A política externa precisa deixar de ser romântica e amadora
Por Murillo de Aragão
Nos tempos de hoje, é um imenso desafio escrever uma coluna semanal a poucos dias de sua publicação. Dadas as circunstâncias, entre o momento em que escrevo e a distribuição da revista, novos fatos podem surgir em velocidade avassaladora. A ameaça do tarifaço americano já causa problemas graves e nos pega absurdamente despreparados. Os sinais estavam claros: exemplos anteriores dos Estados Unidos com outros países. Do nosso lado, as ameaçadoras declarações sobre a possibilidade de se criar uma moeda única contra o dólar, a leniência do Brasil com o Irã, entre outros aspectos, criaram zonas de atrito com os Estados Unidos.
O Brasil, no entanto, não interpretou os sinais nem se movimentou de forma estratégica. Em um Brics esvaziado, o país assumiu o papel de liderar o movimento pela moeda do Brics, revelando uma inocência incompatível com a real importância do Brasil e seus interesses nacionais. Enquanto nos queimamos, a China negocia com Trump, se fazendo de desentendida no caso da moeda única. Já a Rússia foi mais clara: apontou o dedo para o Brasil como idealizador do movimento.
Obviamente - e não precisa ser um Oswaldo Aranha para perceber - que o momento exige muita cautela e pragmatismo. Trump deveria ter calculado que sua decisão poderia ajudar o presidente Lula, pelo menos momentaneamente, e prejudicar ainda mais seu aliado Jair Bolsonaro. Mas o despreparo não foi exclusivo do governo. A oposição também foi pega de surpresa, e houve uma clara divisão de narrativas no campo da centro-direita e da direita. A dividida oposição foi capturada pelos interesses pessoais do ex-presidente ao invés de se orientar pelo prejuízo comercial que já está ocorrendo.
"O governo sacode argumentos débeis frente ao que pode ser a maior crise comercial de nossa história"
No momento, o presidente Lula se beneficia do mix do discurso "nacionaleiro" com a retórica do "nós contra eles" - e que está proporcionando algum alívio à sua popularidade. Porém, ainda não sabemos o tamanho do estrago político que a disputa com os Estados Unidos pode causar, pois os danos econômicos ainda não estão claros e todos sabem que, eleitoralmente, a questão econômica será decisiva. As exportações estão sendo suspensas. Financiamentos e investimentos estão sendo cancelados. E o governo, do alto de seu amadorismo, sacode argumentos débeis frente ao que pode ser a maior crise comercial de nossa história desde o crash de 1929.
O acomodado setor privado sempre achou que o relacionamento com os Estados Unidos prosseguiria no piloto automático. Não é assim que funciona. Já a diplomacia se pauta pelas rusgas terceiro-mundistas de sempre, ancoradas no século passado. A defesa dos interesses do Brasil deve deixar de ser figura de retórica de embaixadas esvaziadas por parcos recursos e limitações ideológicas e se mirar em exemplos de países que atuam pragmática e intensamente nas capitais do mundo.
Enfim, o Brasil deve deixar de ser romântico e amador em política externa, elaborar cenários, medir palavras e atitudes, pensar nas consequências e, sobretudo, abrir canais de negociações. O momento exige rara precisão e equilíbrio dos atores políticos. Não é hora de arroubos, arreganhos, bravatas e lacrações retóricas. O que está ruim pode piorar muito mais se o Brasil não souber agir de forma pragmática, prudente e eficiente.
Publicado em VEJA de 18 de julho de 2025, edição nº 2953
https://veja.abril.com.br/coluna/murillo-de-aragao/o-que-esta-ruim-pode-piorar/