'Jogo político': 'Fenômeno global de dificuldade de reeleição de governantes impacta Brasil e Lula para 2026' |
'Jogo político': 'Fenômeno global de dificuldade de reeleição de governantes impacta Brasil e Lula para 2026'

'Jogo político': 'Fenômeno global de dificuldade de reeleição de governantes impacta Brasil e Lula para 2026'

Newsletter semanal do jornalista Thiago Prado traz entrevista com o pesquisador Maurício Moura, fala dos embates internos no STF no tema da segurança pública e recomenda série sobre o Flamengo e livro de Valter Hugo Mãe

Por Thiago Prado

No último domingo, a acirrada disputa presidencial no Equador foi o retrato de uma realidade global dos últimos seis anos: os chamados incumbentes, aqueles políticos que concorrem à reeleição, estão com dificuldades de conquistar votos e se manter em suas cadeiras nos últimos tempos. Quando vencem, é por margem estreita. Ao contrário do que indicavam as pesquisas equatorianas, o atual presidente direitista, Daniel Noboa, não conseguiu uma vitória folgada e foi para o segundo turno em primeiro lugar contra a esquerdista Luisa Gonzáles por diferença apertadíssima (até o início da tarde desta terça, com 97% das urnas apuradas, os números conquistados pelos dois eram de 44,17% e 43,94%).

Segundo levantamento do economista Maurício Moura, fundador do Instituto Ideia e autor de "A eleição disruptiva: Por que Bolsonaro venceu", das últimas 21 eleições em países democráticos desde 2019, em 17 houve vitória da oposição. E o Brasil, alerta Moura, não estará isolado desse fenômeno global em 2026. Na terceira entrevista da série da newsletter "Jogo Político" com estrategistas políticos e donos de institutos de pesquisa, ele diz por que considera mais provável uma derrota de Lula no ano que vem. Abaixo, os principais trechos da conversa.

Por que você considera mais provável a derrota de Lula em 2026?

Eleição com um presidente no cargo é sempre pautada pela mesma pergunta: merece ou não merece continuar? Foi essa questão que o eleitor respondeu sobre (Jair) Bolsonaro em 2022. É isso que estou testando nas minhas pesquisas agora. Lula tem aparecido com 49% das pessoas dizendo que não merece, e 47% afirmando que merece, ou seja, um empate técnico. Essa pergunta contundente hoje é muito mais importante em pesquisas do que números que têm aparecido por aí como o de intenção de votos ou o tradicional aprova e desaprova que muita gente acaba respondendo que "não sabe". O "merece" ou "não merece" tem alto índice de resposta das pessoas.

Se há um empate técnico, também é possível olhar pelo aspecto de Lula ainda ser extremamente competitivo, então...

Há um copo meio cheio e outro meio vazio, sim. Durante uma campanha eleitoral, quem está na cadeira de presidente costuma melhorar a sua avaliação diante da população. Foi assim com Dilma (Rousseff) e Bolsonaro. Deverá acontecer com o PT no ano que vem. A questão é que é preciso Lula ter uma vantagem muito maior na pergunta do "merece" ou "não merece" nos próximos meses porque, lá na frente, o eleitor dele costuma ser o que mais se abstém de votar. Estamos vivendo um fenômeno global e o Brasil não está isolado. A maioria dos eleitos dos últimos anos no mundo tem baixo teto de popularidade. Principalmente após uma disputa definida por 2 ou 3 pontos percentuais, como foi a de 2022 entre Lula e Bolsonaro. Veja o (Donald) Trump. Ele já iniciou o mandato com a pior avaliação de um presidente americano. Por aqui, a mesma coisa: dois anos depois, o nível de rejeição ao Lula continua alto.

Mas ele tem a máquina federal na mão e mais dois anos para governar...

