Mauricio Moura, presidente do Instituto Ideia | Imagem: Divulgação
Pestana e a parábola da existência masculina, por Mauricio Moura

Pestana e a parábola da existência masculina, por Mauricio Moura

O lendário escritor brasileiro Machado de Assis foi o autor de um conto batizado de "Um Homem Célebre". O texto foi inicialmente publicado no periódico "A Estação", em 1883, e em seguida foi parte do livro "Várias Histórias".

A publicação, tipicamente machadiana, aborda o tema da incompatibilidade entre os ideais e a realidade, transformando-se em uma quase parábola da existência humana. A obra apresenta a luta entre a vocação e a ambição através dos dramas de um particular homem brasileiro.

Pestana é um bem-sucedido compositor de polcas, ritmo popular e dançante que teve seu ápice na segunda metade do século XIX, mas que sonha com a glória de compor obras clássicas e vive atormentado pela falta de inspiração para tal. Constantemente descontente pelo reconhecimento público da capacidade indesejada, vive frustrado por não poder se comparar a seus ídolos.

Os dilemas pessoais de Pestana, seus valores e sua maneira de perceber o entorno parecem deveras tão atuais que me pergunto se Machado de Assis tinha o poder de viajar ao futuro ou se o homem brasileiro parou no tempo. E foi com a ambição de conhecer melhor os "Pestana" do século XXI que o Ideia e a GQ Brasil se uniram para realizar uma pesquisa inédita com amostra nacional (com somente respondentes masculinos) sobre diversas dimensões do homem. Os resultados são machadianos e merecem nossa reflexão como sociedade.

Primeiro, a pesquisa escancara o óbvio (nenhuma novidade para as mulheres) com dados inéditos: o brasileiro (médio) é machista. Para começar, somente um terço dos homens diz apoiar o feminismo, contra 44% que abertamente responderam não apoiar (isso sem falar dos 23% que preferiram não responder).

Mais assustador foi descobrir que 43% apenas escutam comentários machistas (sem se incomodar e muito menos contestar). Somente 19% dizem contestar comentários machistas (21% dizem se incomodar, mas não contestam). Assumindo (segundo a pesquisa) que 85% torcem para algum time de futebol, já é possível concluir que é bem mais provável um macho brasileiro defender seu time do coração do que defender uma mulher de um comentário machista.

Nesse contexto, não surpreende o fato de 58% acharem que aborto deveria ser considerado crime. Dialoga com uma máxima popular que prega: "Se os homens engravidassem, esse problema do aborto já estaria resolvido há muito tempo".

Segundo, ela mostra um brasileiro preso ao passado (um quase "Pestana"). Para aproximadamente 45% dos entrevistados, a virgindade feminina tem importância (para 12 pontos porcentuais é fundamental). Talvez essa seja uma equação amplamente disfuncional entre oferta e demanda (ainda bem!).

Do lado positivo (talvez), vale mencionar que os brasileiros acham mais importante a virgindade do que a posse de armas (somente 24% acham importante ter uma arma de fogo). Uma abordagem abrasileirada com testosterona do "faça amor (exclusivamente comigo), mas não faça a guerra com armas".

Terceiro, para os nossos "Pestana" pós-modernos, a referência principal contemporânea de "mulher de verdade" é a própria mãe. Afinal, 36% apontaram-na como a mulher que mais admiram. Dito isso, vale destacar que as mães ganham de goleada das esposas (36% contra 6% na disputa pela maior admiração feminina). Para os mais curiosos e sarcásticos, aviso que não perguntamos sobre as mulheres menos admiradas. A julgar pelos resultados coletados, sogras e ex-mulheres agradecem.

Ainda no quesito referência, os "pais" lideram o conceito "homem que mais admiram", mas perdem feio (também) para as mães, com 15 pontos porcentuais a menos quando comparados ao resultado materno. E, seguindo a linha clássica machadiana, cerca de metade dos respondentes (47%) se consideram "bonitos", contra somente 3% que se acham "feios". Além disso, quase 30% se consideram mais inteligentes do que a média das pessoas. Muito provavelmente, a fonte dessa avaliação são as próprias mães que tanto admiram.

Todavia, fica mais interessante. São 7% os homens que se autointitulam o "homem mais admirado". Sim, estes responderam espontaneamente "eu mesmo" como sendo ídolo máximo - uma versão macho alfa verde-amarela da cena da Branca de Neve em que a bruxa malvada pergunta ao espelho:

"Espelho, espelho meu, existe alguém mais bonito (e mais admirável) do que eu?".

Certamente esses quase 8 milhões de brasileiros que se autoidolatram não têm problema de autoestima, muito menos gastam dinheiro com terapia. Aliás, somente 16% dizem já ter feito alguma sessão. A saúde mental, portanto, carece de atenção nesse universo masculino.
Nesse contexto ainda, não são triviais as evidentes dificuldades cotidianas detectadas no levantamento.

Os pesquisados estão majoritariamente endividados (70%) e infelizes nas respectivas carreiras profissionais. São quase 60% os que afirmam estar profissionalmente abaixo da expectativa. Não é à toa, diante dos desprazeres profissionais e financeiros, que 83% sofreram algum tipo de estresse, 74% de ansiedade, 34% de depressão e 26% de pânico.

E, para piorar, são 44% que não praticam atividade física. Na perspectiva da busca pela saúde plena talvez esteja a maior batalha entre a ambição aspiracional e a dura realidade emocional.

Além disso, se tem algo que ainda mexe no âmago das emoções "machistas" brasileiras é a homossexualidade (alheia). Cerca de um quarto dos brasileiros teria dificuldade de lidar com um filho homossexual (21% preferiram não responder).

E passam para 31% os que nunca dividiriam um quarto com um homem de orientação sexual diferente. Para completar o quadro de flerte com a homofobia, são maioria (51%) os que evitam ao máximo parecer gay ao se vestir (não detalhamos o que isso significa na prática).

E isso lembrando ao leitor que perguntas sobre preconceito e racismo são usualmente subestimadas, porque sempre reside uma vergonha entre os entrevistados de plenamente expressar os reais sentimentos.

Para terminar, é o esporte que nos brinda com uma metáfora da realidade masculina atual. Para metade dos brasileiros, os ícones do esporte nacional são de um tempo longínquo (Pelé e Ayrton Senna). Não custa lembrar que Edson Arantes do Nascimento, o rei do futebol, se despediu da seleção brasileira em 1971 (faz 51 anos). Já o piloto Ayrton Senna tragicamente morreu em 1º de maio de 1994, durante a corrida de Ímola (28 anos atrás).

Ou seja, os heróis, referências, sonhos e aspirações habitam um passado distante. Já o presente é duro, estressante e cercado de frustrações. Não é sem razão que o ídolo esportivo da atualidade é o jogador de futebol Neymar Júnior. Para quem acompanha futebol, um poço de contradições temperado por momentos de vitórias, derrotas e inúmeras polêmicas.

Portanto, e parafraseando o conto "Um Homem Célebre", de Machado de Assis, enquanto a mente dos homens brasileiros sonha com as glórias de um passado de Pelé e Senna, a vida moderna somente permite admirar o Neymar. E cabe aos corações aflitos e estressados conviver com a frustração de se comparar com uma figura bem mais complexa que o personagem Pestana. Qual figura? "Eu mesmo".

Mauricio Moura*
*Doutor em economia e política, presidente do Ideia e professor da Universidade George Washington

GQ
https://gq.globo.com/Noticias/noticia/2022/05/pesquisa-escancara-o-obvio-o-brasileiro-medio-e-machista-diz-mauricio-moura.html


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