com quem Amanda viveu por 19 anos, tem atualmente o cargo de Enviado Especial do Presidente dos EUA para Parcerias Globais e é amigo de Donald Trump. Seu nome aparece dezenas de vezes nos arquivos do caso Epstein divulgados pelo Departamento de Justiça dos EUA. Zampolli era dono da ID Models, agência de modelos frequentemente visitada por Epstein em Nova York, e os dois tentaram comprar a Elite Models, a maior do mundo no setor, em 2004.
'Deixa eu te apresentar o Jeffrey Epstein'
Amanda embarcou no avião de Epstein ao lado de seu então agente, o francês Jean-Luc Brunel. Ela tinha acabado de trocar de representação na França, deixando a agência de modelos americana Ford Models para assinar com a parisiense Karin Models. Brunel foi quem a levou ao avião de Epstein, dizendo que viajariam em um jato particular, a convite de um amigo e de sua esposa. Em Nova York, destino final da viagem, Amanda participaria de seu primeiro casting em solo americano.
- Eu fiquei meio assustada quando vi todas aquelas meninas. Eu fiquei "gente, onde que eu tô?'' - lembra Amanda, sobre o momento em que deu de cara com tantas menores de idade no avião.
O desconforto da brasileira não passou despercebido. Brunel - que segundo arquivos divulgados pelo Departamento de Justiça dos EUA, atuava como olheiro de Epstein no Brasil - tentou minimizar a situação e conduziu Amanda até o dono da aeronave. "Deixa eu te apresentar o Jeffrey Epstein", disse ele.
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Documento indica que o nome de Amanda Ungaro aparece na lista de passageiros do Lolita Express. A imagem mostra dezenas de nomes no voo de 27 de junho de 2002, entre Paris e Nova York, incluindo o do próprio Jeffrey Epstein ("JE"), de Ghislaine Maxwell ("GM") e de Brunel - Foto: Departamento de Justiça dos EUA
Ao ser apresentado por Brunel a Amanda em seu avião, Epstein se aproximou sem cerimônias e perguntou à brasileira sua idade e de onde era. Logo depois foi a vez de Ghislaine Maxwell, então namorada e parceira de longa data do financista americano. Ao saber que Amanda era brasileira, Maxwell, atualmente cumprindo pena de 20 anos de prisão no Texas por cinco acusações, incluindo tráfico sexual e conspiração, reagiu com entusiasmo: "Ah, que legal que você é do Brasil!".
Amanda diz ter permanecido isolada durante o voo, sem interagir com as outras passageiras. Ainda assim, notou que muitas delas pareciam se conhecer e ter intimidade com Epstein.
- Algumas sentavam no colo dele, ficavam perto, brincando - lembra, acrescentando que Maxwell também parecia muito à vontade. - Dava a impressão de que ela já conhecia aquelas meninas. Não parecia um encontro casual. Aquelas pessoas não tinham acabado de se conhecer, como era o meu caso.
Em determinado momento, Amanda conta, Epstein e Maxwell foram para o fundo do avião acompanhados de algumas das jovens ("Apenas algumas, porque eram muitas", diz). Ela não os veria novamente até o fim da viagem.
O desconforto, Amanda relembra, persistiu. Ela diz que então questionou Brunel sobre quem eram aquelas meninas e quem era o homem que havia se apresentado como o dono do jatinho.
- Ele disse que era apenas um amigo e que elas eram modelos - conta Amanda, que recorda que a resposta de Brunel não a convenceu. - Eu tinha só 17 anos e era tímida. Se fosse hoje, questionaria tudo. Mas, naquela época, não questionei muito. Até porque nem sabia quem era Jeffrey Epstein. Não sabia nada.
Drogas a bordo
Quando o avião de Epstein pousou nos Estados Unidos, Amanda Ungaro e Jean-Luc Brunel estavam entre os primeiros a desembarcar. Antes disso, porém, ela relata ter passado por mais um episódio desagradável no avião.Modelo e agente estavam sentados frente a frente em sofás, separados por uma pequena mesa redonda, quando Brunel lançou em direção a Amanda uma bolinha. Na verdade, era um pacote embrulhado em papel transparente, cujo conteúdo não era visível. "Coloca dentro da sua bolsa", Brunel teria dito.
Amanda conta que olhou para o objeto e questionou do que se tratava. Brunel insistiu para que a "bolinha" fosse guardada na bolsa. Diante de nova recusa, o francês mais uma vez arremessou o embrulho na direção da modelo. A insistência e a irritação de Brunel fizeram Amanda entender o que era o objeto que o agente tanto queria guardar em sua bolsa.
- Ali, na hora, eu já percebi mais ou menos que era droga. E falei: "De jeito nenhum, na minha bolsa não" - diz Amanda, recordando que Brunel terminou por guardar ele mesmo a bolinha.
- O que eu mais queria era sair daquele avião. Não estava me sentindo à vontade. Sabia que tinha alguma coisa errada, mas não sabia exatamente o quê. Isso (as acusações de pedofilia contra Jeffrey Epstein) nem passava pela minha cabeça naquela época.
Os crimes de Epstein
Durante anos, Jeffrey Epstein foi visto como um gestor de fortunas que atendia bilionários e circulava entre políticos e celebridades da elite americana. Essa imagem começou a ruir em 2006, quando ele foi formalmente acusado de abusar sexualmente de menores em Palm Beach, na Flórida. Apesar de múltiplas denúncias, acabou indiciado apenas por solicitação de prostituição após decisão do promotor Barry Krischer, o que gerou críticas no estado e levou o FBI a abrir uma investigação federal.Do final dos anos 1980 ao início dos anos 2000, Epstein era frequentemente visto ao lado do então empresário Donald Trump, que em 2002 o descreveu como "um sujeito fantástico" e disse que ambos compartilhavam o gosto por "mulheres bonitas - e muitas delas bem jovens".
O Globo
https://oglobo.globo.com/mundo/noticia/2026/03/25/tinha-umas-30-meninas-bonitas-e-bem-novinhas-brasileira-conta-o-que-viu-durante-voo-no-aviao-de-jeffrey-epstein.ghtml





