Imagem: Ricardo Stuckert/PR |
REVOLUÇÃO DEMOCRÁTICA, por José Dirceu

REVOLUÇÃO DEMOCRÁTICA, por José Dirceu

Ecoa a voz das urnas e das ruas

Por José Dirceu

A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva é, antes de tudo, uma vitória do povo brasileiro e pode ser compreendida como uma verdadeira revolução democrática pelo voto. Não uma revolução que rompa com as instituições, mas o contrário, uma mobilização capaz de usar a força das urnas para defender a democracia e abrir caminho para as transformações que o Brasil continua devendo ao seu povo.

Foi uma vitória construída na luta e na resistência, numa eleição em que esteve em disputa muito mais do que a Presidência da República, porque novamente se confrontaram projetos distintos para o Brasil, num cenário marcado pelo poder econômico da Faria Lima, pela atuação política das big techs, pela presença crescente do crime organizado, pelas pressões externas sobre decisões soberanas e por uma extrema-direita que mostrou conservar força eleitoral, social e parlamentar.

A virada do segundo turno oferece uma das principais lições desta eleição e precisa ser estudada pelo PT e por toda a esquerda. Nas últimas semanas, a campanha ganhou as ruas, as universidades, os locais de trabalho, os movimentos sociais e, sobretudo entre os jovens, passou a disputar com força as redes e as novas comunidades digitais, muitas vezes por iniciativas autônomas. Estudantes, artistas, produtores de conteúdo, coletivos, militantes, sindicatos e movimentos populares entenderam ser preciso conversar, convencer e recuperar uma dimensão fundamental da política, a participação dos cidadãos.

Essa mobilização foi decisiva, mas seria um erro atribuir a vitória apenas ao despertar da militância ou ao impulso das ruas. Vencemos porque se formou uma aliança social mais ampla, reunindo a esquerda e o campo progressista, mas também mulheres, jovens, aposentados, trabalhadores das periferias, classes médias urbanas, lideranças da sociedade civil e parcelas do empresariado que, apesar de suas diferenças com o PT ou com o governo Lula, compreenderam o risco representado pela outra alternativa diante do País.

É essa dimensão que não podemos perder de vista, porque muitos desses brasileiros não se tornaram petistas, não abandonaram suas divergências com o governo nem aderiram a todo o nosso programa, mas fizeram uma escolha democrática diante de uma ameaça maior do que as diferenças que nos separam. E os fatos posteriores à eleição demonstraram que essa percepção não era exagerada.

Derrotado nas urnas, Flávio Bolsonaro recusou inicialmente o resultado, anunciou que buscaria sua anulação, fugiu do Brasil para os Estados Unidos depois de afirmar que permaneceria no País e, já em território norte-americano, divulgou uma carta em cuja primeira versão chegou a se apresentar como "o verdadeiro presidente eleito do Brasil", acusando de fraude, sem provas, a eleição vencida por Lula. Depois retirou a expressão, mas manteve o essencial: disse que o Brasil vive sob um "regime de exceção", anunciou que liderará do exterior a oposição ao presidente eleito e prometeu mobilizar seus apoiadores contra aquilo que chama de consolidação de uma ditadura. Na prática, fez uma declaração de golpe.

Estamos, portanto, diante de algo muito mais grave do que a fuga de um candidato derrotado. Ao se instalar nos Estados Unidos, agradecer a Donald Trump, transformar sua situação jurídica numa causa política internacional e apresentar-se como representante legítimo de um país supostamente submetido a um governo ilegítimo, Flávio tenta produzir, do exterior, uma disputa de legitimidade com o governo eleito. Sua carta conclama a comunidade internacional a não tratar como normal a situação brasileira e anuncia que pretende liderar a oposição de fora do País. A gravidade aumenta porque o governo dos Estados Unidos não havia reconhecido o resultado brasileiro e Trump voltou a levantar, sem provas, suspeitas de fraude. Defender a soberania nacional significa impedir que uma disputa decidida pelos brasileiros seja transferida para Washington.

Isso não significa ignorar o poder que o bolsonarismo conservou nas urnas e sobretudo no Congresso, onde terá força e capacidade real de interferir na agenda do próximo governo. Mas uma coisa é reconhecer essa força política e eleitoral, outra é aceitar que ela permaneça submetida às conveniências de uma família. A fuga de Flávio e sua radicalização depois da derrota já produziram fissuras nesse campo. Enquanto a bancada do PL divulgou solidariedade ao ex-candidato, setores da direita passaram a discutir uma reorganização da oposição que não dependa dos Bolsonaro. A família mostrou mais uma vez a que veio. Caberá agora à direita brasileira decidir se quer construir uma oposição democrática ou continuar subordinada a uma estratégia que desconhece o resultado das urnas.

