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Retorno iminente dos cassinos ao Brasil começa pelos jogos on line

Retorno iminente dos cassinos ao Brasil começa pelos jogos on line

Proibidos há décadas, os jogos encontraram uma brecha para voltar legalmente via corridas de cavalos, no final dos anos de 1980. Posteriormente, o desenvolvimento do ambiente digital e o futebol se encarregaram de disseminar a prática no País.

Já vai longe o tempo em que o ex-presidente Eurico Gaspar Dutra proibiu terminantemente a realização de jogos de azar no país. Influenciado não por alguma força política civil ou militar, mas pela mulher, Carmela Dutra, a "Dona Santinha", o marechal acabou, em 1946, com a jogatina que acontecia nos cassinos da Urca e Quitandinha (RJ), Mont Serrat (Santos) e La Plage (Guarujá), entre outros pontos famosos.

Por outro lado, nunca esteve tão perto a chance da atividade voltar à legalidade como na atual conjuntura política brasileira. O projeto de lei que traz de volta os jogos de azar, de autoria do ex-deputado Renato Viana (MDB-SC), tem quase três décadas de existência, e finalmente poderá ser apreciado assim que acabar o recesso parlamentar.

Se depender do presidente da Câmara Federal, Arthur Lira (PP-AL), o projeto terá andamento. Embora não seja abertamente favorável à legalização, pelos temores que o assunto causa junto à bancada evangélica que dá sustentação ao presidente Jair Bolsonaro no Congresso, o chefe da casa legislativa já deu sinais, por suas entrevistas, que não dificultará o andamento da pauta.

O relator do projeto, deputado Felipe Carreras (PSB-PE), reforça a questão de que é importante legalizar, fiscalizar e arrecadar com a atividade, que poderia render aos cofres federais cerca de R$ 20 a 25 bilhões/ano, recursos esses que seriam repassados em partes para os estados e municípios que abrigassem os cassinos.

O discurso, que agrada aos políticos, encontra guarida em dados do Instituto do Jogo Legal. A legalização da jogatina poderia formalizar pelo menos 450 mil empregos e criaria outros 200 mil. Com a expectativa de arrecadação de pelo menos R$ 20 bilhões por ano, além de R$ 7 bilhões com outorgas de cassinos, bingos e caça-níqueis. O movimento geral de apostas no Brasil gira em torno de R$ 71 bilhões por ano, e os jogos não regulados representam R$ 27 bilhões desse montante, informa o Instituto.

Enquanto aguardam essa possível regularização da atividade, empresas multinacionais usam das ferramentas disponíveis para reservar seus quinhões na indústria do jogo que, por enquanto, é virtual. Hoje, cerca de 450 sites do gênero atuam no Brasil. Os 10 maiores, segundo o Ibope Monitor, investiram quase US$ 12 milhões em publicidade no país no primeiro semestre de 2020. No mesmo período do ano passado, com a pandemia em curso e as pessoas trancadas em casa, essa cifra subiu para US$ 75,7 milhões, segundo apurou recente reportagem do jornal Valor.

Assim como as plataformas de streaming, as apostas on-line viraram um dos principais passatempos para muitas pessoas desde que o novo coronavírus se espalhou pelo planeta. Estima-se que o setor tenha crescido globalmente cerca de 40% entre 2019 e 2020. Em 2020, de acordo com a Grand View Research, movimentou US$ 59,6 bilhões, mundialmente. Com crescimento estimado de 10,1% a cada ano, em média, poderá chegar a US$ 127,3 bilhões em 2027.

Esses sites só conseguem atuar hoje no País porque foram autorizados por uma lei sancionada em 2018, pelo então presidente Michel Temer (MDB). Ficaram faltando as regras que licenciam a atividade, que, por força de lei, precisam ser definidas até outubro de 2022. É por isso que praticamente todas as empresas do segmento com operações voltadas para os brasileiros não estão formalmente situadas no Brasil, o que o ambiente virtual, por hora, se encarrega de permitir o andamento legal da atividade.

"Temos uma demanda nacional que é suprida por uma oferta internacional", afirma André Gelfi, CEO e sócio da Bettson no Brasil. "É muito fácil fazer uma aposta em sites de fora, quase todos com páginas em português. Só que com um mercado 'offshore', o Brasil deixa de tributar impostos, além de não fiscalizar o segmento".




André Gelfi, CEO e sócio da Bettson no Brasil - Divulgação

André Gelfi está à frente da única grande plataforma do ramo que dispõe de um CNPJ. "Não é segredo: se a Betsson está no país é porque, com a perspectiva do licenciamento, enxerga o mercado brasileiro como um dos mais pujantes do mundo." Segundo o executivo e outras fontes revelaram à reportagem publicada pelo Valor, as apostas esportivas já movimentam R$ 10 bilhões por ano no Brasil. "Nos anos seguintes à regulamentação, essa cifra deverá saltar para até R$ 100 bilhões por ano" acrescenta ele.

