Vejo no uso inflado do vocábulo uma tentativa de amolecer a rigidez das hierarquias, aliviar o abismo das desigualdades
Michel Alcoforado
Ainda acho graça quando vejo gente grande, com uma longa ficha de pecados, creditar os rumos da própria vida ao Papai do Céu. É como se, as vésperas do fim do mundo, por afeto ou pena, Deus se sentisse obrigado a parar seus afazeres para resolver a infiltração do banheiro de Fulano, dar uma forcinha na carreira de Beltrano ou curar a dor de cotovelo de Sicrano.
Por um descuido ou uma forcinha do divino, fui convidado para participar da estreia do novo programa de Angélica no GNT. E mais, contei com sorte de dividir o camarim com Murilo Benício e seus dois filhos. Todos muito gentis comigo e com os jornalistas afoitos por alguma declaração do protagonista da novela da Globo "Três Graças".
Uma das perguntas me surpreendeu: "Como seus filhos te chamam?" O mais novo respondeu: "Coroa." O ator se justificou: "Pai é uma coisa que virou sinônimo de não sei o quê, né?" Pai virou muita coisa.
Murilo tem razão.
Na lista dos livros mais vendidos, no topo da disputa, "Café com Deus Pai" não cede espaço para a concorrência. Nas rádios, dos funks aos traps, qualquer figura ganha a alcunha de "pai". Eu mesmo, em um fim de semana no Rio, virei pai do garçom de um boteco do Leblon, fui um paizão para um camelô no calçadão e paiêêê de um motorista de aplicativo com a idade do meu avô.
Os psicanalistas diriam que onde há excesso, há falta.
Segundo o Portal da Transparência do Registro Civil, nos últimos cinco anos, mais de 800 mil bebês foram registrados sem o sobrenome paterno. O intenso debate sobre as transformações da família e nas parentalidades não teve força de arrefecer a média histórica. Há tempos, quase 7% dos recém-nascidos no país crescem chamando de pai aqueles com quem não têm nenhum vínculo biológico.
No entanto, a despeito do tamanho do problema, vejo no uso inflado do vocábulo uma outra faceta da realidade social brasileira. Trata-se da nossa aposta rotineira no equilíbrio dos contrários. Uma tentativa de amolecer a rigidez das hierarquias cotidianas, aliviar o abismo oferecido pelas desigualdades e construir pontes onde só há distâncias.
O pai/paizão é a versão contemporânea do "meu rei", do "chefia" para se referir às autoridades ou até mesmo do persistente hábito das crianças brasileiras de chamarem de "tia" as professoras da escola. Em todos os casos, o que se revela é que os atores sociais estão cientes das diferenças hierárquicas, sabem que ambos ocupam posições de poder distintas, mas se esforçam em criar uma percepção de que a troca é permeada por um certo ar de igualdade. O simulacro do afeto e de algum vínculo de parentesco cria vínculo, aproxima.
O pai é aquele que pela idade, pelo poder, pela responsabilidade de impor limites deveria sempre estar numa posição superior. Mas todos sabemos que, diante de um pedido amoroso de um filho, deixa as hierarquias de lado, cede e vira o submisso da relação.
Em tempo, um recado. Caro leitor, apesar das distâncias, sem saber quem é quem, como dizia Mr. Catra, aviso: o papai chegou.
O Globo
https://oglobo.globo.com/cultura/michel-alcoforado/coluna/2026/01/o-papai-chegou.ghtml
Michel Alcoforado
Ainda acho graça quando vejo gente grande, com uma longa ficha de pecados, creditar os rumos da própria vida ao Papai do Céu. É como se, as vésperas do fim do mundo, por afeto ou pena, Deus se sentisse obrigado a parar seus afazeres para resolver a infiltração do banheiro de Fulano, dar uma forcinha na carreira de Beltrano ou curar a dor de cotovelo de Sicrano.
Por um descuido ou uma forcinha do divino, fui convidado para participar da estreia do novo programa de Angélica no GNT. E mais, contei com sorte de dividir o camarim com Murilo Benício e seus dois filhos. Todos muito gentis comigo e com os jornalistas afoitos por alguma declaração do protagonista da novela da Globo "Três Graças".
Uma das perguntas me surpreendeu: "Como seus filhos te chamam?" O mais novo respondeu: "Coroa." O ator se justificou: "Pai é uma coisa que virou sinônimo de não sei o quê, né?" Pai virou muita coisa.
Murilo tem razão.
Na lista dos livros mais vendidos, no topo da disputa, "Café com Deus Pai" não cede espaço para a concorrência. Nas rádios, dos funks aos traps, qualquer figura ganha a alcunha de "pai". Eu mesmo, em um fim de semana no Rio, virei pai do garçom de um boteco do Leblon, fui um paizão para um camelô no calçadão e paiêêê de um motorista de aplicativo com a idade do meu avô.
Os psicanalistas diriam que onde há excesso, há falta.
Segundo o Portal da Transparência do Registro Civil, nos últimos cinco anos, mais de 800 mil bebês foram registrados sem o sobrenome paterno. O intenso debate sobre as transformações da família e nas parentalidades não teve força de arrefecer a média histórica. Há tempos, quase 7% dos recém-nascidos no país crescem chamando de pai aqueles com quem não têm nenhum vínculo biológico.
No entanto, a despeito do tamanho do problema, vejo no uso inflado do vocábulo uma outra faceta da realidade social brasileira. Trata-se da nossa aposta rotineira no equilíbrio dos contrários. Uma tentativa de amolecer a rigidez das hierarquias cotidianas, aliviar o abismo oferecido pelas desigualdades e construir pontes onde só há distâncias.
O pai/paizão é a versão contemporânea do "meu rei", do "chefia" para se referir às autoridades ou até mesmo do persistente hábito das crianças brasileiras de chamarem de "tia" as professoras da escola. Em todos os casos, o que se revela é que os atores sociais estão cientes das diferenças hierárquicas, sabem que ambos ocupam posições de poder distintas, mas se esforçam em criar uma percepção de que a troca é permeada por um certo ar de igualdade. O simulacro do afeto e de algum vínculo de parentesco cria vínculo, aproxima.
O pai é aquele que pela idade, pelo poder, pela responsabilidade de impor limites deveria sempre estar numa posição superior. Mas todos sabemos que, diante de um pedido amoroso de um filho, deixa as hierarquias de lado, cede e vira o submisso da relação.
Em tempo, um recado. Caro leitor, apesar das distâncias, sem saber quem é quem, como dizia Mr. Catra, aviso: o papai chegou.
O Globo
https://oglobo.globo.com/cultura/michel-alcoforado/coluna/2026/01/o-papai-chegou.ghtml