É exatamente por termos vencido uma eleição tão dividida, diante de uma oposição forte e com um Congresso majoritariamente conservador, que o quarto mandato de Lula exigirá uma visão política ainda mais ampla. E essa amplitude precisa começar pela própria formação do governo. A nova administração deve expressar a aliança democrática e social que se constituiu nas ruas e se confirmou nas urnas, reunindo a esquerda e o centro-esquerda, setores democráticos do centro, trabalhadores, classes médias, empresários e produtores comprometidos com o desenvolvimento nacional, movimentos sociais, sindicatos, governadores e prefeitos. Não se trata de diluir o programa eleito, mas de compreender que a frente que derrotou a extrema-direita precisa encontrar expressão institucional capaz de sustentar o governo e construir uma base política e parlamentar correspondente à amplitude daquela vitória.

É nesse sentido que defendo que o presidente Lula lidere um pacto político com todas as forças democráticas, políticas e sociais. Ele tem legitimidade e capacidade de liderança para isso. Nenhuma força isolada dispõe hoje da maioria parlamentar, social e política necessária para enfrentar os problemas históricos acumulados pelo País, razão pela qual só uma ampla maioria nacional poderá dar sustentação à revolução social e política de que o Brasil precisa. A tarefa de Lula será unir forças diferentes em torno de objetivos nacionais comuns, construir as maiorias indispensáveis às mudanças e preservar a mobilização social para realizá-las. Precisamos ampliar justamente para termos força suficiente para transformar.

Os brasileiros esperam que essa vitória produza resultados concretos em suas vidas. Salário, emprego, redução da jornada de trabalho, direitos trabalhistas, educação, saúde, moradia, segurança pública e combate às desigualdades precisam ocupar o centro do próximo período, porque a política precisa falar do preço da comida, da renda no fim do mês, do medo da violência e das perspectivas de trabalho dos filhos.

Ao mesmo tempo, nenhuma política social será sustentável se o Brasil não recuperar sua capacidade de crescer, investir e produzir, o que exige um projeto nacional de desenvolvimento baseado na reindustrialização, na infraestrutura, na ciência, na inovação, na transição energética e ambiental e numa política tecnológica à altura das mudanças na economia mundial. A soberania brasileira passa também pelo domínio da Inteligência Artificial, da infraestrutura de dados, dos semicondutores e das tecnologias estratégicas, áreas em que não podemos aceitar dependência permanente de empresas estrangeiras e plataformas que concentram poder econômico e político.

Para alcançar esses objetivos, a organização popular que marcou a reta final da eleição precisa continuar depois das urnas. Os movimentos sociais e os sindicatos terão de preservar suas autonomias e fortalecer suas presenças na sociedade, dialogar com jovens, trabalhadores de aplicativos, pequenos empreendedores, periferias e setores que já não encontram representação nas estruturas tradicionais. E o PT e os demais partidos de esquerda terão de renovar quadros, métodos, formas de comunicação e mecanismos de participação. O segundo turno reafirmou algo que sempre soubemos, as redes sociais são indispensáveis, mas nenhum instrumento substitui um partido vivo, sindicatos fortes, movimentos organizados, militância, trabalho de base e presença cotidiana junto à população. As reformas necessárias enfrentarão resistências e só avançarão se encontrarem uma sociedade mobilizada para sustentá-las.

Quero agradecer a todos os brasileiros e brasileiras que construíram essa vitória, particularmente à juventude, à classe trabalhadora, às mulheres, aos aposentados e idosos e àqueles que, mesmo não pertencendo ao nosso campo político, compreenderam a dimensão da escolha que o Brasil fazia. A eleição terminou e agora começa uma responsabilidade ainda maior: transformar esperança em organização, voto em participação política e vitória eleitoral em melhora concreta das condições de vida do povo brasileiro. Lula tem a oportunidade histórica de fazer de seu quarto mandato o começo de um novo ciclo de desenvolvimento, democracia, soberania e justiça social, reunindo uma ampla maioria nacional para realizar mudanças adiadas por tempo demais.

A história ensina que nenhuma conquista popular se sustenta sem mobilização e nenhuma transformação de longo alcance se realiza sem uma maioria capaz de sustentá-la. A revolução democrática realizada pelo voto e pela voz das ruas nos entregou as condições para iniciar uma nova etapa e a responsabilidade de defendê-la contra aqueles que se recusam a reconhecer a decisão soberana do povo brasileiro. Precisamos comemorar sem triunfalismo, compreender a força dos adversários, ampliar nossas alianças, organizar a sociedade e construir a correlação de forças que permita ao quarto governo Lula avançar. Agora precisamos transformar a maioria eleitoral que derrotou a extrema-direita numa maioria política e social capaz de mudar o Brasil. A luta continua.

José Dirceu - Ex-ministro e ex-deputado federal.


Carta Capital