O presidente Luiz Inácio Lula da Silva conversa com presidente da Comissão Europeia, José Manuel Durão Barroso, durante abertura da 4ª Cúpula Brasil-União Europeia | Imagem: Wilson Dias/ABr
Com a eleição distante apenas nove meses, os holofotes se voltam para Lula

Com a eleição distante apenas nove meses, os holofotes se voltam para Lula

As atenções do mundo político têm-se voltado, nestas duas primeiras semanas do ano, para as eleições majoritárias de outubro e principalmente sobre a figura do seu principal player no momento: o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, líder absoluto em todas as pesquisas divulgadas até o final de 2021 e que também lidera, a ponto de ganhar no primeiro turno, a mais recente dessas avaliações, divulgada há apenas dois dias.

Nove meses até o primeiro turno pressupõem uma eternidade e atiçam a ansiedade dos candidatos, dos partidos e dos eleitores. É o que analisa, em artigo publicado nesta quinta-feira, dia 13, no jornal Valor, o cientista político Carlos Melo. Professor do Insper, ele avalia que a dinâmica política tem favorecido o candidato do PT: a adesão de Geraldo Alckmin, a estagnação de Sergio Moro, o ambiente kafkiano gerado por Jair Bolsonaro... Por outro lado, ele tem que lidar com conhecidos traços do PT: disputas internas, hegemonismo, esquerdismo atávico e o apego a antigos modelos de desenvolvimento tomam o centro do debate e despertam temores em agentes políticos e econômicos.

O petista se abrirá para projeto moderno e consensual?
É uma das perguntas que faz o autor do artigo. Para ele, vencer a eleição num ambiente de barbárie pode ser mais fácil que governar. As circunstâncias de 2023 diferenciam-se de 2003; distribuir recursos, lotear ministério em troca da governabilidade - em certa medida, inevitável - não bastará. Mais complexo será estabelecer diagnósticos plausíveis, construir pontes, negociar agenda clara, factível e moderna; ampliar apoios de natureza programática.

IPO News lembra, entretanto, que, em 2003, o então candidato Lula, certamente menos experiente do que hoje em dia, também teve que conviver e driblar um tipo de terrorismo vindo de setores produtivos e financeiros, que fizeram o dólar disparar e levaram algumas personalidades da sociedade brasileira a afirmar que "iriam embora" do País caso o ex-metalúrgico vencesse. Ele venceu, e elas não foram.
Para Carlos Mello, a disposição ao conflito, baseada em egos narcísicos de intelectuais e economistas, não é obstáculo de fácil superação. A começar pela questão fiscal. A boa política pública se faz com foco e zelo nos gastos; a segurança estimula a economia. O equilíbrio fiscal só faz sentido se voltado ao bem-estar social. As questões se complementam. Isso deveria ser consenso; infelizmente, não é.

José Manuel Durão Barroso, ex-primeiro-ministro de Portugal (2002 -2004) e presidente da União Europeia (2004-2014), em diálogo com o grupo "Derrubando Muros", alertou que consensos não surgem de dissensos: antes, é preciso partir do que, afinal, há de concordância. O resto se faz no processo; no limite, arbitra-se no voto, mas este não deve ser o ponto de largada. Singela clareza que tem faltado ao Brasil. Ocioso perguntar quem iniciou a desinteligência.

O consenso, porém, é possível, como se viu na experiência do próprio Durão Barroso e no posterior processo de Portugal, chamado "A Geringonça". E, recentemente, na coalizão alemã, entendida como um "semáforo" por reunir social-democratas (vermelhos), ambientalistas (verdes) e liberais (amarelos). O diagnóstico básico comum pariu um plano abrangente e moderno que busca manter a Alemanha democrática, na liderança europeia, apta aos desafios do século XXI, ao pós-pandemia e ao protagonismo chinês.

Acordos desse tipo demandam liderança política efetiva e capaz de unir, não dividir; somar, não subtrair; compreender a possibilidade de consenso, antes de estimular disputas aviltadas por interesses eleitorais paroquiais. Esse tipo de liderança se faz na disposição para ouvir e interpretar as causas dos problemas do presente, os desafios e o enorme potencial do futuro.

Lula está focado na construção de palanques com os aliados de sempre. À parte da conquista da vaga presidencial, busca conquistar ampla base política no próximo Congresso Nacional. Faz sentido, servirá para protegê-lo do oportunismo, mas não será suficiente para "aggionar" o país e superar a descrença e a desesperança dos últimos anos, responsáveis pelo maior êxodo populacional registrado na história do Brasil.

Eleito, um programa moderno e eficaz - que exceda o mero e, sim, necessário assistencialismo - será cobrado no dia seguinte. Os antigos vínculos, que de algum modo marcaram a trajetória política do petista - também baseados em elites patrimonialistas e corporativistas -, serão de pouca valia, alerta Carlos Mello. O tempo do governo lulista foi superado por um inóspito mundo em revolução, muito mais complexo e exigente. Novos interlocutores serão imprescindíveis.

O ex-presidente tem responsabilizado "as elites" por sua prisão e pela eleição de Jair Bolsonaro. Precisará superar ressentimentos desse tipo. Primeiro, porque não há "comitê central da burguesia", há elites múltiplas distribuídas em frações contraditórias entre si. Dentre elas, parcelas modernas com capacidade de elaboração de projetos inovadores e progressistas, articulados globalmente. Estão dispostas a dialogar e contribuir para um país democrático, social e economicamente inclusivo.

Superado o esquerdismo e a maldição patrimonialista, clientelista e corporativista, que desde sempre ronda os governos, seria possível instituir relações e métodos novos, baseados numa pauta moderna e plural, no contexto da defesa da democracia, com olhos para o futuro.

Na viagem a três países europeus em novembro, questionado sobre que fazer, o ex-presidente foi sintético e prático, como deve ser a comunicação política. Listou pontos de partida para uma pauta consensual: o combate à fome; a preservação do meio ambiente; a criação de empregos. A partir de um Estado democrático e republicano, com o envolvimento da sociedade, pode-se resgatar a paleta de cores do semáforo alemão.

Haverá vontade e liderança para isso? pergunta Carlos Melo? "Deixemos o pessimismo para dias melhores", é hora de conversar seriamente.

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