Desde 2019, acompanhei 21 eleições em nações democráticas no mundo e em 17 houve vitória da oposição. Ou seja, perdeu quem tinha a máquina na mão em 80% dos casos. É preciso estar atento a um tipo de eleitor. O cara que votou na Dilma, em 2014, no Bolsonaro, em 2018 e no Lula, em 2022. Sim, ele existe. É da classe C, recebe de 2 a 5 salários mínimos e mora na periferia. Inflação é um tema muito relevante para esse público, e ele está sentindo o impacto. Além disso, o Lula patinou em segmentos em que sempre foi forte, como o das mulheres, do Nordeste e de baixa renda...

Não foi por causa do erro na crise do Pix?

Sim, mas nesse cenário de governantes com teto baixo de popularidade, não há mais margem para o erro. O governo não pode errar. Vivemos em um cenário em que, independentemente do que o político faça, o outro lado já tem uma opinião pré-estabelecida. Há uma dificuldade global de o incumbente ter a agenda percebida por grupos que não votaram nele. Além disso, conversando com economistas, o cenário não é otimista. O quadro é de inflação e juros mais altos para o futuro, o que se agrava na medida em que a maioria dos países já tem problema fiscal e de aumento de preços no pós-pandemia.

A direita indo para uma disputa com vários candidatos não favorece Lula?

Não acho. Podem ter 300 nomes, quem for para o segundo turno largará com 47% dos votos. O segundo turno será sobre o Lula. Merece ou não merece continuar? Será, mais uma vez, uma disputa definida por 2 ou 3 pontos percentuais.

Dos nomes postos, quem lhe parece mais competitivo?

Acho que Ronaldo Caiado (União Brasil) leva vantagem contra Romeu Zema (Novo) pela estrutura partidária. Tarcísio de Freitas é sempre um nome. O fato de ser governador do maior estado do Brasil sem ser paulista o ajudaria. Fiz anos de pesquisas, e o brasileiro não acha que a agenda de São Paulo é a melhor para o país.

Mas acha que ele tem coragem de arriscar e vir candidato?

Risco muito alto por ter que enfrentar tantos nomes na direita. Acho que não vem.

E outsiders como Pablo Marçal e Gusttavo Lima?

Vamos fazer uma matemática de padaria? Se houver quatro ou cinco candidatos do mesmo campo, quem tem 15% das intenções de votos está no jogo, oras. Em 2002, José Serra foi para o segundo turno contra o Lula com 23% dos votos no primeiro turno, numa disputa com Anthony Garotinho e Ciro Gomes. O (Pablo) Marçal, acho difícil conseguir ser candidato (ele responde a um processo na Justiça Eleitoral por ter mentido sobre o envolvimento de Guilherme Boulos com drogas na eleição do ano passado). Gusttavo Lima não acho improvável, já está até aparecendo citado em pesquisas espontâneas. Dialoga com esse Brasil do Centro-Oeste. Se realmente tiver mais de 10% das intenções de votos, está no jogo, por que não?

Bolsonaro apoiará algum deles em 2026 ou perdeu a relevância essa pergunta?

Perdeu. É claro que ele continua sendo um ator importante, mas deixou de ter o monopólio do campo. Essa diluição da direita o coloca numa posição menor. Não consigo ver Bolsonaro apoiando um terceiro, vejo ele indo com alguém do entorno dele. Porém, um candidato com o sobrenome da família atrai mais rejeição.

Você trabalha com o cenário de desistência do Lula?

Ele é uma pessoa octogenária, pode ser uma hipótese, sim. Mas é o melhor nome, Lula é muito maior que o PT. Não há plano B, não.

Fernando Haddad não é um plano B?

Colocar alguém como ministro da Fazenda e querer que se eleja presidente depois é criar muita expectativa. Só o FHC conseguiu, por causa do Real. São raríssimos os casos no mundo, veja o caso do Sergio Massa na Argentina (ex-ministro da Economia que perdeu a eleição para Javier Milei em 2023).

Qual o impacto Donald Trump pode ter na eleição brasileira?

Há um fenômeno interessante que pode estar se formando. Em países como México e Canadá, oposição e situação estão com um inimigo comum e há um sentimento de patriotismo se formando. Claudia Sheinbaum e Justin Trudeau estavam com problemas internos, e Trump anestesiou as questões de cada um. Se o Lula souber usar um discurso unificador, pode se beneficiar.

