Pedro Lopes e Danilo Lavieri
Relatórios de análise financeira do Coaf aos quais o UOL teve acesso mostram que o presidente do São Paulo, Julio Casares, recebeu R$ 1,5 milhão em depósitos em dinheiro na sua conta corrente entre janeiro de 2023 e maio de 2025.
O valor corresponde, segundo os documentos, a quase metade -47%- da renda de Casares no período. É a maior fonte de renda do cartola durante os meses analisados.
O salário recebido por Casares no São Paulo correspondeu a apenas 19,3% de toda a movimentação na mesma conta - foram R$ 617 mil.
Os depósitos em dinheiro foram feitos em valores pequenos, de forma fracionada. Isso caracteriza uma prática chamada pelo Coaf de "smurfing", que é uma tentativa de burlar os mecanismos de controle.
Há registros de 12 depósitos em um único dia, e operações no valor de R$ 49 mil -o limite para que o Coaf seja notificado automaticamente é de R$ 50 mil.
Casares chegou a justificar os recebimentos ao seu banco como "recursos recebidos em espécie do SPFC referente bonificação dos campeonatos (sic)".
Os relatórios embasam a investigação que a Polícia Civil conduz sobre possíveis desvios de dinheiro no São Paulo.
Procurada pela reportagem, a Polícia apenas confirma a existência de uma investigação, mas não fornece nenhuma informação ou comentário sobre o seu conteúdo ou investigados. A própria instituição pediu segredo de Justiça no caso em três ocasiões.
A investigação aponta ainda que foram sacados do São Paulo, entre janeiro de 2021 e novembro de 2025, R$ 11 milhões em espécie, divididos em 35 saques.
Esse dado aparece em outro relatório também do Coaf, mas a investigação não aponta até agora qualquer correlação com os depósitos na conta de Casares.
O São Paulo afirma que apresentará a contabilidade integral dos R$ 11 milhões, e que eles não têm qualquer relação com depósitos investigados do presidente.
Os documentos ainda mostram que a conta de Casares era usada, de forma sistemática, para custear despesas de sua ex-mulher, e diretora licenciada do São Paulo, Mara Casares.

Foram pagos 104 boletos bancários emitidos no nome de Mara, que é investigada por se beneficiar de um suposto esquema de venda de camarote clandestino no clube.
Segundo o relatório, nos 29 meses analisados Casares teve uma renda de cerca de R$ 3,2 milhões, sendo R$ 2,6 milhões que excedem o salário do período -destes, a maior parte, R$ 1,5 milhão, composta pelos depósitos fracionados em dinheiro.
Procurado pelo UOL, Casares respondeu por meio de seus advogados Daniel Bialski e Bruno Borragine.
"Todas as movimentações financeiras de Julio contidas nos relatórios do Coaf possuem origem lícita e legítima, com lastro compatível com a evolução de sua capacidade financeira.
Esclareça-se que antes de assumir a presidência do São Paulo Futebol Clube, nosso constituído desempenhou e exerceu funções de alta direção na iniciativa privada, com boa remuneração.
Ademais, a origem e o lastro de tais movimentações serão detalhadas e esclarecidas no curso das investigações -com a apresentação de provas, declarações e informações fiscais - justamente para rebater qualquer ilação que se fizer e, ainda mais porque não tiveram acesso à integralidade do inquérito policial", diz o comunicado enviado pelo escritório.
Ao UOL, o São Paulo afirma que monitora as investigações e que agirá de acordo com a lei e com qualquer determinação judicial. O clube ainda afirma que está à disposição das autoridades para prestar esclarecimentos conforme necessário.
Banco alertou sobre movimentações atípicas
A investigação divide-se em três períodos consecutivos, com movimentações atípicas em todos eles.O próprio banco no qual o presidente do São Paulo mantinha conta emitiu alerta ao Coaf ainda em 2023 apontando as operações na conta do dirigente como fora do padrão.

Entre janeiro de 2023 e março de 2024, primeiro período analisado, os relatórios apontam que Casares teria tido entradas de R$ 1,1 milhão -destes, R$ 476 mil em dinheiro vivo, divididos em 17 transações no caixa de agências e 62 em caixas eletrônicos.
No segundo período, entre março e outubro de 2024 foram R$ 600 mil em depósitos -53,5% da renda de Casares no período. O valor foi dividido em 24 transações em guichês de caixa e 12 em caixas eletrônicos.
No terceiro e último período, entre outubro de 2024 e maio de 2025, os relatórios apontam R$ 415 mil em depósitos.
Casares já constituiu defesa na investigação para acesso aos autos. Ele é representado pelo criminalista Daniel Bialski.
O São Paulo também designou o escritório Iokoi Advogados para acompanhar o caso. A banca de advogados é a mesma que, em 2019, representou o clube em outra acusação envolvendo dirigentes.
Na época, foram acusados de desvios de dinheiro os ex-presidente Carlos Miguel Aidar e o ex-diretor jurídico Leonardo Serafim e de lavagem de capitais o ex-diretor adjunto da base Douglas Schwarzmann.
Na ocasião, o São Paulo peticionou se recusando a atuar como assistente de acusação e afirmando que os pagamentos feitos eram dentro da legalidade.
Uol
https://www.uol.com.br/esporte/futebol/ultimas-noticias/2026/01/06/sao-paulo-policia-investiga-r-15-mi-recebidos-em-dinheiro-por-casares.htm





