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Shoshana reabrirá em março com novos donos e chef, no Bom Retiro, SP

Shoshana reabrirá em março com novos donos e chef, no Bom Retiro, SP

Reduto tradicional da comunidade judaica e também frequentado por paulistanos e turistas que passeiam pelo antigo bairro do Bom Retiro, o restaurante Shoshana, também conhecido por Adi e Shoshi, vai reabrir suas portas em março, após passar por uma completa reforma.

Aberto pelo casal Adi e Shoshana Baruch em 1991, na rua Correia de Melo, o ponto se tornou uma referência da culinária judaica num bairro que é um símbolo da colônia, mas que hoje tem sua vida ditada mais pela colônia coreana, que dominou o comércio no tradicional bairro da zona central paulista.

Último clássico especializado em cozinha judaica a sobreviver no bairro, o espaço chegou a anunciar, via redes sociais, que fecharia as portas até o fim de 2020. A notícia gerou comoção e deu um novo respiro à casa, que divulgou que manteria a operação. No começo do ano passado, o negócio comunicou que recebera um investimento e que voltaria a abrir as portas. Mas não deu certo.

Esse vaivém chegou ao fim em julho de 2021, como registrou reportagem do jornal Folha de S. Paulo. Foi quando Benjamin Seroussi, diretor da Casa do Povo, pegou as chaves do imóvel. "Não estava nos meus planos comprar nenhum restaurante", conta ele. Mas ao ouvir que a família teria mesmo que fechar as portas, decidiu assumir o negócio.

"Eu achei que ia ser uma perda para o bairro se o restaurante fechasse", diz. "Não deixa de ser um patrimônio imaterial." Seroussi é diretor da Casa do Povo, centro cultural distante poucos metros do Shoshana, na rua Três Rios. Ele se uniu a dois amigos, Arthur Hirsch e Ines Mindlin Lafer, para pilotar a mobilização coletiva em prol da casa. "A gente se juntou para manter a história viva, mas também para tentar fazer algo um pouco diferente", explica.

Com isso, o trio de amigos abriu o capital para mais 20 sócios minoritários -até o momento 13 pessoas entraram na sociedade. A ideia é que o restaurante de perfil familiar seja agora um coletivo. "Assim, ele deixa de ser apenas uma empresa para virar um negócio com propósito."


Antes de fechar para reforma, o Shoshana Delishop promoveu um evento para apresentar
a nova fase para o público Shoshana Delishop - Camila Picolo/Divulgação

"Vamos pegar a tradição como ponto de partida, não de chegada", explica Benjamin Seroussi, que planeja oferecer ali uma culinária judaica diaspórica, com receitas do norte da África, do leste europeu e até da Índia, além de resgatar receitas dos outros restaurantes judaicos que deixaram de existir no bairro, como o Europa. Sempre sob a supervisão da própria Shoshana, que mantém a operação da Casa Búlgara, outro clássico do Bom Retiro, distante poucas quadras dali.

O projeto começou a ganhar formas mais concretas com a chegada do chef e pesquisador Fred Caffarena, do Firin Salonu e Make Hommus Not War. Apesar de não ter raízes judaicas, o cozinheiro é especializado na gastronomia do Oriente Médio.

"Eu não me sentiria confortável para assumir a casa se a proposta fosse oferecer somente comida de Israel. Acho que teriam pessoas mais simbólicas e melhores para exercer este papel. Mas isso da pesquisa tem muito a ver com o meu trabalho", conta Caffarena. "A gente fala que não é para criar um ambiente 'gourmetizado', supermoderno, mas trazer essa herança, essa história, deixar essa gastronomia só um pouquinho mais atualizada."

Apesar de estar fechada para reforma até março, a casa apresentou ao público um pouco da sua nova fase no último dia 28 de dezembro, em um evento batizado de Mishmash Shoshana, palavra que significa "mistureba" em ídiche -língua falada por judeus imigrantes da Europa Oriental.

No cardápio, Fred Caffarena apresentou releituras de clássicos judaicos como latkes e guefilte fish. O evento lotou com famílias do bairro, clientes antigos e gente de outros cantos da cidade. A fundadora da casa, Shoshana, não compareceu ao encontro porque Adi morreu no fim do ano. Mas seu filho Nir, que trabalhava como chef da casa até o espaço fechar as portas, esteve presente. "O restaurante é também uma homenagem ao Adi", diz Benjamin Seroussi.

"Achei que seria xingado por todas as matriarcas que estavam lá, mas elas não só adoraram, também entenderam a proposta", conta o chef Fred Caffarena. Mas eventuais reclamações vão fazer parte do roteiro, adianta Seroussi. "Em um lugar judaico, as pessoas têm que reclamar", brinca. "A gente espera ser o segundo melhor lugar para comer, atrás apenas da casa deles."

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