José Roberto de Toledo e Thais Bilenky
O deputado licenciado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) fez aproximações sucessivas da Casa Branca ao ponto de ter recebido uma proposta de autoridades americanas de asilo e proteção a seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro. A oferta foi recusada, segundo relato de Eduardo num programa ao vivo na quarta-feira. Mas a operação da Polícia Federal nesta quinta-feira indica que Bolsonaro planejava sair do país em meio ao julgamento pela trama golpista. Foi impedido pela Justiça de se aproximar de embaixadas e pôs tornozeleira eletrônica.
O tema é um dos destaques do episódio desta semana do A Hora, podcast de notícias do UOL com os jornalistas Thais Bilenky e José Roberto de Toledo, disponível nas principais plataformas. Ouça aqui.
A articulação de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos, com colaboração estreita de Paulo Figueiredo - neto do general João Baptista Figueiredo, um dos presidentes da ditadura militar - começou meses atrás. "Os dois fizeram uma dupla e estão rodando os Estados Unidos para fazer as articulações pela anistia do pai (de Eduardo Bolsonaro, Jair Bolsonaro) nos Estados Unidos", revela Thais Bilenky no podcast. A estratégia inicial visava acessar o secretário de Estado, Marco Rubio, chefe das relações exteriores dos EUA. De origem cubana, ele é atento a questões latinoamericanas e poderia ajudar a sensibilizar o presidente Donald Trump à causa bolsonarista.
Segundo apuração de Bilenky com aliados da dupla no movimento MAGA (Make America Great Again), eles pretendiam atingir o ministro Alexandre de Moraes, familiares e colegas do Supremo Tribunal Federal, buscando sanções que os demovessem de prosseguir com o julgamento e eventual condenação de Bolsonaro.
Para se aproximarem de Rubio, Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo buscaram contato com congressistas republicanos da Flórida, estado do secretário de Estado. Aliaram-se à deputada Maria Salazar, de origem cubana, que exibiu uma foto de Alexandre de Moraes no Congresso americano - imagem que "para o MAGA virou icônica", diz a colunista.
Outro nome-chave na articulação foi o senador Rick Scott, também da Flórida, "com quem Paulo Figueiredo se gaba de trocar zap", segundo Bilenky. O deputado Chris Smith, o mais antigo da Câmara dos Representantes americana, com 45 anos de Casa, também entrou na jogada após ouvir o depoimento de Paulo Figueiredo sobre a suposta censura no Brasil.
A operação ganhou força em junho, quando Eduardo Bolsonaro, ao lado do deputado Filipe Barros (PL-PR), se reuniu com o republicano Cory Mills. Uma semana depois dessa reunião, Mills fez uma entrevista com Marco Rubio perguntando se os Estados Unidos aplicariam sanções ao Brasil. "É aquela primeira vez em que o Rubio admite e diz 'sim, é bem possível que isso aconteça', e aí muda o jogo", relata a colunista do UOL.
O plano previa dois cenários: que o material contra o STF chegasse diretamente a Trump, e ele ao "bater os olhos" agisse em favor de Bolsonaro, ou que percorresse o caminho mais longo por vários escalões do Departamento de Estado até chegar ao Salão Oval da Casa Branca. O segundo cenário se concretizou, mas com um resultado inesperado. "Bolsonaro esperava um 'tiro de sniper' dos EUA, mas Trump sacou uma bazuca contra o Brasil com as tarifas", afirma Bilenky.
A reação inicial de Eduardo foi "mais festiva", diz Bilenky. "Achou bacana a bazuca", completa José Roberto de Toledo. Mas logo ficou claro que o tiro havia saído pela culatra. Durante a participação no 'Paulo Figueiredo Show', na quarta, véspera da operação, Eduardo Bolsonaro relatou terem feito três reuniões no Departamento de Estado, totalizando mais de cinco horas de conversas com funcionários de alto escalão e tomadores de decisão. E depois um jantar na Casa Branca, para onde voltariam naquele mesmo dia.
Eduardo disse que pediu aos americanos para falarem com o presidente dos EUA: "Presidente Trump, se possível, substitua as tarifas por sanções a determinadas pessoas." Em outras palavras: "Deu ruim, deu o efeito oposto que a gente queria, muda aí", ironiza Toledo.
Na entrevista após a operação da PF, Bolsonaro disse que sair do Brasil "é a coisa mais fácil que tem", e que seu filho está no país norte-americano para lutar por democracia e liberdade. Mas a realidade é que Eduardo Bolsonaro apostou todo seu capital político nessa articulação, numa estratégia que, segundo ele, poderia tanto consagrá-lo como herói quanto esmagar suas ambições políticas. Pelo andar dos acontecimentos, a possibilidade de sucesso é cada vez menor.
Uol
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