Afinal, o governo tem problemas na comunicação?

Por acaso alguém lembra quem era o Secom do segundo mandato do Lula? A verdade é que o governo tem problemas de entregas, e a comunicação não resolve essas coisas. Inflação, saúde e segurança... Sobre comunicação, ainda há outra questão: quem mais rejeita o governo é o eleitor mais escolarizado e de mais acesso aos meios digitais. A disputa já começa desigual na internet, e a questão é apenas minimizar a perda.

Sobre as outras disputas de 2026, o que acha da corrida para o governo do Rio?

Quem for escolhido pelo bolsonarismo será bem votado na Baixada Fluminense e no interior independentemente do nome, locais em que Eduardo Paes terá o desafio de reproduzir a coalizão que o elegeu na capital. Essa é a principal questão dele, sair da prefeitura com apenas dois anos de mandato não será problema. Ele já governou por dez anos, ninguém vai deixar de votar nele por isso.

E a corrida pelo governo de São Paulo?

Muito tranquila para o Tarcísio. Ali é um problemão para o Lula: São Paulo tem 22% da população, e ele não tem palanque por lá. A jogada mais inteligente seria colocar o Geraldo Alckmin como candidato, já foi governador e é reconhecido no interior. Mas é improvável que ele queira e, assim, o Márcio França ganha chances. Agora, se o Tarcísio vier a presidente, a disputa fica aberta.

E a eleição para o Congresso?

Será de altíssima continuidade. O Centrão vai concentrar as vitórias, e os resultados vão seguir os mapas das eleições de prefeitos de 2024. Hoje, já vivemos uma espécie de semipresidencialismo no Brasil, mas há uma leitura internacional interessante sobre isso, e ela não é negativa. Eu, que moro no exterior há anos, posso dizer: quem olha o país de fora, acha que é justamente essa configuração de Parlamento que impede o Brasil de ter radicais. Não importa se é a esquerda ou a direita governando, o mesmo grupo do Centrão continua no poder. Desta forma, somos vistos como um país previsível, por incrível que pareça.




Segurança pública coloca Fachin e Moraes em campos opostos

Nas últimas semanas, o Supremo Tribunal Federal (STF) debateu questões envolvendo o tema segurança pública, e dois dos principais ministros estiveram em lados opostos. Edson Fachin e Alexandre de Moraes apresentaram posicionamentos diferentes nas discussões sobre a ADPF das favelas e da revista íntima de parentes de presos. De um lado uma visão mais "linha-dura", de outro um olhar mais sintonizado com o discurso dos direitos humanos. Quanto mais a violência vira um assunto de interesse nacional, mais vezes veremos a Corte sendo chamada a se manifestar, como foi no caso de exigência de instalação de câmeras nos uniformes de policiais militares.

Para você, leitor, que não está por dentro do tema: a ADPF das favelas foi proposta pelo PSB em 2019 para reduzir a ocorrência de operações policiais com mortes de pessoas. O STF concordou com a ação, e a incursão dos agentes em favelas passou a ter que ser justificada e com regras como a restrição do uso de helicópteros e a obrigatoriedade de ambulâncias, entre outras.

Os defensores da ADPF, como o ministro Fachin, afirmam que a ação cumpriu a sua função e reduziu a violência nas favelas: "Todos os dados e evidências demonstram a obtenção de resultados significativos após a implementação das medidas cautelares. Destaca-se a relevante redução do número de mortes decorrentes de intervenção policial e do número de agentes policiais mortos", disse Fachin. Os críticos da ADPF, como Moraes indicou ser em seu discurso na sessão do último dia 5, dizem que a ação atrapalha a fluidez da atividade policial nas favelas: "No Rio, em qualquer operação contra milícias e tráfico de drogas, me parece óbvio que o armamento a ser utilizado é o mais pesado possível que a polícia tenha. É impossível que nós, aqui do STF, insinuemos à polícia que ela possa ingressar em uma operação contra a milícia e o tráfico e que haja outra possibilidade que não seja com armas letais", afirmou Moraes.

