Torres de transmissão de energia no Rio de Janeiro - Foto: Custodio Coimbra/Agência O Globo |
Consumidor paga custo das falhas de planejamento no setor elétrico

Consumidor paga custo das falhas de planejamento no setor elétrico

Energia solar e eólica é desperdiçada, leilões para evitar apagões saem caro, e país demora a investir em baterias


Por Editorial

O setor elétrico brasileiro tem pagado um preço cada vez mais alto por erros de planejamento. No fim de semana, pela primeira vez os cortes de geração de energia para evitar sobrecarga nas redes de transmissão atingiram unidades de pequeno porte, entre usinas solares, eólicas, de biomassa e pequenas centrais hidrelétricas. O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) determinou que 12 distribuidoras, nos estados da Bahia, Minas, São Paulo, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, reduzissem em 23,5% sua operação, porque o ONS não tem controle direto sobre essas fontes de menor porte.

Ao mesmo tempo que joga fora excesso de energia gerada em períodos de menor consumo - ação conhecida como curtailment -, o Brasil vive a situação paradoxal de se ver obrigado, para evitar apagões, a contratar uma reserva de energia firme, de fonte hídrica ou térmica, com que possa contar nos momentos de maior demanda ou escassez. Em março, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) divulgou parte do resultado desse leilão de capacidade, arrematada apenas por termelétricas, que deveriam ser acionadas já a partir de agosto. Ante um custo anual para o consumidor estimado em R$ 48 bilhões, o Ministério Público Federal entrou na Justiça e obteve a suspensão do leilão. A situação segue indefinida.

O Brasil é conhecido pela matriz energética com grande proporção de fontes renováveis de geração - 87% em 2025, segundo o último anuário da Empresa de Pesquisa Energética. Do total gerado, 51,2% vieram de fonte hidráulica, 11,3% de solar e 14,9% de eólica. Em apenas um ano (2025), a geração solar aumentou 25% e a eólica 8%. Como são gerações intermitentes, houve também necessidade de aumento na geração térmica, em especial gás natural (23%), para suprir a necessidade nos horários de escassez.

Essa deficiência intrínseca às fontes intermitentes levou à urgência no leilão de capacidade. Mas a energia produzida por solares e eólicas poderia também ser estocada em parques de baterias, como já fazem Estados Unidos, Austrália ou China. O Brasil está atrasado na instalação dessa infraestrutura imprescindível. Outra medida necessária é o corte nos elevados subsídios para as fontes de geração solar e eólica, que já prescindem deles. Tais recursos, além do alívio no bolso de quem paga conta de luz, poderiam também apoiar a instalação de parques de baterias para estocar o excesso de energia produzida.

De acordo com a Agência Internacional de Energia, no ano passado a capacidade mundial de armazenamento cresceu 40% ante 2024. Mesmo atrasado, o Brasil enfim anunciou os primeiros leilões para parques de baterias, marcados para o início de dezembro. A previsão é que estejam disponíveis em 2028. Se o planejamento do setor não houvesse falhado, a conta sairia bem mais barata para o consumidor. Espera-se que agora o país acerte o passo.

O Globo
https://oglobo.globo.com/opiniao/editorial/coluna/2026/06/consumidor-paga-custo-das-falhas-de-planejamento-no-setor-eletrico.ghtml