De origem sueca, a Betsson é dona de 20 marcas, de cassinos a sites de apostas. Desembarcou no Brasil em 2019 ao adquirir 75% do extinto site Suaposta, em 2016, do qual Gelfi foi um dos fundadores. E qual é o segredo para a plataforma nacional da Betsson ser o única a possuir um CNPJ local? É que o site começou a operar com corridas de cavalo ao vivo em 1988, aproveitando-se do fato de esse tipo de aposta ser então a única legalizada no Brasil, tirando as loterias oficiais. O Suaposta, então ligado à espanhola Codere, conectou seu negócio on line ao Jockey Club do Rio Grande do Sul - um operador oficial de corridas que possui carta-patente do Ministério da Agricultura.

No universo futebolístico, a Bettson patrocina hoje a seleção do Chile e o Íbis Sport Club, time de Pernambuco que é tido como o pior do mundo - ganhou fama por ficar 3 anos e 11 meses sem vencer nenhuma partida. Mas que agora causa uma reviravolta ao disputar a série principal do Campeonato Pernambucano. A empresa também já apoiou o Milan e a Internazionale, a Copa América e as eliminatórias da Copa do Mundo.

Assim como a Bettson, há hoje no País outros sites de porte que atuam atrelados ao futebol. A Betano, por exemplo, colhe os frutos de parceria com o campeão brasileiro, o Atlético Mineiro, estampando sua logomarca na frente da camisa do Galo e comemorando a audiência cada vez que Hulk e outros craques do time marcam seus gols.

Patrocinadora ainda do Fluminense e de clubes estrangeiros como Braga e Benfica, entre outros, a plataforma pertence a uma empresa de Malta, a Kaizen Gaming, hoje com sede administrativa em Atenas. Com operações em sete países - Grécia, Chipre, Romênia, Portugal, Alemanha, Chile e Brasil -, ela enxerga o mercado verde-amarelo como um dos mais promissores do mundo e espera cair no gosto do brasileiro se associando ao futebol.

Atualmente, 33 dos 40 principais clubes de futebol do país são patrocinados por sites como Bettson e Betano. Em setembro, o Botafogo passou a exibir em suas camisetas a logomarca do costa-riquenho EstrelaBet, que ainda apoia o Coritiba e o Vila Nova. No mês seguinte, o Vasco fechou com o PixBet. Registrada em Curaçao, no Caribe, essa plataforma também destina suas verbas de marketing para a Ponte Preta, Goiás, Avaí, América MG e Juventude.

Dos 20 times que jogaram a primeira divisão do Campeonato Brasileiro em 2021, 19 eram patrocinados por sites de apostas - a única exceção foi o Cuiabá. Apoiador de quatro clubes poderosos - São Paulo e Flamengo e os ingleses Arsenal e Southampton -, o Sportsbet.io, tem sede em Curaçao.

No ambiente on line, o limite para esses sites é o mundo. A Betsson desembarcou em junho de 2020, em Las Vegas, ao firmar um acordo com o Dostal Alley Casino, no Colorado. É o que lhe permitiu começar a lucrar com os lances on-line no país, tido como o mais promissor para os sites de apostas esportivas - o segundo é o Brasil. "Quando estados como Nova York e Flórida derem aval para elas, o segmento vai ultrapassar US$ 30 bilhões por ano", acredita André Gelfi.



Bob Chapek, presidente-executivo da Disney  - Divulgação

Mas atuar em território norte-americano sem despertar as atenções dos grandes conglomerados de entretenimento é tarefa quase impossível para forasteiros. Em setembro, como concluiu a reportagem do Valor, o presidente-executivo da Disney, Bob Chapek, disse a investidores em uma conferência que a companhia planeja ser "agressiva" em relação à atuação no mercado de apostas esportivas. "Digamos que nossos fãs estão realmente interessados em apostas esportivas. E digamos que nossos parceiros tenham interesse em apostas esportivas", afirmou Chapek. "Então, nós também estamos interessados."

É preciso destacar a vantagem e a força que Disney e outros parques temáticos, como a Universal, têm quando se trata de investimento e infra-estrutura em entretenimento. Próximo ao seu parque na Florida, a Disney mantém um complexo formado por hotéis da rede Dolphin & Swan e um 'boardwalk' cheio de atrações diurnas e noturnas, como o concorrido Bar da ESPN que transmite praticamente todas as modalidades esportivas como futebol americano, basquete, soccer, beisebol, tênis, boxe e turfe.

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