No caso das revistas íntimas, mais uma vez a visão dos dois ministros se chocou. Edson Fachin defende que é "inadmissível a revista íntima com desnudamento de visitantes ou inspeção de suas cavidades corporais", e que as provas obtidas dessa forma devem ser ilícitas. A técnica é usada pelo país quando não há scanners corporais, esteiras de raio-X ou portais detectores de metais: "É possível a revista mecânica e manual não invasiva nessas unidades, sempre de modo respeitoso e em estrita conformidade com a norma legal e o princípio da dignidade da pessoa humana". Alexandre de Moraes pensa de outra forma: "Revistas superficiais é melhor nem prever, não serve para nada. Das 625 mil apreensões, as 625 mil apreensões foram feitas debaixo das roupas ou em cavidades do corpo. É disso que nós estamos tratando."

O editor vascaíno viu a série documental sobre o rival disponível no Globoplay. Em quatro episódios, a grande virtude está nas entrevistas com os quatro integrantes da antiga Chapa Azul, que mudou a história do clube na última década: os ex-presidentes Eduardo Bandeira de Mello e Rodolfo Landim; o atual presidente Luiz Eduardo Baptista, o BAP; e o ex-vice presidente Wallim Vasconcellos. O grupo se desmanchou, mas hoje há um respeito maior quando os integrantes se referem a Landim do que a Bandeira de Mello. No documentário, BAP chama de "rainha da Inglaterra" o primeiro presidente da era de poder da Chapa Azul e diz que não se arrepende de tê-lo chamado de "burro com iniciativa" no passado. Wallim Vasconcellos também desce a borduna no adversário: "Bandeira é uma pessoa que nunca teve poder na vida. Passou 35 anos no BNDES e terminou no terceiro e quarto escalão. Diz muito da capacidade dele. Uma pessoa mediana". Bandeira de Mello reage: "Se acham pessoas superiores por alguma razão".

O documentário exibe os méritos de um clube que saiu de um faturamento de R$ 198 milhões em 2012 para mais de R$ 1 bilhão na era Landim: acordos vantajosos para direitos de TV; mais recursos com novos patrocínios para a camisa e programa de sócio-torcedor; venda de jogadores como Vinícius Junior e Lucas Paquetá. Mas "A reinvenção do Flamengo" também mostra como um pouco de sorte não faz mal a ninguém: o clube escapou do rebaixamento em 2012 após o nebuloso caso Heverton e o desfecho de um Campeonato Brasileiro na Justiça Desportiva; Bandeira assumiu em 1º de janeiro do ano seguinte sem precisar jogar uma segunda divisão e ganhou duas taças na sequência que ajudaram muito a acalmar a ansiedade do torcedor rubro-negro: a Copa do Brasil de 2013, com o ataque composto por Hernane Brocador e Paulinho; e o Carioca de 2014, após o gol decisivo (e impedido) de Márcio Araújo no último minuto contra o Vasco.

Como disse na semana passada, estou em um período dedicado a consumir Valter Hugo Mãe e pretendo trazer um pouco dele para cá ao longo do ano. Neste livro, o português mostra o olhar infantil de uma menina sobre os casais. O livro é curtinho e traz desenhos do autor. O título de Valter Hugo Mãe é uma referência à expressão "o inferno são os outros", do filósofo francês Jean-Paul Sartre. Abaixo, um trecho impactante para tempos de debate sobre solidão e solitude:

"O inferno não são os outros, pequena Halla. Eles são o paraíso, porque um homem sozinho é apenas um animal. A humanidade começa nos que te rodeiam, e não exatamente em ti (...). Sem ninguém no presente nem no futuro, o indivíduo pensa tão sem razão quanto pensam os peixes".

O Globo
https://oglobo.globo.com/politica/noticia/2025/02/12/jogo-politico-fenomeno-global-de-dificuldade-de-reeleicao-de-governantes-impacta-brasil-e-lula-para-2026.ghtml